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Capa do romance Os Indesejados, Os Imparáveis

Os Indesejados, Os Imparáveis

Após dez anos órfã, reencontrei minha família, mas virei apenas a sombra da minha gêmea, Cristina. Meus pais e meu namorado, Thiago, tramaram pelas minhas costas; ele a pediu em casamento na minha frente, descartando-me por mensagem. Ao confrontá-los, fui vítima de uma armação cruel: Cristina fingiu uma agressão e meu pai me espancou, jogando-me na rua. Acusada injustamente pela polícia e humilhada, eles acham que me apagaram, mas a guerra começou.
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Capítulo 3

Eu ri até as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. O absurdo daquilo era demais. Dividir ele. Como se ele fosse um brinquedo e ela a irmã mais velha benevolente me oferecendo a minha vez.

"Você é inacreditável", eu finalmente consegui dizer, ofegante, enxugando os olhos. "De verdade."

Cristina se encolheu como se eu a tivesse esbofeteado. "Eu só estava tentando ajudar."

"Não, não estava", eu disse, minha voz ficando fria. "Você passou a vida inteira 'ajudando'. Lembro-me de quando cheguei aqui. Você 'ajudava' me dando suas roupas velhas, e depois dizia para suas amigas que eu não tinha bom gosto. Você 'ajudava' com o dever de casa, e depois levava o crédito pelas minhas boas notas. Você nunca fez uma única coisa por mim que não te beneficiasse mais."

"Isso é uma coisa horrível de se dizer!", gritou Alice, agarrando Cristina protetoramente.

"É a verdade", eu disse, virando as costas para eles. "Cansei. Vou pegar minhas coisas e vou embora."

"Embora?" A voz de Cristina era afiada de pânico. As lágrimas desapareceram instantaneamente. "Você não pode ir embora! Quem vai pagar a prestação da casa no mês que vem?"

A pergunta pairou no ar, crua e egoísta. Era a única coisa com que ela realmente se importava. Não com a minha dor. Não com a traição. O dinheiro.

"Você tem um noivo rico agora", eu disse por cima do ombro enquanto caminhava em direção às escadas. "Manda ele pagar."

"Volte aqui!", rugiu o Coronel. "Você não vai a lugar nenhum até pedir desculpas para sua irmã!"

Eu o ignorei e comecei a subir as escadas. Meu quarto ficava no fim do corredor, um espaço pequeno e apertado que antes era um depósito. Minhas poucas posses não levariam muito tempo para embalar.

Quando cheguei ao topo da escada, a voz da minha mãe, de repente suave e suplicante, me parou.

"Laura, querida, espere."

Parei, mas não me virei.

"Não faça isso", disse Alice, sua voz tremendo. "Nós estávamos apenas chateados. Não queríamos dizer aquelas coisas. Seu pai é apenas... protetor com a Cristina."

Permaneci em silêncio. Era uma tática familiar. A explosão, seguida pelo pedido de desculpas suave e manipulador. Tinha funcionado centenas de vezes antes.

"Nós te amamos, Laura", disse ela, a mentira soando fina e gasta. "Ficamos tão perdidos quando você se foi. Procuramos por você por anos. Não nos deixe de novo. Isso me mataria."

A performance era quase convincente. Mas esta noite, eu tinha visto por trás da cortina.

"Você me disse que nunca tiraram férias por dez anos porque estavam usando cada centavo para me procurar", eu disse, minha voz seca. "Você disse que não suportavam a ideia de se divertir enquanto eu estava desaparecida."

"Isso é verdade, querida", disse ela ansiosamente. "Cada dia foi uma agonia."

Eu me virei lentamente. "Engraçado. Porque quando eu estava arrumando umas caixas velhas no sótão no mês passado, encontrei um álbum de fotos. Estava cheio de fotos da sua viagem para o Havaí em 2005. Seu cruzeiro para o Caribe em 2008. Sua viagem para esquiar em Bariloche em 2011. Vocês dois parecem tão... agonizados."

O rosto de Alice congelou. A cor sumiu dele. O Coronel desviou o olhar, um músculo se contraindo em sua mandíbula.

"Você mentiu", eu disse simplesmente. "Você mentiu sobre tudo."

"Você não entende...", gaguejou Alice.

"Ah, eu entendo perfeitamente agora", eu disse. "Eu não era uma filha perdida por quem vocês sofreram. Eu era um problema vergonhoso que vocês tinham resolvido. E quando eu apareci de novo, me tornei um novo problema. Uma fonte de renda e um bode expiatório conveniente."

"Como ousa!", berrou o Coronel, seu rosto ficando vermelho novamente. "Nós te demos uma segunda chance!"

"Não", eu disse, balançando a cabeça. "Vocês deram uma segunda chance para a Cristina. Às minhas custas."

"Laura, por favor", implorou Cristina, sua voz assumindo aquele tom choroso e suplicante que ela usava quando queria algo. "Não faça isso. Mamãe e papai estão apenas estressados. Pense no meu casamento! Os Monteiro vão fazer perguntas se você não estiver lá. Vai pegar mal."

Sempre era sobre como as coisas pareciam.

"Você deveria ter pensado nisso antes de roubar meu namorado", eu disse, virando-me novamente. "Vou pegar meu dinheiro e vou pegar minha vida de volta."

Minha mãe começou a chorar então, soluços altos e teatrais projetados para me quebrar. "Minha própria filha, me acusando de tais coisas! Depois de eu ter sofrido por tantos anos! Eu quase morri de coração partido!"

Eu tinha ouvido essa história mil vezes. A história da mãe enlutada. Eu costumava chorar com ela, segurar sua mão e prometer que nunca mais a deixaria.

Esta noite, eu não senti nada. O poço da minha simpatia havia secado.

"Eu não devo nada a vocês", eu disse, minha voz dura. "Minha dívida está paga. Eu trabalhei por dez anos, sobrevivendo a coisas que vocês nem imaginam. Eu vim para cá e trabalhei para vocês. Paguei pelo conforto de vocês com a minha dor. Estamos quites."

Olhei para os três, um pequeno quadro perfeito e miserável de mentiras e ganância.

"Eu não sou parte desta família", eu disse, a percepção se instalando em mim com uma estranha sensação de paz. "Sou só o fantasma que paga as contas."

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