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Capa do romance Os Chefes do Morro

Os Chefes do Morro

Criada sob regras rígidas no interior paulista, Camila desconhecia a criminalidade até perder os pais em uma tragédia. Sem alternativas, ela se muda para o Morro do Adeus, no Rio, para viver com uma tia distante. Lá, sua vida se entrelaça com a de João Miguel, o temido chefe do tráfico, e seu irmão João Vitor. Ao tornar-se babá do caçula da família, Camila mergulha em uma paixão intensa pelos dois irmãos, desafiando preconceitos em um perigoso cenário de guerra e poder.
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Capítulo 3

Que garota era aquela? Eu estava sentindo até agora os tapas dela em meu peito e claro que quando fui embora soltei uma gracinha pra ela.

- Adorei sentir suas garras, mas seria melhor se colocasse elas pra fora em outro momento. - vi Bianca arregalar os olhos e rir enquanto a prima parecia não entender sobre o que eu falava.

Sai de lá seguindo Miguel e pelo humor dele hoje eu sabia que a briga ia ser feia com os meninos, me surpreendeu ele não ter gritado com a pobre menina.

Camila. Ouvi Bianca a chamar assim, nome bonito e ela ainda mais. Quando se jogou em cima de mim eu adorei sentir os tapas dela e o corpo se sacudindo contra o meu, deu pra sentir que por trás do moletom que ela usava tinha um corpo cheio de curvas.

O que eu podia fazer? Sou homem e estou longe de ser do tipo santinho. Eu gosto de sexo e de mulher bonita, Camila é os dois.

Faço uma nota mental de enviar uma mensagem pra Bianca e pedir pra ela levar a prima no baile amanhã. A garota era nova no Rio de Janeiro, eu podia ser seu guia perfeito.

- Que merda vocês tavam pensando? - Miguel brada assim que fecho a porta atrás de mim e os meninos se encolhem.

Eles eram mais do mesmo, não iam a escola e meu irmão dava um jeito de colocar para trabalhar. Segundo Miguel era melhor na cola dele, que botava ordem, do que dos pais que não estavam nem aí pro que o garoto ia fazer.

- A gente pensou que era uma pati da zona sul. - galeto falou sentado na mesa e evitando encarar meu irmão.

- Nunca que ia roubar gente daqui, chefe!

Miguel com toda sua pose assustava, ele era alto um e oitenta, ainda por cima malhava e se orgulhava de ostentar um corpo sarado, pra completar a obra ele tinha tatuado quase o corpo todo, até mesmo na bochecha, testa e por aí vai.

Como se não bastasse tudo isso ele tinha criado sua fama de bandido mal, e não era apenas histórias, ele tinha mesmo feito todo o tipo de atrocidade com quem tentava tomar o poder aqui no morro.

Então eu entendia esses meninos estarem se tremendo com as cabeças baixas e temendo o pior. As vezes até eu esquecia que ele era o irmão mais velho que me ensinou a empinar pipa e jogar bola.

Miguel tinha aprendido a mostrar esse lado dele apenas dentro de casa. Enquanto eu cresci estudando, ele cresceu vendo bandido levar tiro e aprendendo a atirar e torturar.

- Vou repetir pela última vez. Não me interessa se ela é pati, rica, ostentando carrão e celular do ano! Não é pra roubar na porra da entrada do morro. - ele bateu a mão na mesa e os dois pularam no lugar. - Vocês ganham uma vida boa aqui, comem bem, tem beca bonita, as meninas chegam em vocês nos baile. O que mais vocês quer?

- Desculpa chefe.

- Não vai acontecer de novo!

- E porque não vai? - o silêncio reinou, eles claramente estavam com medo de responder e errar. - Quero que os dois me respondam olhando na minha cara, porra!

- Porque vamos atrair atenção pro morro! - foram rápidos em responder juntos.

- E o que eu fiz com bandido pé de chinelo que roubava e trazia a polícia tudo pra nossa cola?

Eu resisto a vontade de corrigir o português dele, Miguel detesta isso e a última coisa que eu preciso agora é dele mais irritado.

- Matou e jogou no rio. - a voz deles agora não tem tanta confiança, o medo do que pode acontecer com eles se fizerem besteira.

- Ótimo! Que bom que nos entendemos. - ele se abaixou ficando na altura dos rostos deles de forma ameaçadora. - Vão lá na sede, tomar um banho e comer. A garota acabou com vocês.

Eu não resisti e gargalhei levando todos os outros a rir junto. Ela tinha mesmo dado um belo "olé" nos dois garotos armados.

- Valeu chefe! Pode deixar que se a gente ver ela vai passar longe.

- Não quero cruzar com aquela mina nem pintada de ouro. - galeto emendou. - Garota surtada!

- É bom mesmo. Agora se mandem!

Os dois não esperaram outra ordem, correram de lá como se estivessem fugindo do capeta.

- Você coloca um medo danado nesses meninos, hein!?

- Medo não, é respeito! Eles sabem que devem me temer, sou legal, mas arranco as bolas de um sem pestanejar. - Miguel se virou pegando o rádio e informando quem deveria descer enquanto os meninos faziam uma hora lá na sede.

Sede era o lugar que ele tinha feito aqui na comunidade, era como uma grande casa, com espaço pra tudo. Tinha creche, futebol, aula de artes marciais e tinha lugar pro pessoal dormir, comer, gente que não tinha condições.

Miguel decidiu fazer isso quando viu que estamos prosperando bem com os investimentos na bolsa, ele decidiu ajudar quem mais precisava, já que nossos governos só faziam boas ações em ano de eleição.

- Vou buscar o Juninho ali. Antes que ele deixa a dona Isabel louca.

- Mais louca você quis dizer, não é? Vou contigo, não esquece que prometeu pra ele um doce!

Eu sabia que ele via Juninho quase como um filho, afinal nós dois que criamos aquele menino desde o momento que ele nasceu. Mas Miguel foi quem passou mais tempo com ele, enquanto eu estava terminando a faculdade. Foi duro enfrentar o período de luto tão grande, primeiro nosso pai, uns meses depois nossa mãe.

Viramos a esquina e Miguel parou, me fazendo encará-lo com curiosidade.

- Tu tá vendo o que eu tô vendo? É aquela garota de novo? - olhei para onde ele apontava e vi Camila atravessando a rua.

- Ela é uma gata, não é?

- Não começa com graça, já viu que a garota gosta de dar show! Vai se meter com ela e depois aturar maluca pra cima e pra baixo atrás de tu.

Eu estava prestes a falar quando Juninho saiu da mercearia da dona Isabel e nos viu. Ele não parou nem pensou, só colocou o pezinho na rua indo atravessar. No mesmo instante o barulho do motor de uma moto, que descia a toda velocidade encheu meus ouvidos e eu paralisei esperando pelo pior.

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