
O Rim Negado: A Luta Por Uma Segunda Vida
Capítulo 3
No dia seguinte, o meu sogro, o Doutor Miguel, entrou no meu quarto.
Ele não usava a sua bata de médico. Estava de fato, como um homem de negócios.
Ele sentou-se na cadeira ao lado da minha cama, a mesma onde Pedro se tinha sentado.
"Clara, sei que estás chateada. Foi um choque para todos."
A sua voz era calma, controlada. A voz de um médico a dar más notícias.
"Mas temos de ser práticos. A Sofia está numa situação muito mais grave. A tua condição é estável. Podes esperar."
"Esperar por quê? Por um milagre? Ou por outro dador que magicamente apareça?"
Eu não ia deixar que ele me intimidasse.
"A Sofia é a tua família. O Pedro ama-a muito. Não queres vê-lo feliz?"
Ele estava a tentar manipular-me. Usar o meu amor pelo Pedro contra mim.
"Eu também sou a tua família. Ou pelo menos, pensei que era."
Miguel suspirou, a sua paciência a esgotar-se.
"Vamos ser diretos, Clara. Se concordares com o transplante, eu garanto que terás o melhor tratamento depois. E o Pedro ficar-te-á eternamente grato. A nossa família cuidará de ti."
"E se eu não concordar?"
O seu olhar endureceu.
"Então vais descobrir como a vida pode ser difícil para uma mulher doente e sozinha."
Era uma ameaça clara.
"Estás a ameaçar-me, Miguel?"
"Estou a apresentar-te os factos. Tu precisas de nós. Precisas do nosso dinheiro, dos nossos contactos. Sem nós, estás perdida."
Eu ri. Uma risada seca, sem humor.
"Achas que me podes comprar? Ou assustar? Já perdi quase tudo. Não tenho mais nada a perder."
Ele levantou-se, a sua cara uma máscara de fúria contida.
"Vais arrepender-te disto, Clara. Vais implorar pela nossa ajuda, e nós não estaremos lá."
Ele saiu do quarto, batendo a porta atrás de si.
A minha mãe, que estava sentada num canto, veio até mim.
"Ele não pode fazer isso, pode?"
"Ele pode tentar, mãe. Mas nós não vamos deixar."
Mais tarde nesse dia, recebi uma chamada de um número desconhecido.
Era a Sofia.
A sua voz era fraca, ofegante.
"Clara... por favor... não faças isto. Eu preciso desse rim. Eu não quero morrer."
Ela estava a chorar. Um choro desesperado.
"Eu também não quero morrer, Sofia."
"Mas tu és mais forte! O meu pai disse que tu podes esperar! Por favor, Clara. Eu faço qualquer coisa."
Eu senti uma pontada de pena. Ela era jovem. Ela estava assustada.
Mas a sua família estava a usá-la. E a mim.
"Não é uma questão de força, Sofia. É uma questão de justiça. O que a tua família está a fazer não é justo."
"Justiça? O que é que a justiça importa quando a minha vida está em jogo? És tão egoísta! Eu odeio-te! Espero que morras!"
Ela desligou.
As suas palavras doeram. Mas elas também me deram força.
Eu não era egoísta. Eu estava a lutar pela minha vida.
E eu não ia desistir.
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