
O Silêncio de Uma Morte Anunciada
Capítulo 3
Sentei-me no corredor frio do hospital, o telemóvel esquecido na minha mão.
O mundo continuava a mover-se à minha volta. Pessoas passavam, enfermeiras corriam, mas para mim, o tempo tinha parado no momento em que o coração da minha filha parou.
Lembrei-me de como o Pedro e a mãe dele sempre criticaram a forma como eu cuidava da Sofia.
"Estás a dar-lhe muito colo, vais estragá-la."
"Essa roupa não é suficientemente quente."
"Porque é que ela está a chorar outra vez? Deves estar a fazer alguma coisa mal."
E eu, sempre a tentar ser a esposa e a nora perfeita, ouvia e tentava fazer melhor, sentindo-me sempre inadequada.
A Sofia era o nosso milagre. Tentámos durante cinco anos. Inúmeros tratamentos, lágrimas e desilusões. Quando finalmente nasceu, pensei que a nossa família estava completa, que o Pedro finalmente me veria como suficiente.
Enganei-me.
A porta do hospital abriu-se com força. Pedro entrou, seguido pela sua mãe, Clara, que coxeava dramaticamente, apoiada no braço do filho.
O tornozelo dela nem sequer estava inchado.
Pedro correu na minha direção, o seu rosto uma máscara de fúria.
"Onde é que ela está? O que é que tu fizeste?"
Ele agarrou-me pelos braços, a sua força a magoar-me.
"Eu não fiz nada," murmurei, o choque a dar lugar a uma raiva fria.
Clara aproximou-se, os seus olhos pequenos e cruéis a fuzilarem-me.
"Eu sempre soube que não eras boa mãe. Uma desleixada! Deixaste a minha neta morrer! Assassina!"
A palavra ecoou no corredor silencioso.
As pessoas começaram a olhar.
Soltei-me do aperto de Pedro com um puxão violento.
"A vossa preocupação chega um pouco tarde, não acham?" A minha voz era baixa, mas carregada de veneno. "Enquanto a minha filha lutava pela vida, tu, Pedro, estavas a mudar a almofada da tua mãe."
O rosto de Pedro ficou vermelho.
"Não fales assim com a minha mãe! Ela estava com dores!"
"Dores? Ela parece-me ótima para vir até aqui acusar-me de assassinato."
Um segurança do hospital aproximou-se, atraído pela confusão.
"Está tudo bem aqui, senhora?"
Olhei para o segurança, depois para o Pedro e a Clara.
"Não," disse eu, com uma clareza que me surpreendeu. "Quero o divórcio."
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