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Capa do romance Os Mulherengos

Os Mulherengos

Os príncipes gêmeos do Setentrião enfrentam um ultimato real: casar e gerar herdeiros para abafar um escândalo que ameaça o trono. Embora sejam conhecidos como mulherengos e donos de um famoso cabaré, o verdadeiro desafio do rei não é a vida boêmia deles. O impasse surge da condição peculiar dos irmãos, que compartilham todas as suas parceiras. Eles aceitam a missão de ter filhos, contanto que possam engravidar a mesma mulher juntos.
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Capítulo 3

— Sei que você sempre invejou por eu ter passado na Bolshoi, mas acredite, não foi esse sonho todo — rio de nervoso.

Espero o primer secar, abano meu rosto com os dedos.

— Na verdade eu tive que treinar mais de 10 horas por dia, todos os dias, com professores que exigiam nada mais do que a perfeição. Eles lembravam muito o meu pai...

Ensaio um sorriso para deixar as coisas menos tensas.

— Tinha uma, a professora Petrovna, que usava uma régua de madeira para bater na gente... eu amava — balanço os ombros, confusa com o que estou dizendo. — O que eu quero dizer, é...

— Roooooinc — o homem ao meu lado, que parece que não toma banho há 3 dias, avisa que ainda está aqui.

Deveria ser proibido entrar em qualquer lugar fechado sem desodorante e um bom perfume. Mas esse foi o meu ticket para sair daquele mundo, de novo. O Sheik Rhayan foi muito atencioso e ágil ao comprar a última passagem desse voo para que eu fosse vê-lo.

No início relutei. Passei todos esses meses enrolando para o encontro. Mas cheguei ao meu limite, eu precisava sair dali ou morreria, ao menos por dentro.

É claro que ele sugeriu me buscar de avião, mas só poderia fazer isso daqui 5 meses. Eu não tinha todo esse tempo. Estava prestes a surtar.

— Foi em Moscou que eu conheci o Pyotr Ivanov. É, eu tinha 15, ele tinha 30. E eu me sentia descolada, sabe? Era legal, ele era adulto, vinha de uma família rica, disse que se dependesse dele e com o meu talento, me faria ser a bailarina mais famosa do mundo.

Palavras, assim como lembranças, rasgam a carne feito uma navalha. Pyotr foi o meu primeiro amor, eu me entreguei a ele e por alguns meses aquela foi a melhor relação do mundo todo.

— Eu nunca tinha desconfiado dele, sabe, Danda? — Passo corretivo nessas olheiras, depois espalho a base pelo rosto. — A Alícia, minha colega de quarto na Bolshoi, desapareceu. Depois a Emily... a Karina... todas da minha turma — lamento.

Termino a primeira parte da maquiagem e analiso meu rosto: pareço novinha em folha. Agora só colocar os contornos e finalizar.

— Ele nunca me fez mal. Mas era ele, sabe? Ele e a família estavam metidos nessa coisa de capturar garotas e... não sei, não sei para onde as levavam, só sei que nunca voltavam — sacudo os ombros.

Quando se namora um cara assim, não dá para terminar de

boa.

Não dá para dizer: o problema não é você, sou eu.

O problema era ele. Claro que era ele. Se tinha um problema,

esse problema era ele.

Mas é difícil argumentar quando um homem coloca uma arma dentro da sua boca, empurra o cano até a sua garganta e te faz prometer que você nunca iria deixá-lo.

— Sim, é o que você está pensando — admito, derrotada. — Eu fugi, no meio da noite e voltei para o Brasil com o rabinho entre as pernas. Eu estava treinando para uma nova peça que ia rodar o mundo todo, meus professores estavam impressionados, mas você sabe... não posso ser a melhor bailarina do mundo... se estiver morta.

A única coisa que Dandara sabe é que voltei para Recife porque meu pai morreu e precisei cuidar da minha mãe. Mentira. Eu estava desesperada, precisava de um motivo para não me envergonhar, mas quando encontrar a minha melhor amiga, abrirei meu peito e direi toda a verdade.

— Agora você não precisa se preocupar, Danda. Eu já resolvi tudo. O Pyotr é passado, agora eu tenho o Sheik Rhayan e poderemos nos ver sempre porque nós duas estamos nos Emirados Árabes! — digo animada. — Você não sabe como senti a sua falta, amiga. Eu te amo tanto e fico feliz que você me ouviu e veio ser babá de gente rica. Quem sabe eu não...

Nem consigo concluir a frase.

O desgraçado sentado ao meu lado, vira na poltrona com a bundona em minha direção e peida.

É silencioso. E todo mundo sabe que esses são os piores.

Tusso alto e preciso cobrir o nariz para me salvar. As pessoas se levantam revoltadas, nas poltronas ao redor, xingando bastante enquanto o serviço de bordo tenta acalmar toda a classe econômica.

Eu? Derramo toda a água micelar na bunda desse porco, só para ver se tira umas impurezas.

— Oi? Que? Chegamos? — Ele se levanta assustado, entra no meio da confusão do corredor.

— Em trinta minutos — digo, passando um blush e arrumando a sobrancelha, nem me indigno a encará-lo.

Enfim esse inferno vai acabar. O avião está prestes a pousar em Awmaj e aqui encontrarei o meu Sheik e vamos, sei lá, para qualquer lugar que ele queira me levar. Paris? Londres? Quem sabe o Japão?

Ele é bem viajado, sempre está rodando o mundo e agora chegou a minha vez de ter o meu milkshake.

— Tá gata, hein — o homem se senta e estica o rosto em minha direção.

— Estou e não é para você — afasto-o com um safanão.

Não tenho pressa para descer do avião. Pego a mala de mão e sigo as indicações do aeroporto para pegar a minha mala despachada.

Tento usar o 4g para mandar mensagem para Dandara, mas o sinal está péssimo. Por isso me apresso, assim que sair do desembarque, vou comprar um chip e anunciar a minha chegada.

Ela não vai entender nada, mas vai adorar a surpresa.

Sigo a multidão para chegar à saída, onde pessoas aguardam os passageiros com placas, flores, familiares.

O que será que o meu Sheik aprontou? Seria bom que trouxesse comida, pois estou com fome. Comi no avião, mas eu preciso urgentemente de um chocolate ou algo delicioso, sei que ele terá algo.

Rhayan e eu temos uma conexão profunda desde a primeira conversa. Ele ama ballet, já foi me assistir. E é um expert na área do sexo, só pelas descrições que ele fez, minha imaginação voou longe.

— Estou chegando — digo animada ao ver a porta de saída.

Vou conter a minha vontade de pular em cima do homem e enchê-lo de beijos. Primeiro que aqui, isso não é apropriado. Ainda mais para o filho do Emir de uma cidade tão poderosa nos Emirados.

É bonito assistir (re)encontros, ainda mais no aeroporto.

Nossa, quando a minha mãe foi me buscar no Aeroporto Gilberto Freyre, ficamos abraçadas por pelo menos dez minutos. E chorando por dias.

Abro um sorriso de canto, não consigo controlar minhas emoções ao ver amigos se encontrarem. Uma mãe abraça sua filha como se nunca mais fosse soltá-la. Será que estão há quanto tempo sem se ver? Ela foi fazer faculdade? Se casou?

A mãe ajeita o véu na cabeça dela e a ajuda a carregar a

mala.

No lugar onde eu esperava e até desejava que estivesse

Sheik Rhayan e seus seguranças, vejo um homem com terno preto, sem barba, uma tatuagem na parte lateral da cabeça raspada.

Ele segura flores, ponto para ele. E uma cesta com chocolates, sete pontos para ele. Está sozinho, corajoso, olhos fixos em mim.

Assim que o vejo, mudo minha trajetória para ir em outra direção.

— Vanessa? — Me chama, seu sotaque russo é bem marcante.

— Não — é tudo o que tenho a dizer, empurro as duas malas com dificuldade, mas sigo meu caminho.

— Permita-me te ajudar — ele tenta tirar as malas das minhas mãos.

— Não! — Sou mais incisiva.

Não apenas me desvencilho, como aumento o passo.

Viajar com um tênis confortável e calça de treino tem lá seus encantos.

— Onde pensa que vai? — Pyotr quase se joga na minha frente, de toda sorte, parece centrado em impedir meu caminho.

— Eu vou para o meu final feliz, se é que você quer saber — largo a mala só por um instante e aponto para o lado direito do meu pescoço.

“Confie na vida”, é o que diz.

— E como é o seu final feliz? — Ele ri, tenta pegar minha bagagem, mas eu sou mais rápida.

Antes que o responda, ele insiste em me entregar as flores, espero que ache um defunto para presentear. E essa merda de

chocolate, nem que fosse a última comida do mundo colocaria isso na boca.

Sei que tem um boa noite cinderela bem gostoso dentro do recheio.

Preciso admitir que estou tremendo de medo, mas só por dentro. Por fora me mantenho séria, firme, inabalável. Quando falo, calibro a voz para dizer tudo com clareza, força e segurança.

— Deixe-me adivinhar, ele é um Sheik.

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