
O Silencioso Retorno da Esposa Contratada
Capítulo 2
Ponto de Vista: Aurora Valença
Minha respiração ficou presa na garganta. Minha pombinha. Aquele nome. Era o nome que ele me chamava quando estávamos apaixonados, antes do acidente. Antes da amnésia. Antes de ele se tornar este estranho cruel.
Eu o observei, meu coração um pássaro frenético no peito. Um pingo de esperança, afiado e perigoso, perfurou minha resolução. Estava finalmente acontecendo? Ele estava se lembrando?
"Não", eu disse, minha voz monótona, desprovida de emoção. Forcei a mentira, esmagando aquela pequena centelha de esperança. "Você não me conhece, Sr. Ferraz. Não desse jeito. Nunca conheceu."
A tensão nos ombros de Caio visivelmente diminuiu. Ele passou a mão pelo cabelo, seus olhos ainda nublados, mas perdendo aquele olhar intenso e inquisitivo. Ele realmente parecia aliviado. Aliviado por eu não ser a mulher que ele um dia amou. Aliviado por não ter se enganado sobre mim todo esse tempo. A crueldade disso me queimou por dentro.
Jade, que nos observava com um beicinho confuso, aproveitou a oportunidade. "Caiozinho, o que foi isso? Ela é tão estranha. E meu pé ainda dói da massagem horrível dela! Meus seguidores vão pensar que tenho pés feios se eu não conseguir uma massagem decente." Ela se jogou na cama, exigindo sua atenção. "E este quarto é bom, mas não é o melhor. Ouvi dizer que a 'Suíte Real' tem uma piscina de borda infinita privativa. Por que não estamos na Suíte Real?"
Senti um cansaço profundo se abater sobre mim, um esgotamento que ia além da dor latejante no meu pulso. Meu corpo inteiro doía.
Nesse momento, a porta se abriu sem bater. Douglas e Ivone Ramalho, os pais de Caio, entraram como uma frente fria. Ivone, uma mulher cujos diamantes brilhavam quase tanto quanto seu desdém, foi imediatamente até Jade.
"Querida! Minha doce Jadezinha!" Ivone arrulhou, envolvendo Jade em um abraço. "Você está confortável? Está tudo do seu agrado?"
Douglas, um homem severo com olhos que sempre pareciam estar calculando, deu a Caio um aceno seco antes de pousar uma mão pesada no ombro de Jade. "Minha cara, você é o futuro da nossa família. Este lugar, este spa", ele disse a palavra com desgosto, "mal é digno de você."
Meu estômago se contraiu. Eu era invisível para eles. Tinha sido por cinco anos.
"E por falar em futuro", Ivone continuou, sua voz escorrendo uma doçura falsa, "Caiozinho, querido, temos uma coisinha para a Jade. Era para... bem, não importa. É dela agora."
Ela ergueu uma caixa de veludo. Dentro, brilhando contra o cetim preto, estava o colar de herança da família Valença. O colar da minha avó. Meu dote. Aquele que eles me prometeram quando me casei com Caio, antes de ele perder a memória.
Eu olhei para ele, minha mente girando. Aquele colar deveria ser meu. Era um símbolo do legado da minha família, um pedaço da minha história. Agora, estava sendo dado a Jade, a mulher que roubou meu marido e minha vida.
"Olha, Jadezinha, não é requintado?" Ivone se derramou em elogios. "Perfeito para a verdadeira matriarca da nossa família."
Douglas interveio, sua voz fria. "Aurora, você nos decepcionou por tempo demais. Nenhum herdeiro. Nenhuma presença na sociedade. Apenas este... seu pequeno negócio. Jade, por outro lado, nos dá esperança para o legado dos Ferraz." Suas palavras eram como pequenos picadores de gelo, lascando o pouco de dignidade que me restava.
Isso também não era novo. Por cinco anos, suas constantes alfinetadas sobre meu "ventre estéril" e meu "fracasso como esposa" foram a trilha sonora da minha gaiola dourada. Cada feriado, cada reunião de família, uma nova enxurrada de insultos mal velados. Eu me tornei o saco de pancadas conveniente deles, o bode expiatório para a indiferença de Caio.
O telefone de Ivone tocou. Ela atendeu, seu rosto se iluminando. "Oh, meus anjinhos preciosos! Vocês acordaram!" Ela colocou o telefone no viva-voz. "Estão com saudades da vovó? Não? Oh, bem, adivinhem quem está aqui? Aquela mulher má que magoou a mamãe!"
Meu sangue gelou quando ouvi as vozinhas infantis do outro lado. "Tia Aurora é má! Tia Aurora é feia!"
"Ela é, não é?" Ivone ronronou para o telefone. "O que devemos fazer com a tia Aurora má?"
A voz de uma criança se manifestou: "Empurra ela!"
Antes que eu pudesse reagir, a mão de Ivone disparou, com uma força surpreendente. Ela me deu um tapa forte no rosto. A ardência aguda fez meu pulso bom voar para cobrir minha bochecha. Senti o gosto de sangue.
Eu não revidei. Não podia. Não mais. Eu estava indo embora. Em breve. Muito em breve. Esta era a última vez.
Caio, que estava observando tudo, de repente deu um passo à frente. "Mãe, já chega", ele disse, sua voz seca. Ele colocou a mão no braço de Ivone, puxando-a para trás.
Ivone pareceu surpresa, depois indignada. "Caiozinho, ela merece! Ela é uma desgraça!"
Mas Caio balançou a cabeça. "Depois. Agora não." Ele me lançou um olhar que não consegui decifrar, depois olhou para o meu pulso inchado, ainda pressionado contra o peito.
Aproveitei a oportunidade. "Se me dão licença, tenho outros hóspedes para atender", eu disse, minha voz tensa. Virei-me e praticamente corri da suíte, a humilhação queimando meu rosto.
Enquanto eu descia o corredor, meu celular vibrou novamente. Clara. *Sócio acabou de confirmar a transferência. Você está oficialmente livre, Aurora. Está feito.*
Uma onda de alívio, tão potente que quase dobrou meus joelhos, me invadiu. Feito. Eu finalmente estava livre. Agora, eu só precisava chegar em casa, pegar os últimos documentos e então... liberdade. Liberdade de verdade.
Apressei-me em direção à saída, minha mente correndo pela logística da minha fuga. Meu pai havia arranjado tudo. Um carro, um avião particular. Uma nova vida, longe dos Ferraz.
Mas quando saí para o ar fresco da manhã, duas pequenas figuras saíram de trás de um vaso, bloqueando meu caminho. Os filhos de Caio. Eram filhos de Jade, mas Caio os reivindicava como seus, um legado para seus pais.
"Lá está ela!" o menino mais velho, um mini-Caio com seus olhos frios, gritou. "A mulher má!"
"A mamãe disse que você a fez chorar!" a menina interveio, seu rosto contorcido em uma carranca infantil.
"Vão para casa, crianças", eu disse, tentando passar por eles. Meu pulso latejava. Eu só precisava sair.
"Não!" o menino gritou. Ele apontou uma pequena pistola de água colorida. "A mamãe disse para te dar uma lição!"
Antes que eu pudesse reagir, um jato de líquido transparente saiu do brinquedo. Atingiu meu rosto, meu pescoço, meu peito. Uma dor lancinante explodiu. Não era água.
Eu gritei. As crianças gritaram de rir, depois se viraram e correram, suas pequenas figuras desaparecendo na esquina.
Minha pele estava queimando. Arranquei minhas roupas, tentando limpar o líquido, mas parecia fogo. Minha visão embaçou, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, misturando-se com o fluido corrosivo. Não era um líquido comum. Era ácido. Ácido forte e ardente.
Minhas pernas cederam. Caí no pavimento branco impecável, o mundo girando ao meu redor. O cheiro de carne queimada encheu minhas narinas. Eles usaram ácido. Eles usaram ácido.
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