
Ou Ela, Ou Eu
Capítulo 2
Hoje era o meu aniversário de trinta anos, um marco.
Eu tinha reservado o nosso restaurante favorito, aquele onde o Lucas me pediu em casamento.
As velas na pequena mesa para dois já estavam acesas, a luz delas dançava suavemente.
Olhei para o relógio na parede, depois para o meu telemóvel.
Ele estava uma hora atrasado.
Uma sensação familiar de aperto começou no meu peito.
"Parabéns a você," cantei baixinho para mim mesma, a voz um pouco trémula.
O empregado de mesa aproximou-se, o seu sorriso profissional vacilou um pouco quando viu a minha mesa ainda vazia.
"Mais alguma coisa, senhora?"
"Só mais um pouco de água, por favor."
Peguei no telemóvel outra vez, o nome "Lucas Meu Amor" brilhava no ecrã.
Hesitei, mas depois liguei.
Chamou, chamou, chamou.
Quando estava quase a desligar, ele atendeu.
A voz dele estava ofegante, com ruído de fundo.
"Sofia? O que foi? Estou ocupado."
Ocupado. No meu aniversário.
"Lucas, onde estás? Estou no restaurante."
Houve uma pausa, e ouvi uma voz feminina ao fundo, a voz da Clara, a irmã dele.
"Ah, Sofia, desculpa! Esqueci-me completamente. A Clara teve uma crise de ansiedade, tive de vir a correr."
Clara. Sempre a Clara.
"Uma crise de ansiedade?" perguntei, tentando manter a minha voz neutra. "Ela está bem?"
"Sim, sim, está a acalmar-se agora. Dei-lhe um chá. Sabes como ela é."
Sim, eu sabia. Clara era frágil, Clara precisava de apoio constante, Clara não conseguia lidar com nada sozinha. Pelo menos, era o que o Lucas sempre dizia.
"Então, não vens?" A pergunta saiu mais fraca do que eu queria.
"Hoje? Acho que não vai dar, Sofia. Tenho de ficar de olho nela. Podemos comemorar noutro dia, certo?"
Noutro dia. Como sempre.
"Certo," murmurei.
"Ótimo! Tenho de ir, a Clara está a chamar-me. Beijo!"
E desligou.
Fiquei a olhar para o telemóvel.
O empregado voltou com a água.
"O seu marido não vem?" ele perguntou, com uma simpatia cautelosa.
Forcei um sorriso. "Parece que não. Um imprevisto."
Paguei a água e saí do restaurante, deixando o bolo de aniversário intocado na mesa.
Lá fora, o ar da noite estava frio.
Apertei o casaco à volta do corpo.
Isto não era novo. A Clara vinha sempre primeiro.
Mas hoje, no meu trigésimo aniversário, a dor pareceu diferente, mais funda.
Você pode gostar





