
Pecadora
Capítulo 2
Você é tão linda, Isabel! Eu a encarei e baixei a guarda, como sempre acontecia. — Isso não importa. — Claro que importa. É linda por dentro e por fora e merece ser muito feliz. — Eu sou. — É nada! — Claro que sou. — Quer me enganar, Isa? — Balançou a cabeça. — Aquele cara não é pra você. É um imbecil! — Não fale assim do Isaque! — Um idiota, como o Abílio! Quer o futuro de Ruth para você? Ser escrava de um babaca burro e gordo, que vai encher você de filhos? — Às vezes, você me irrita! — Saí de perto dela e fui para a porta. Rebeca levantou num pulo e me abraçou por trás, beijando meu pescoço e dizendo entre risadas: — Não fica emburradinha, não! Sabe que amo você e falo pro seu bem! — Pare com isso! Eu ri também, pois fazia cócegas. Abracei-a de volta, cheia de preocupações. Rebeca parecia leve e feliz. — Vai dar tudo certo — murmurou. Eu sabia que não, mas faria jejum e oraria a Deus para que aliviasse a ira do meu pai. — Coloque uma roupa decente e pense com calma — pedi. — Por favor. — Tenho coisas mais interessantes a fazer! — Ela piscou e voltou a se jogar na minha cama. Ficava mais na minha cama do que na dela, que estava sempre bagunçada. Seu tom me alertou de que estava aprontando mais alguma. — Rebeca, por favor, não arrume mais confusão! — Pode deixar, meu amor. — Ela sorriu, maliciosa. Suspirei e saí do quarto. Meus pais, Ruth, meu cunhado e meus sobrinhos, Esther e Paulo, de quatro e dois anos, estavam prontos. Cândida, minha mãe, olhou-me séria. — Ao menos perguntou se sua irmã nos acompanharia hoje para ouvir a palavra de Deus? — Ela não vai, mãe. — Claro que não! — ironizou Ruth. Eu a encarei, séria. Ela adorava piorar a situação. — Vamoslogo.—Meupaipareciairritado.Saiueo seguimos, cada um com sua Bíblia. Morávamos no Catete, em uma vila que tinha sido um cortiço ocupado por portugueses empobrecidos, pessoas de classes baixas que queriam viver na Zona Sul e nordestinos que alugavam quartos baratos. Muitos acabavam não tendo condições de arcar nem com aquilo e caíam em vícios, daí o grande número de mendigos nas redondezas e bêbados nos bares decadentes. Muitas famílias ainda se aglomeravam em quitinetes e casas apertadas, algumas das quais tinham sido incrementadas, ganhando puxadinhos até virarem algo parecido com pequenos prédios sem nenhuma infraestrutura. Camelôs ocupavam as calçadas com suas bugigangas e era normal disputarem a gritos com o funk que saía pelas janelas e com os cultos das pequenas igrejas que pipocavam pelo bairro. A confusão sonora e visual chegava a causar dor de cabeça. Roupas balançavam nos varais externos naquela manhã de domingo, ressaltando a aparência feia da vizinhança. A feira do dia anterior tinha deixado um cheiro de frutas podres no ar devido aos montes de lixo acumulados nos cantos à espera do lixeiro, que só passaria na segunda-feira. Para piorar, os vira- latas espalhavam todo o lixo em busca de comida. Meus pais seguiam à frente na calçada, sérios, bem- arrumados. Ele, de terno; ela, com uma roupa de domingo. Abílio ia depois, com o filho caçula no colo. Estava bem acima do peso, e suas pernas roçavam uma na outra. Seus cabelos rareavam, embora não tivesse nem trinta anos. Suava muito e, assim como Ruth, parecia acabado. Minha irmã vinha ao meu lado, respirando fundo por conta do peso da barriga de sete meses. Levava a filha pela mão. Nas esquinas, prostitutas e travestis já tinham encerrado o expediente da noite anterior. Algumas iam para casa por ali mesmo, outras paravam num bar para tomar a saideira. Eu tinha a impressão de que a pobreza se perpetuava em certos lugares. Muitas pessoas tinham passado pelo bairro, mas eu não via ninguém melhorar de vida nem tentar mudar aquele lugar. Digo, meu pai bem que tentava. Ele tinha montado na igreja um programa de arrecadação e distribuição de alimentos e iniciativas para arrumar emprego e moradia para quem não tinha e para auxiliar vítimas de tragédias. O pastor Sebastião podia ser excessivamente rígido, seguindo seu entendimento dos textos bíblicos e impondo costumes à família e aos fiéis, mas era um homem honesto, que tentava ser justo e nunca tinha desviado nem um real da igreja para proveito próprio. Vivíamos apenas do seu salário como pastor. Tudo o que arrecadava ele investia em obras sociais. Ajudava muita gente, a ponto de não ter tempo para si mesmo. Deixava suas vontades de lado em nome de algo maior, que era evangelizar. Cada pessoa que levava para a igreja, cada alma que libertava do que entendia como vício ou pecado, era uma vitória para ele. Dizia ser esse seu papel no mundo. Depois de muitos anos de trabalho, a sede da igreja Deus É Por Nós era própria e tinha sido reformada. Era simples, com bancos de madeira compridos, e estava sempre impecável. À frente, tinha espaço para um órgão, duas grandes caixas de som, um púlpito com microfone e com apoio para a Bíblia e uma mesa com cadeiras de espaldar alto. Os fiéis já começavam a chegar com seus livros sagrados. Todos tinham mais ou menos o mesmo estilo: homens de terno ou camisa social, mulheres com cabelos longos e roupas compridas. — Todas as famílias vêm inteiras para o culto. E eu, que sou o pastor, que deveria dar o exemplo, tenho a família desfalcada — disse meu pai, baixo e entredentes, visivelmente contrariado. — Tudo vai se resolver. Deus cuidará, Sebastião — disse minha mãe, que no fundo também parecia irritada. Ruth, contrariando minhas expectativas, não aproveitou a oportunidade para ressaltar como Rebeca agia errado e como ela, ao contrário, era obediente e temente a Deus. Senti o nervosismo voltar. Rebeca não parecia ligar para a reação de nossos pais à sua notícia, embora o clima em casa me fizesse imaginar que a qualquer momento uma tragédia podia acontecer. Por mais rigoroso que meu pai fosse, tinha suportado muitos caprichos da filha rebelde. Ela o humilhava perante a congregação, deixando claro que ele não tinha domínio sobre ela, que a casa do pastor não era de paz e que havia um ente desvirtuado, que não respeitava o que ele mesmo pregava. Todos se voltaram para nos cumprimentar quando chegamos. Eu sentia que nos tratavam com um respeito excessivo só por sermos parentes do pastor. Éramos admirados e servíamos como exemplo, e por isso as ações de Rebeca preocupavam tanto meu pai. A maioria dos fiéis achava que o demônio queria enfraquecer a obra do pastor corrompendo sua filha. As pessoas oravam por ela e acreditavam numa vitória final de Deus, o único capaz de trazê-la de volta como uma ovelha desgarrada. Na primeira fileira, encontramos meu namorado, Isaque, e seus pais. Nós nos conhecíamos desde sempre, e ele tinha sido o único homem aprovado como meu futuro marido pelos meus pais.
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