
O Sangue Que Faltou
Capítulo 2
O telemóvel vibrou na minha mão, o som áspero a cortar o silêncio do corredor do hospital.
O Dr. Almeida tinha acabado de sair do quarto, o seu rosto era uma máscara de pesar profissional.
"Lamento, Sra. Sofia. Fizemos tudo o que podíamos."
As suas palavras ecoavam na minha cabeça, mas não pareciam reais.
O meu pai, o homem que me ensinou a andar de bicicleta e a fazer contas de cabeça, estava morto.
Morto porque a transfusão de sangue de que precisava desesperadamente nunca chegou.
O sangue raro, tipo O negativo, que corria nas veias do meu marido, Miguel.
Deslizei o dedo pelo ecrã, o nome "Miguel" a brilhar de forma acusadora. A primeira chamada foi para o correio de voz. A segunda também. Na terceira, ele atendeu.
O barulho de fundo era suave, música calma e o tilintar de gelo num copo.
"Sofia? Está tudo bem, querida? Desculpa não ter atendido, estava a meio de uma coisa."
A sua voz era baixa, apressada, como se não quisesse ser ouvido.
"Miguel, onde estás?" a minha voz saiu como um sussurro, frágil e quebrada.
"Estou com a Clara. Ela teve um ataque de pânico terrível, coitada. Viu uma aranha na casa de banho e simplesmente desabou. Tive de vir a correr."
Uma aranha.
O meu mundo inteiro tinha acabado de ruir, e o motivo pelo qual o meu marido não estava ao meu lado era uma aranha.
"Miguel," eu disse, a minha voz a ganhar uma força fria e estranha. "O pai morreu."
Houve um momento de silêncio do outro lado da linha.
"Oh. Merda. Sofia, eu... eu sinto muito. A sério. Olha, eu vou já para aí, assim que a Clara se acalmar."
"Não te incomodes," respondi. "Já é tarde demais."
Desliguei a chamada antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
Olhei para a porta do quarto do meu pai.
Naquele momento, eu não senti apenas a dor da perda.
Senti o fim de outra coisa.
O meu casamento.
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