
O Último Grito do Meu Anjo
Capítulo 2
Quando abri os olhos, o teto branco do hospital foi a primeira coisa que vi.
A minha cabeça doía.
O meu corpo inteiro parecia ter sido atropelado por um camião.
A minha mãe, Clara, estava sentada ao meu lado, com os olhos vermelhos e inchados.
"Mãe, o que aconteceu? Onde está o Lucas?"
A minha voz saiu rouca.
A minha mãe começou a chorar.
"Eva... o Lucas... ele não sobreviveu."
O meu mundo desabou.
Lucas. O meu filho de cinco anos. O meu único filho.
Ele não sobreviveu.
O meu marido, Pedro, entrou a correr no quarto nesse momento.
Ele não olhou para mim, foi direto para a minha mãe.
"Clara, como está a Sofia? O médico disse alguma coisa? Ela está com dores?"
A sua voz estava cheia de uma ansiedade que eu nunca tinha ouvido antes.
Sofia. A minha meia-irmã.
Ela estava deitada na cama do outro lado do quarto, pálida, com uma perna engessada.
A minha mãe enxugou as lágrimas e respondeu: "O médico disse que a fratura dela é complicada, vai precisar de muito repouso. Ela continua a chorar por causa do cão."
"Pobre Sofia," disse Pedro, a sua voz suave. "Não te preocupes, Sofia, eu vou encontrar o melhor veterinário para o Bobi. Ele vai ficar bem."
Eu olhei para ele.
O meu marido.
O homem com quem partilhei a cama durante seis anos.
O pai do meu filho morto.
Ele nem sequer me dirigiu um olhar.
O meu filho estava morto, e ele estava preocupado com a perna da minha meia-irmã e o cão dela.
"Pedro," chamei-o. A minha voz era um sussurro.
Ele finalmente virou-se para mim, a sua expressão irritada.
"O que foi, Eva? Não vês que estou ocupado? A Sofia está ferida, precisa de mim."
"O nosso filho morreu."
Disse as palavras. Elas soaram estranhas, como se pertencessem a outra pessoa.
Ele franziu a testa, impaciente.
"Eu sei. É uma tragédia. Mas chorar não o vai trazer de volta. Precisamos de ser fortes, pela Sofia."
Pela Sofia.
O meu corpo começou a tremer incontrolavelmente.
O acidente. Lembrei-me.
Estávamos no carro. Eu, o Lucas e a Sofia.
Ela insistiu em levar o seu cão, Bobi, para o parque. No caminho, ela começou a discutir comigo porque eu não a deixava dar chocolate ao cão.
Ela puxou o volante.
Apenas por um segundo.
Mas foi o suficiente.
O carro desviou-se, bateu contra a barreira.
Lembro-me do grito do Lucas.
Depois, escuridão.
"Foi culpa dela," disse eu, a minha voz a ganhar força. "A Sofia causou o acidente."
O rosto de Pedro endureceu.
"Não te atrevas a culpá-la! Ela é apenas uma criança! Ela já está a sofrer o suficiente!"
Uma criança? A Sofia tinha dezenove anos.
"O teu filho está morto, Pedro!" gritei, as lágrimas finalmente a escorrerem pelo meu rosto. "O nosso Lucas!"
"E o que queres que eu faça?" ele gritou de volta. "A culpa é tua por a teres deixado irritada! Devias ter sido mais paciente!"
Ele virou-me as costas e voltou para o lado da cama da Sofia, pegando na mão dela.
"Não te preocupes, querida. Eu estou aqui. Não vou deixar que ninguém te magoe."
Naquele momento, algo dentro de mim quebrou.
O amor que eu sentia por ele, a esperança que eu tinha na nossa família, tudo se desfez em pó.
"Pedro," disse eu, com uma calma assustadora. "Vamos divorciar-nos."
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