
O Veneno na Paella
Capítulo 3
Laura entrou no quarto sem bater.
O seu rosto estava impassível, os seus olhos frios avaliaram-me de cima a baixo, sem um pingo de simpatia.
Ela não parecia a avó que acabara de perder um neto, parecia uma executiva a inspecionar uma falha na produção.
"Já falei com o médico," disse ela, a sua voz cortante como vidro. "Ele disse que vais ficar bem. Um pequeno susto."
Um pequeno susto.
Perder o meu filho era um pequeno susto para ela.
"Onde está o Marcos?" perguntei, embora já soubesse a resposta.
"Em casa, claro. A Sofia está muito abalada. Ela está com um sentimento de culpa terrível, a pobre rapariga. Ela adora-te, sabes? Nunca faria nada para te magoar de propósito."
As suas palavras eram mentiras tão bem ensaiadas que quase soavam verdadeiras.
Mas eu vi o sorriso subtil nos lábios da Sofia no jantar. Eu vi a satisfação nos olhos dela quando comecei a tossir.
"Ela pôs camarão no meu prato, Laura. E tu viste."
Laura suspirou, um som de impaciência.
"Clara, não vamos criar um drama por causa de um mal-entendido. És demasiado sensível. Sempre foste. Agora, o que aconteceu foi uma tragédia, sim, mas a vida continua. Tu e o Marcos são jovens, podem tentar ter outro filho."
Ela falava de um filho como se falasse de comprar um carro novo depois de um acidente.
"Não haverá um 'nós'," eu disse, a minha voz a ganhar força. "Eu quero o divórcio."
O rosto de Laura endureceu. A máscara de falsa preocupação caiu, revelando a mulher fria e controladora por baixo.
"Divórcio? Não sejas ridícula. Vais deitar fora o teu casamento por causa de um ataque de histeria? O Marcos é um bom marido. A nossa família deu-te tudo."
Deu-me tudo? Deu-me uma cama de hospital e um útero vazio.
"Um bom marido não me abandonaria aqui para cuidar da mulher que quase me matou."
"A Sofia é a irmã dele! O sangue fala mais alto!" ela cuspiu, a sua voz a subir. "Devias ter mais cuidado. Uma alergia tão vulgar. Devias saber controlar-te melhor."
Ela estava a culpar-me. A culpar-me pela minha própria condição, a culpar-me por ter sido envenenada.
Naquele momento, o Marcos entrou no quarto.
Ele parecia cansado, mas não de preocupação por mim. Parecia cansado de ter de lidar com o problema.
"Mãe, Clara, o que se passa aqui? Estão a discutir?"
Ele olhou para mim, e pela primeira vez, vi um lampejo de algo nos seus olhos. Não era amor. Era cálculo. Ele estava a avaliar os estragos.
"O teu filho morreu, Marcos." Eu disse as palavras de forma clara e direta. "E tu estavas a segurar a mão da tua irmã."
"Clara, eu já disse que foi um acidente," ele começou, a usar o mesmo tom paternalista de sempre. "A Sofia está destroçada..."
"Eu quero o divórcio."
Repeti as palavras, olhando diretamente para ele.
O rosto dele passou da irritação para a incredulidade.
"O quê? Estás a brincar? Por causa disto? Vais desistir de nós por causa de um erro estúpido?"
"Não foi um erro," eu disse, a minha voz firme. "Foi uma escolha. E tu fizeste a tua."
Laura interveio, agarrando o braço do filho. "Ela não está a pensar bem, Marcos. Está em choque. Leva-a para casa, ela precisa de descansar. Amanhã, tudo isto será esquecido."
Esquecido.
Eles queriam que eu esquecesse o meu filho.
Eu ri. Um som seco e sem alegria que surpreendeu a todos, incluindo a mim.
"Eu não vou a lado nenhum convosco. A única coisa que quero de vocês é a assinatura nos papéis do divórcio."
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