
O Sol Depois da Tempestade
Capítulo 3
Dois dias depois, a minha mãe, Sofia, veio ver-me. Ela tinha um grande penso na testa e o braço numa ligadura, mas os seus olhos estavam claros e cheios de preocupação por mim.
"Minha filha, como te sentes?" perguntou ela, a sua voz suave a quebrar o silêncio do quarto.
"Estou... a tentar," consegui dizer. A dor física era constante, mas a dor emocional era um abismo sem fundo.
Ela sentou-se na cadeira ao lado da minha cama, a mesma cadeira onde Pedro passava horas a olhar para o telemóvel.
"O Pedro contou-me que a Helena esteve aqui," disse a minha mãe, o seu tom cuidadoso. "Ela não te disse nada de mal, pois não?"
Eu abanei a cabeça. "Ela mal olhou para mim. Só estava preocupada com o Pedro e a Catarina."
A minha mãe suspirou, uma expressão de tristeza a passar pelo seu rosto. "Eu sabia. Aquela mulher nunca gostou de ti."
Ela pegou na minha mão, os seus dedos quentes a apertar os meus. "Ana, há algo que preciso de te contar sobre o acidente."
Senti um arrepio. "O que foi?"
"Não foi um acidente simples, querida. Os travões do carro... eles falharam."
Olhei para ela, confusa. "O que queres dizer? O carro era novo. O Pedro fez a revisão na semana passada."
"Eu sei. É isso que é estranho," disse a minha mãe. "A polícia está a investigar. Eles acham que alguém pode ter mexido nos travões."
O meu sangue gelou. Sabotagem? Quem faria uma coisa dessas?
"Quem... quem faria isso?" sussurrei.
A minha mãe hesitou, olhando para a porta como se tivesse medo que alguém estivesse a ouvir.
"Eu não sei, Ana. Mas... a Catarina ligou ao Pedro minutos antes do acidente. Eu ouvi a conversa. Ela estava a gritar com ele, a dizer que não ia permitir que tu e o bebé arruinassem a vida dele."
A imagem da Catarina surgiu na minha mente. Sempre sorridente, sempre simpática à minha frente, mas eu sempre senti uma corrente de frieza vinda dela. Ela sempre foi excessivamente protetora em relação ao Pedro.
"Ela disse isso?"
"Sim. E o Pedro estava a tentar acalmá-la, a dizer que te amava e que estava feliz por ser pai."
As palavras doíam. Ele estava feliz. Nós estávamos felizes. E agora... tudo se tinha ido.
"A polícia falou com ela?" perguntei.
"Sim. Ela tem um álibi. Estava com amigos do outro lado da cidade. Mas, Ana... eu não confio nela. Eu não confio em nenhum deles."
Um pensamento terrível começou a formar-se na minha mente, tão monstruoso que me fez sentir náuseas.
E se não fosse a Catarina? E se fosse alguém mais próximo?
"Mãe," comecei, a minha voz a tremer, "o Pedro... ele estava a conduzir. Ele não se magoou de todo?"
"Apenas alguns arranhões. O airbag dele abriu. O teu não."
O airbag do lado do passageiro não abriu. Os travões falharam. O nosso bebé morreu. Eu quase morri. E Pedro saiu praticamente ileso.
"Ana, o que estás a pensar?" perguntou a minha mãe, os seus olhos a perscrutar os meus.
Eu não conseguia dizer em voz alta. Era demasiado horrível. Mas a semente da dúvida tinha sido plantada. Uma semente feia e venenosa que começou a crescer rapidamente no solo devastado do meu coração.
Olhei para a minha perna partida, para a barriga agora vazia debaixo dos lençóis.
O meu marido. O homem que eu amava. O pai do meu filho morto.
Poderia ele...?
Não. Eu tinha de estar errada. Eu estava de luto, paranoica.
Mas quando Pedro entrou no quarto mais tarde naquele dia, com o mesmo olhar distante e vazio, eu não consegui deixar de ver as peças a encaixarem-se.
O seu alívio por a Catarina estar segura. A sua falta de emoção sobre a nossa perda. A sua fuga quase milagrosa do acidente.
Ele aproximou-se da cama. "Como te sentes?"
A mesma pergunta. O mesmo tom plano.
"Estou com dores," respondi, a minha voz fria.
"O médico disse que é normal," disse ele, sem oferecer qualquer conforto. "Trouxe-te umas revistas."
Ele colocou as revistas na mesa de cabeceira. Nenhuma delas era do tipo que eu gostava de ler.
"Pedro," disse eu, olhando-o diretamente nos olhos. "A minha mãe disse-me que os travões falharam."
Uma sombra passou pelo seu rosto, tão rápida que quase a perdi.
"Sim. A polícia está a investigar. Provavelmente um defeito de fabrico."
"Um defeito de fabrico," repeti, a minha voz sem inflexão. "E o meu airbag não abriu."
"Sim. Outro defeito," disse ele, a sua voz a ficar um pouco mais firme. "Tivemos muito azar, Ana."
Azar. Era essa a palavra que ele usava para descrever a morte do nosso filho e a minha quase morte. Azar.
"Onde estavas antes de nos ires buscar ao médico?" perguntei, a minha voz a cortar o ar.
Ele pareceu surpreendido com a pergunta. "Eu estava... no escritório. Tive uma reunião."
"Com quem?"
"Ana, que tipo de interrogatório é este? Já não passámos por o suficiente?" disse ele, a irritação a infiltrar-se no seu tom.
"Eu só quero saber, Pedro. Eu preciso de entender."
"Não há nada para entender! Foi um acidente trágico! Fim da história!" ele quase gritou, a sua calma a quebrar-se pela primeira vez.
Mas era tarde demais. Eu tinha visto. A culpa nos seus olhos. O medo.
Ele estava a mentir.
E naquele momento, eu soube. A dúvida transformou-se em certeza.
O meu marido tinha tentado matar-me.
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