
O Último Suspiro Por Amor
Capítulo 2
O telefone tocou, o som agudo cortando a monotonia do meu escritório. Na tela, um número desconhecido. Ignorei. Tinha relatórios para terminar, prazos para cumprir, uma montanha de dívidas que não esperava por ninguém.
O telefone tocou de novo. E de novo.
Na quarta vez, atendi, a irritação vazando na minha voz.
"Alô?"
"Senhor Marcelo? Estamos ligando do Hospital Central. Sua filha, Sofia, sofreu um acidente na piscina durante o treino."
O mundo parou. As palavras do relatório à minha frente se embaralharam, perderam o sentido. Senti um frio subir pela espinha.
"Acidente? Que tipo de acidente? Ela está bem?"
A voz do outro lado era calma, profissional, mas carregada de uma urgência que me gelou o sangue.
"Ela está em estado grave, senhor. O médico precisa falar com o senhor com urgência. E com a sua esposa."
Minha esposa. Renata.
Desliguei, as mãos tremendo tanto que mal consegui segurar o celular. Disquei o número dela. A chamada foi para a caixa postal.
Tentei de novo. Caixa postal.
E de novo. Caixa postal.
O pânico começou a borbulhar no meu peito, quente e sufocante. Onde ela estava? Por que não atendia? Nós tínhamos uma filha no hospital, em estado grave, e ela não atendia o telefone.
Lembrei de um comentário vago dela na noite anterior, algo sobre uma festa, algo para o filho do ex-namorado dela, o Tiago. Uma festa de formatura. Ela tinha dito que seria algo simples, só um bolinho.
Corri para o carro, o coração martelando contra as minhas costelas. Eu dirigia sem rumo, tentando pensar, tentando lembrar o nome daquele lugar chique que ela tinha mencionado uma vez. O clube onde o ex-namorado dela, Gustavo, gostava de frequentar.
Encontrei. Um salão de festas luxuoso, com manobristas na porta e música alta vazando para a rua. Carros caros alinhados na frente. Não parecia uma festa simples. Parecia um evento de gala.
Entrei sem ser anunciado, o meu desespero em nítido contraste com o luxo e a alegria do lugar. Pessoas riam, bebiam champanhe, dançavam. E no centro de tudo, lá estava ela.
Renata.
Ela usava um vestido de grife, joias que eu nunca tinha visto, o cabelo e a maquiagem impecáveis. Ela sorria, radiante, ao lado de Gustavo e do filho dele, Tiago. Eles brindavam, celebravam o diploma do garoto. A mulher que me dizia que não tínhamos dinheiro nem para consertar o chuveiro estava no meio de uma festa que devia custar mais do que o nosso carro.
Eu a agarrei pelo braço. O sorriso dela desapareceu quando me viu, substituído por uma expressão de pura irritação.
"Marcelo? O que você está fazendo aqui? Você está me envergonhando."
"A Sofia" , eu disse, a voz rouca, sem fôlego. "Ela sofreu um acidente. Está no hospital. É grave, Renata."
Ela olhou para mim, mas o olhar dela era distante, impaciente. Ela se soltou do meu aperto, ajeitando o vestido.
"Um acidente? Não pode esperar? A festa do Tiago está no auge, é o grande momento dele. Não estrague tudo."
As palavras dela me atingiram como um soco no estômago. Não pode esperar. A nossa filha, a luz da minha vida, estava entre a vida e a morte, e ela estava preocupada em não estragar uma festa.
"Ela precisa de nós, Renata."
"Vá você primeiro, eu vou depois que a festa acabar. Não deve ser nada demais, a Sofia é forte."
Ela me deu as costas e voltou para o centro da festa, pegando outra taça de champanhe. Voltou a sorrir para Tiago, como se eu nunca tivesse estado ali.
Naquele momento, olhando para ela rindo no meio daquela opulência comprada com o nosso suor, com o sacrifício da nossa filha, algo dentro de mim se quebrou. O amor, a esperança, os quinze anos de casamento, tudo se transformou em cinzas.
Eu estava sozinho. E a minha filha também.
Dei as costas para a festa, para a minha esposa, para a vida que eu achava que tinha. E jurei a mim mesmo, no silêncio do meu carro, que eu não esperaria mais por Renata. Nunca mais.
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