
Os Seis Meses Que Mudaram Tudo
Capítulo 3
No dia seguinte, a minha mãe, a Laura, veio visitar-me. Ela trouxe o meu prato favorito, bacalhau à Brás, mas eu não tinha apetite.
Ela sentou-se à minha frente na mesa da cozinha, com o rosto cheio de preocupação.
"Ana, estás tão pálida. Estás doente?"
Eu não conseguia contar-lhe sobre o cancro. Ainda não. Mas podia contar-lhe sobre o Pedro.
"O Pedro está a ter um caso, mãe. A mulher está grávida."
A minha mãe ficou boquiaberta. A sua mão voou para a boca. Ela sempre adorou o Pedro, via-o como o filho que nunca teve.
"Não pode ser", sussurrou ela. "O Pedro não faria isso. Deve haver um mal-entendido."
"Não há, mãe. Eu sei que é verdade."
Ela abanou a cabeça, recusando-se a acreditar. "Ele ama-te, Ana. Talvez esteja apenas confuso. Os homens cometem erros. Tens de ser paciente. Tens de lutar pelo teu casamento."
"Lutar? Ele é que me traiu."
"E tu vais desistir assim tão facilmente?", insistiu ela. "O casamento é um compromisso. Para o bem e para o mal. Ele vai voltar para ti. Só precisas de lhe dar tempo."
As suas palavras eram como sal numa ferida. Ela não estava do meu lado. Estava do lado da ideia de um casamento perfeito, do lado do genro que ela idealizava.
"Eu pedi o divórcio", disse eu calmamente.
A minha mãe levantou-se abruptamente, a cadeira arrastou-se ruidosamente no chão.
"Divórcio? Estás a perder o juízo? Vais deitar fora anos de casamento por causa de um erro? Ana, pensa bem! Vais arrepender-te disto."
A sua voz era aguda, cheia de desapontamento. Não por ele, mas por mim.
"Eu já pensei, mãe."
"Não, não pensaste! Estás a ser egoísta! Um divórcio seria uma vergonha para a nossa família!"
Ela pegou na sua mala, com o rosto vermelho de raiva. "Quando recuperares o bom senso, liga-me."
Ela saiu, batendo a porta com força.
Fiquei sozinha outra vez. Nem a minha própria mãe conseguia ver a minha dor. Para ela, a aparência de uma família feliz era mais importante do que a minha felicidade real.
Naquela tarde, recebi uma chamada de um número desconhecido.
Atendi.
"É a Ana?" A voz era de uma mulher, jovem e hesitante.
"Sim, sou eu. Quem fala?"
"O meu nome é Sofia."
O meu sangue gelou.
"O que é que queres?", perguntei, a minha voz a sair mais áspera do que eu pretendia.
"Eu só... eu só queria falar consigo. O Pedro disse-me que pediu o divórcio. Eu não queria causar problemas."
"Já é um pouco tarde para isso, não achas?"
Ela começou a chorar ao telefone. Eram soluços suaves, calculados. "Eu amo o Pedro. E ele ama-me a mim. Ele só está consigo por pena. Ele disse-me que o vosso casamento já tinha acabado há muito tempo."
Pena. Era isso que ele sentia por mim.
"Se é isso que ele te disse, porque é que me estás a ligar?", perguntei friamente.
"Eu só quero que o deixe ir. Deixe-o ser feliz. Nós vamos ter um bebé. Uma família. Por favor, não seja egoísta. Assine os papéis do divórcio e deixe-nos em paz."
Egoísta. Era a segunda vez que ouvia aquela palavra hoje.
"Ouve-me com atenção, Sofia", disse eu, a minha voz baixa e controlada. "Eu não vou a lado nenhum. Se o Pedro te quer, terá de lutar por isso. Mas vou tornar-lhe a vida um inferno."
Desliguei o telefone. O meu corpo tremia de raiva.
Eles queriam que eu desaparecesse silenciosamente. Queriam que eu facilitasse as coisas para eles.
Mas eu tinha seis meses de vida. E não ia passá-los a ser uma vítima.
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