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Capa do romance O Sorriso Que Escondia Veneno

O Sorriso Que Escondia Veneno

Na festa de sua aprovação, Ana Paula não celebrava, mas executava um plano de vingança. Ela serviu cachaça envenenada ao avô Zé Pedro, ao vizinho Joaquim e a todos os cúmplices de seu sofrimento. Enquanto trinta e duas pessoas morriam em agonia, ela incendiou a fazenda com querosene. Diante do delegado Ricardo Santos, a jovem não demonstra remorso. A garota da roça deu lugar a um monstro gélido que, após anos de inferno, finalmente se libertou através do fogo e do sangue.
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Capítulo 2

A festa de despedida na fazenda estava no auge, a música alta e as risadas preenchiam o ar quente da noite no interior.

Mas para mim, Ana Paula, havia uma calma estranha, uma quietude dentro do meu peito que contrastava com toda a agitação ao redor.

Era a calmaria que precede a tempestade, a paz que se encontra no olho do furacão.

Todos estavam ali para comemorar minha aprovação na universidade federal, um feito inédito para alguém da nossa região.

Eles me olhavam com uma mistura de orgulho e surpresa, a menina da roça que iria para a cidade grande estudar.

Mal sabiam eles que a celebração era, na verdade, um funeral.

Meu avô, Zé Pedro, se aproximou com um copo de cachaça na mão, seu sorriso largo mostrando os dentes amarelados pelo fumo.

"Minha neta! Que orgulho! Um brinde a você!"

Ele me abraçou, sua mão áspera e grossa pousando nas minhas costas de um jeito que me fez enrijecer.

O toque dele sempre foi um lembrete do inferno que eu vivi.

Ao lado dele estava o senhor Joaquim Silva, o patriarca da família vizinha, seu sócio nos negócios e nos meus pesadelelos.

Ele também sorria, um sorriso oleoso e satisfeito.

"Parabéns, Ana Paula. Sabia que você era uma menina esperta."

A voz dele era como o raspar de uma lixa na minha pele.

Eu forcei um sorriso.

"Obrigada, vovô. Obrigada, senhor Silva. É tudo graças ao apoio de vocês."

A ironia era tão densa que eu me surpreendi por eles não a sentirem.

Peguei a garrafa de cachaça especial que eu mesma havia preparado, a garrafa que eu disse ser um presente para agradecer a todos.

"Eu que agradeço. Por isso, fiz questão de trazer a melhor cachaça para brindarmos juntos."

Comecei a servir os copos, um por um.

Minhas mãos não tremiam.

Meu coração batia num ritmo constante e frio.

Enchi o copo do meu avô, depois o do senhor Silva, e continuei, passando por cada homem, cada mulher, cada cúmplice que se beneficiou do meu sofrimento, que fechou os olhos para o que acontecia debaixo dos seus narizes.

Todos beberam, rindo e me parabenizando.

E então, eu observei.

De um canto do grande salão da fazenda, eu vi o primeiro homem tossir, depois outro levar a mão à garganta.

Um copo caiu no chão, se espatifando.

O caos começou lentamente, como uma pequena chama, e logo se espalhou.

Gritos substituíram as risadas.

Corpos começaram a se contorcer no chão.

Eu não senti nada.

Apenas um vazio gelado.

Caminhei calmamente até a cozinha, peguei o galão de querosene que havia escondido ali mais cedo.

Voltei para o salão, passando pelos corpos que agora se amontoavam, alguns já imóveis.

Derramei o líquido por todo o chão de madeira, sobre as cortinas, sobre os móveis.

O cheiro forte de querosene se misturou ao cheiro de vômito e morte.

Ninguém me impediu.

Estavam ocupados demais morrendo.

Quando o galão ficou vazio, o joguei de lado.

Peguei a caixa de fósforos do bolso, risquei um palito e o joguei sobre o chão encharcado.

O fogo subiu com um rugido, rápido e voraz, devorando tudo.

As chamas dançavam, iluminando os rostos em pânico e dor.

Eu fiquei ali, na porta, apenas observando o fogo purificar aquele lugar amaldiçoado.

Eu contava.

Um. Dois. Três.

Cada corpo que era engolido pelas chamas era uma conta a menos na minha dívida de dor.

Vinte e sete. Vinte e oito. Vinte e nove.

O som dos gritos se misturava ao crepitar da madeira.

Eu não desviei o olhar.

Queria gravar cada detalhe na minha memória.

Era o final que eles mereciam.

...

A sala de interrogatório era fria e cinzenta, o ar pesado com o cheiro de desinfetante e café velho.

O delegado Ricardo Santos bateu com força na mesa de metal, o som ecoando no silêncio.

Seu rosto estava vermelho de raiva.

"Você tem noção do que fez, garota? Trinta e duas pessoas! Trinta e duas pessoas mortas! Queimadas vivas! E você nem sequer derramou uma lágrima!"

Eu o encarei do outro lado da mesa, algemada, vestindo um uniforme cinza de hospital.

Meu cabelo estava chamuscado, meu rosto e braços cobertos de fuligem e pequenas queimaduras.

Um sorriso leve e cansado brincou nos meus lábios.

"Eles tiveram o que mereceram, delegado."

O jovem policial ao lado dele, Pedro, deu um passo à frente, indignado.

"Mereceram? Tinha gente ali que te viu crescer, que te deu doce quando era criança! Seu próprio avô!"

"Meu avô" , repeti, o sorriso se alargando um pouco mais. "Ele mereceu mais do que todos."

Minha calma parecia desestabilizá-los mais do que qualquer grito ou choro faria.

Eles esperavam remorso, desespero, loucura.

Não encontraram nada disso.

Apenas uma paz terrível e resoluta.

O delegado Santos se recostou na cadeira, passando a mão pelo cabelo, visivelmente frustrado.

Ele pegou uma pasta sobre a mesa e a abriu.

"Eu não entendo. Puxei sua ficha. Ana Paula Neves. Dezenove anos. Aluna exemplar. Notas perfeitas. Aprovada em primeiro lugar em agronomia na federal. Todos os professores, todos os vizinhos de antes do divórcio dos seus pais, todos dizem a mesma coisa: uma menina doce, inteligente, sensível. O que aconteceu com essa menina, Ana Paula?"

Ele me olhou, seus olhos buscando uma resposta, uma rachadura na minha fachada.

Eu apenas o encarei de volta, em silêncio.

A menina que ele descreveu havia morrido há muito tempo, naquela mesma fazenda.

No lugar dela, nasceu um monstro.

E naquela noite, o monstro finalmente se libertou.

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