
Olhe em meus olhos
Capítulo 3
Hugo Sanders soca a mesa a praguejar com Fintter, seu consultor e advogado pessoal;
— O que faz essa decrépita senhora crer que tenho qualquer interesse em seus alfinetes?! — ignorando a dor em seu pulso levanta o braço ao ar — Ela que os enterre consigo em seu caixão!
Fintter, cujo primeiro nome era Hugo também, havia acabado de informá-lo que uma pesquisa estava sendo feita por uma equipe de advogados e consultores brasileiros, com relação a todos os Sanders, por ordem de uma prima de sua falecida mãe, que ele nunca sequer havia ouvido falar.
Fintter assente e pende a cabeça a aguardar que acalme os ânimos do seu chefe e o vê seguir em direção à frente da janela no suntuoso escritório, sonho de visão de qualquer CEO de empresas, localizado no centro de Nova Iorque.
Hugo Sanders era aclamado o mais responsável pelo pai entre os quatro irmãos e havia assumido os negócios, assim como a chefia do clã de uma família frequentemente turbulenta, quando o pai decidiu ser o momento de afastar-se.
Hugo planejava para alguns meses à frente, tirar uma folga de tudo e todos por dois meses, mas já se via obrigado a adiar seus planos. E isso estava deixando a todos em sua volta com nervos expostos, e o temor por suas cabeças serem cortadas a qualquer motivo havia se instalado entre os subordinados, gerando um verdadeiro caos interno na empresa.
Não bastasse somente isso; Como problemas, tenha visto, nunca chegava desacompanhado de mais problemas.
Hugo havia perdido os pais recentemente em um acidente ao Sul do Pacífico, quando após anos separados, os pais haviam decidido estreitar laços e partiram em uma segunda lua de mel incentivada por ele. E ainda mais recente a irmã, que sofria pelo aborto do que seria seu quarto filho, estava a sofrer também, pela iminente e publicamente anunciada separação, dos quase 16 anos de casada com Clark Stoeler. Sendo este indivíduo considerado por Hugo; um idiota egocêntrico, que tão somente admitia pela irmã, que idolatrava ao irmão com a mais profunda afeição.
Hugo solta um audível suspiro e se volta para Fintter;
— Como está minha agenda para esta tarde?
— Somente um jantar com Connies e associados, estilo Black Tie , às 19 horas.
Hugo contrariado, solta um audível suspiro antes de reclamar — E possivelmente irão levar as esposas...
Fintter sorri fora do seu campo de visão.
— Possivelmente, sim. — responde tão somente a confirmar, já que o Sanders conhecia bem a família que vinha fechando negócios milionários com a sua há mais de três décadas e eram notória e concisamente tradicionalistas.
Não que Hugo fosse contra casamentos. Isso não! Mas ele preferia estar na lista de solteirões mais cobiçados do país, das revistas que eram terminantemente proibidas pelo mesmo, de circular em seu território, do que se ver preso em algum casamento de conveniência com algum cabide de grife, que provavelmente nem poderia tocar entre quatro paredes sob a pena de ser processado. Ou ainda pior: Acordar na manhã seguinte ao seu casamento com uma mulher que conseguisse lhe convencer de que o via como homem e não a uma máquina de fazer dinheiro, para descobrir que ela não havia se casado com ele, e sim com seus bens!
— Vou visitar Giulia, — Hugo interrompe os pensamentos de Fintter — de repente eu consigo convencê-la a me acompanhar nesse jantar.
Giulia, apesar de ser um ano e alguns meses mais velha do que o irmão — pela sua educação e natural passividade –, evitava a qualquer custo contrariá-lo, e assim também era antes, com o pai. Sendo que o pai, fora definitivamente o responsável por Giulia ter se casado com Clark —, pensa Fintter com desgosto.
— Não creio que seja uma boa ideia... — considerou Fintter quase num murmúrio.
Hugo Sanders senta em sua cadeira a estudá-lo e Fintter fica tenso — Creio que seja — faz uma pausa a escolher bem as palavras –, desgastante, para alguém que há menos de três dias teve alta hospitalar.
Mas por dentro Fintter fervia e queria ter agarrado o chefe pelo colarinho e esbravejado; Canalhice sua, Sanders! Esconder-se atrás da irmã, quando poderia estalar os dedos e num piscar teria milhares de mulheres dispostas a beijar o chão que você pisa!
Fintter prende o ar em seus pulmões em busca de controle. Na verdade não considerava o chefe um canalha, mas quando se tratava de Giulia, ele tinha que se desdobrar em vigilância para não agir sem razão.
Hugo solta um suspiro impaciente.
Agradava-lhe a companhia de Fintter, mas nem de longe poderia considerar o advogado como igual e jamais lhe daria abertura para confessar o que evidentemente sentia pela sua irmã. Essa era a sua decisão.
Por mais que tivesse sofrido em seu casamento com Clark, permitir que ela se envolvesse emocionalmente com um subalterno, alguém tão abaixo do seu nível social, estava fora de questão!
Mesmo que fosse alguém que ele estimasse como estimava Fintter. Clark era um boçal egocêntrico, mas possuía um nome conceituado e bens. E na tentativa de por peso em seus argumentos mentais, lembrava-se de seus sobrinhos.
Giulia amava o boçal do Clark, se não amasse, não teria lhe dado três filhos e engravidado ainda uma quarta vez.
Para finalizar; argumentava para si mesmo que seus sobrinhos mereciam crescer ao lado do pai deles.
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