
Paraíso Escondido: O Berço da Vingança
Capítulo 3
O gosto amargo do vômito persistia em sua boca.
Nojo.
Dele, dela, de si mesma.
Lembrou-se das exigências de Ricardo.
A higiene excessiva antes de qualquer intimidade.
Banhos demorados, perfumes específicos.
Ela sempre achara que era um capricho, uma peculiaridade.
Agora, a verdade a esmagava.
Era apenas para ela.
Com Isabella, ele certamente não tinha tantas frescuras.
O amor dele nunca fora dela.
No dia seguinte, no escritório, Ricardo era o noivo perfeito.
Contava aos colegas sobre os preparativos da festa, os olhos brilhando.
"A Sofia tem um gosto impecável, mas eu estou dando meus palpites, claro."
Os colegas sorriam, invejando a "sorte" de Ricardo.
"Conquistou a herdeira, hein?" alguém brincou.
Ricardo riu, modesto.
"Ela que me conquistou."
Sofia observava, a máscara da noiva feliz firmemente no lugar.
Ninguém percebeu a tempestade em seus olhos.
Ela o testou, sutilmente.
"Amor, viu minhas mensagens ontem à noite? Tentei te ligar."
Ele a olhou, surpreso.
"Ah, desculpe, meu bem. Reunião se estendeu, cheguei tarde e capotei. Nem vi."
Mentiroso.
Ele sequer gaguejou.
Em casa, à noite, a farsa continuou.
Ela tentou uma aproximação, um toque.
Queria ver a reação dele, testar os limites da sua repulsa.
Ele a rejeitou friamente.
"Estou exausto, Sofia. Hoje não."
Ela assentiu, a dor se transformando em uma fúria gelada.
Esperou que ele dormisse.
Pegou o tablet dele, aquele que vivia sincronizado com o WhatsApp.
Não precisou de senha. Ele confiava na sua "ingenuidade".
Mensagens. Fotos. Vídeos.
Ricardo e Isabella.
Explícitos. Degradantes.
Ele a chamava de "minha deusa".
Para Sofia, sobrava o "meu bem", dito com a mesma entonação que se usa para um animal de estimação.
A dor era física, cortante.
Ela foi até a cozinha, pegou um copo d'água.
Deixou-o cair.
"Acidentalmente".
Os cacos se espalharam pelo chão.
Um deles cortou sua mão.
Sangue.
Ela não sentiu.
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