
O Rim Vendido: O Preço da Liberdade da Minha Mãe
Capítulo 3
Uma semana depois, eu estava no quarto do hospital, a usar a bata fina.
A cirurgia estava marcada para a manhã seguinte.
O meu pai entrou, não sozinho. A mãe da Lia, a sua amante de longa data, estava com ele. Ela trazia uma cesta de frutas.
Ela colocou-a na mesa de cabeceira, evitando o meu olhar.
"Ana, obrigada. Nunca esqueceremos o que estás a fazer pela Lia."
A sua voz era suave, mas não parecia sincera.
O meu pai sentou-se na cadeira.
"Comeste alguma coisa? O médico disse para não comeres depois das oito."
"Não comi."
"Bom. Precisamos que estejas na melhor condição."
Ele falava como um treinador a preparar um atleta para uma competição.
Não como um pai a falar com a sua filha antes de uma grande cirurgia.
A mãe da Lia olhou para o telemóvel.
"Oh, a Lia publicou uma nova foto. Ela parece tão pálida."
Ela mostrou o ecrã ao meu pai. Vi a foto de relance.
A Lia estava na sua cama de hospital, com um filtro que a fazia parecer etérea e frágil. A legenda dizia: "À espera do meu anjo. Tão assustada, mas tão grata. #salvaumavida #amorfraterno".
Amor fraterno.
Senti um gosto amargo na boca.
O meu noivo, Pedro, chegou pouco depois. Ele trazia uma sopa que a sua mãe tinha feito para mim.
Ele ignorou o meu pai e a amante dele, vindo diretamente para o meu lado.
"Como te sentes?"
"Estou bem."
Ele tocou na minha testa.
"Estás um pouco fria."
O meu pai interrompeu.
"Pedro, agora não é altura para isso. Ela precisa de descansar."
"Ela precisa de apoio, Sr. João. Não de ordens."
A tensão encheu a pequena sala.
A mãe da Lia interveio rapidamente.
"Claro, claro. Vamos deixá-los a sós. Vamos, João."
Eles saíram. Fiquei aliviada.
Pedro sentou-se na cama e segurou a minha mão.
"Ana, ainda podemos cancelar isto. Podemos simplesmente sair daqui."
Eu olhei para ele. Os seus olhos estavam cheios de preocupação genuína.
"E a minha mãe, Pedro? Ele vai arruinar a vida dela."
"Nós damos um jeito. Encontramos uma solução. Juntos."
As suas palavras eram um bálsamo. Mas eu conhecia o meu pai. Ele era implacável.
"É só um rim. Eu vou ficar bem."
Tentei sorrir, mas saiu fraco.
"Não é 'só um rim'. É o teu rim, Ana."
Ele abraçou-me com cuidado.
"Eu amo-te. E odeio vê-los fazer-te isto."
"Eu também te amo."
Naquela noite, não consegui dormir. Olhei para o teto escuro, a pensar no dia seguinte.
A pensar na faca, na dor, na cicatriz que ficaria.
A pensar se a liberdade da minha mãe realmente valia uma parte do meu corpo.
Você pode gostar





