
O Saldo Zero: O Dia Que Tudo Mudou
Capítulo 3
Levantei-me, as minhas pernas tremiam.
"Peço desculpa, Sr. Alves. O meu marido... não vem. Temos de cancelar."
Apanhei o meu telemóvel do chão, o ecrã estava estalado, como a minha vida naquele momento.
Saí do escritório sem olhar para trás, ignorando as suas perguntas.
O sol lá fora parecia demasiado brilhante, demasiado feliz. Eu sentia-me como se estivesse num pesadelo.
Liguei ao Lucas. Uma, duas, cinco vezes. Caixa de correio.
Ele estava a evitar-me. Ele sabia o que eu tinha descoberto.
Fui para casa, para o nosso pequeno apartamento alugado que de repente pareceu uma prisão.
Sentei-me no sofá e esperei. As horas passavam como se fossem anos.
Quando a chave finalmente rodou na fechadura, já era noite.
O Lucas entrou, o rosto cansado. Ele nem sequer olhou para mim.
"O Léo está com uma infeção, vai ter de ficar no hospital uns dias. Foi um caos."
Ele foi até à cozinha, abriu o frigorífico e pegou numa garrafa de água.
Eu continuei em silêncio, a observá-lo.
Ele finalmente virou-se para mim, e o seu sorriso falso desapareceu quando viu a minha expressão.
"O que foi, Eva? Tive um dia terrível."
A minha voz saiu como um sussurro, fria e sem vida.
"Onde está o dinheiro, Lucas?"
Ele franziu o sobrolho, fingindo confusão.
"Que dinheiro? O da casa? Eu disse-te para transferires."
"Não havia dinheiro para transferir. A conta está a zeros. Tu deste o nosso dinheiro à Sofia."
O silêncio na sala era pesado, esmagador.
Ele desviou o olhar. A culpa estava estampada no rosto dele.
"Eva, eu posso explicar."
"Explicar? Explicar como é que roubaste as nossas poupanças de três anos e as deste à tua amiga?"
"Eu não roubei! Eu emprestei!", ele gritou, a sua voz a subir. "O Léo precisava de uma cirurgia de emergência, a Sofia não tinha como pagar! O que é que querias que eu fizesse? Deixasse o miúdo morrer?"
Uma cirurgia. Há uma hora era uma febre. As mentiras dele eram tão fáceis, tão rápidas.
"Uma cirurgia que custa exatamente 150.000 reais? O valor exato da entrada da nossa casa? Que coincidência, Lucas."
"Tu não entendes! És tão egoísta! Só pensas em ti e na porcaria da casa!"
"Eu penso na nossa vida! Na vida que tu destruíste hoje!"
"Eu vou recuperar o dinheiro! A Sofia vai pagar-me de volta!"
Eu ri, um som amargo e oco.
"Claro que vai. E quando é que isso vai ser? Daqui a dez anos? Vinte?"
Fui até ao quarto e peguei numa mala. Comecei a atirar as minhas roupas para dentro, sem cuidado, sem pensar.
O Lucas seguiu-me, o pânico a começar a aparecer nos seus olhos.
"O que é que estás a fazer? Eva, para com isso. Vamos conversar."
"Não há mais nada para conversar. Acabou, Lucas."
Fechei a mala e caminhei em direção à porta. Ele agarrou o meu braço.
"Tu não podes ir embora por causa disto. Foi por uma boa causa! Tu não tens coração?"
Puxei o meu braço com força.
"A pessoa sem coração aqui és tu. Tu olhaste para mim esta manhã, sabendo que ias destruir o meu sonho, e não disseste nada."
Abri a porta.
"Fica com a tua boa causa. Eu quero o divórcio."
Bati a porta atrás de mim, deixando-o no apartamento que já não era nosso.
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