
O Silêncio da Guitarra Quebrada
Capítulo 2
Uma noite fria de inverno em Lisboa. A chuva gelada caía sem parar, transformando a varanda de mármore num espelho escuro e escorregadio.
Hugo Gordon estava de joelhos, vestindo apenas uma camisa fina de linho que se colava ao seu corpo, tremendo incontrolavelmente. A água escorria pelo seu cabelo, pelo seu rosto, misturando-se com algo que poderia ser suor ou lágrimas.
Juliette Hayes, sua esposa, estava de pé à sua frente, protegida sob o toldo da varanda. O seu rosto, normalmente cheio de uma adoração possessiva por ele, estava agora frio e duro como o mármore sob os joelhos de Hugo.
"Ele bloqueou-me," disse Juliette, a sua voz calma mas cortante. "Leonel bloqueou-me em todas as redes sociais. Desapareceu. E tu vais dizer-me porquê."
Hugo levantou o olhar, a confusão misturada com a dor do frio. "Juliette, eu não sei de nada. Eu nem sequer o conheço."
"Não mintas para mim, Hugo," ela sibilou.
Ela pegou no seu telemóvel, o ecrã brilhando na escuridão. Ela mostrou-lhe um vídeo. A imagem tremia ligeiramente, mostrando uma enfermeira num quarto de lar de idosos, ao lado de uma cama onde uma mulher idosa dormia, ligada a um ventilador. A mão da enfermeira pairava sobre o interruptor da máquina.
O coração de Hugo parou. Era a sua avó. A única família que lhe restava.
"A vida dela está nas tuas mãos," disse Juliette, sem desviar o olhar do dele. "Ela tem uma doença pulmonar crónica, lembras-te? Eu pago por este lar de luxo, pelos melhores médicos, por esta máquina que a mantém a respirar. Eu posso tirar tudo isso com um único telefonema."
A ameaça pairou no ar, mais fria que a chuva.
"Confessa," ordenou ela. "Diz-me que foste tu que o assustaste. Diz-me que disseste a Leonel para ficar longe de mim."
Hugo olhou para o vídeo, para o rosto frágil da sua avó, e depois para Juliette, a mulher que ele amava, a mulher que o tinha resgatado das ruas de Alfama, que o tinha transformado num fadista de renome. A mulher que agora o estava a destruir.
A sua dignidade quebrou-se. A sua resistência desmoronou-se.
"Fui eu," sussurrou ele, a voz rouca. "Eu disse-lhe para se afastar. Tive ciúmes."
Juliette sorriu, um sorriso fino e vitorioso. Ela guardou o telemóvel.
"Bom rapaz," disse ela, como se estivesse a falar com um cão obediente.
Ela virou-se e entrou na casa luxuosa, deixando-o de joelhos na chuva, o frio a penetrar-lhe até aos ossos. Ele não sentia o frio físico. Apenas o gelo que se formava à volta do seu coração.
Ele sabia, naquele momento, que o amor obsessivo de Juliette tinha mudado de alvo. Ele já não era o centro do seu universo. Era apenas um obstáculo.
E ela não hesitaria em esmagá-lo.
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