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Capa do romance O Retorno Implacável da Herdeira Injustiçada

O Retorno Implacável da Herdeira Injustiçada

Clara Mendes viveu dez anos como pária, acusada de um crime que não cometeu. Durante a festa dos pais, seu irmão CEO e a noiva dele, a real culpada, a humilham publicamente. Diante do desprezo familiar e do silêncio cúmplice de seus pais, Clara decide dar um basta à farsa. Sem lágrimas, ela abandona o evento e liga para um homem chamado Almeida. Determinada a recuperar seu futuro, ela busca ajuda profissional para iniciar sua vingança implacável.
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Capítulo 3

Ponto de Vista: Clara Mendes

Nos dias seguintes, o escritório empoeirado de Ricardo Almeida se tornou meu santuário. Cheirava a café velho, papel antigo e um leve traço persistente de uísque, mas para mim, cheirava à verdade. Era um mundo à parte da atmosfera estéril e perfumada da mansão dos Mendes, onde mentiras eram a moeda corrente.

Ricardo era metódico, cínico e brutalmente direto. Ele não oferecia simpatia; ele exigia fatos. Começamos com o arquivo da investigação original, que eu consegui copiar do servidor da empresa anos atrás, um pequeno ato de desafio que eu nunca soube que usaria.

"Isso está limpo demais", Ricardo resmungou, espalhando os documentos impressos sobre sua mesa. Ele apontou o dedo para um extrato bancário. "Uma única transferência para uma conta no exterior? Em seu nome? Coisa de amador. Alguém cometendo um crime deste tamanho, alguém inteligente o suficiente para roubar uma proposta de centenas de milhões, seria inteligente o suficiente para fatiar os pagamentos. Isso não foi projetado para ser escondido; foi projetado para ser encontrado."

Um nó de tensão no meu peito, um que eu carregava há uma década, se afrouxou um pouco. Foi a primeira vez que alguém olhou para as "provas" e as viu pelo que eram: uma performance encenada.

"E este celular pré-pago", ele continuou, pegando uma foto do telefone barato que a investigação havia "descoberto" na minha antiga mesa. "Comprado com dinheiro vivo numa loja de conveniência a duas quadras do seu apartamento. É quase um insulto. É como o assassino deixar uma confissão assinada na cena do crime."

"Arthur disse que era prova da minha arrogância", murmurei, a lembrança de sua acusação mordaz ainda nítida. "Ele disse que eu achava que era inteligente demais para ser pega."

"Não", disse Ricardo, seus olhos afiados e focados em mim. "Seu irmão é um desgraçado arrogante, mas não é um detetive. Ele viu o que era para ele ver. O que ele queria ver."

Ele estava certo. Arthur sempre teve ciúmes da minha aptidão para o design, do orgulho de nosso pai em meu talento arquitetônico. O escândalo não foi apenas um problema de negócios para ele; foi uma oportunidade. Permitiu que ele me escalasse como a vilã e a si mesmo como o salvador, cimentando seu controle sobre a empresa e a família.

Nossa primeira tarefa real foi rastrear o dinheiro. Não o dinheiro que foi para a conta falsa em meu nome, mas o dinheiro que Camila poderia ter recebido.

"Ela não teria sido paga por transferência", Ricardo raciocinou, andando de um lado para o outro em frente ao seu quadro de evidências. "Muito rastreável. Ela é mais esperta que isso. Estamos procurando outra coisa. Um ganho inesperado. Um carro novo, a entrada de um apartamento, um grande 'presente' de um 'parente'."

Usando antigos registros financeiros aos quais eu tinha acesso devido à minha função administrativa, começamos a cruzar os gastos conhecidos de Camila com a folha de pagamento da empresa. Por semanas, foi um beco sem saída. Ela tinha sido cuidadosa. Seu estilo de vida melhorou depois que ela e Arthur ficaram juntos, mas tudo era explicável pela generosidade dele.

A virada veio de um lugar inesperado: minhas próprias memórias. Ricardo estava me interrogando sobre os dias que antecederam o vazamento, tentando resgatar qualquer detalhe esquecido.

"Pense, Clara. Qualquer coisa fora do comum. Alguém novo por perto? Alguma conversa estranha?"

Fechei os olhos, forçando-me a voltar àquela época. A memória estava turva com o choque e o trauma que se seguiram, mas eu insisti. Lembrei-me das longas noites que passei no escritório, finalizando os detalhes da proposta. Lembrei-me de Camila, sempre lá, me trazendo café, oferecendo uma palavra de apoio, sua presença um zumbido constante e amigável ao fundo.

"Ela estava sempre fazendo perguntas", eu disse lentamente, uma imagem nebulosa se formando. "Sobre a proposta. Ela disfarçava como curiosidade profissional. Dizia que queria entender melhor o lado da construção do negócio, para ajudá-la no marketing."

"Que tipo de perguntas?"

"Específicas. Sobre os materiais exclusivos que estávamos adquirindo, as inovações estruturais. As mesmas coisas que tornavam nossa proposta única. As coisas que o concorrente, o Grupo Vértice, de alguma forma conseguiu replicar em sua proposta final."

E então, outra memória surgiu. Uma conversa que eu tinha ouvido por acaso. Camila ao telefone, sua voz baixa e tensa. Ela estava falando sobre sua "tia doente" em outro estado, sobre precisar enviar dinheiro para "contas médicas".

"A tia dela", eu disse, meus olhos se abrindo de repente. "Ela estava sempre falando de uma tia doente. Dizia que estava mandando dinheiro para ela."

Ricardo parou de andar. Uma imobilidade de caçador tomou conta dele. "Ela tinha uma tia?"

"Eu... eu não sei. Eu apenas presumi que sim."

Levou menos de vinte e quatro horas para Ricardo descobrir a verdade. Camila Novaes era filha única de uma cidade pequena. Seus pais já haviam falecido. Ela não tinha tias, nem tios, nem parentes próximos.

A "tia doente" era uma ficção. Uma cobertura para onde seu dinheiro estava indo. Ou, mais provavelmente, de onde estava vindo.

"Ela não estava enviando dinheiro", disse Ricardo, sua voz sombria ao desligar o telefone com um contato. "Ela estava recebendo. Depósitos em dinheiro, pequenos e estruturados, em uma conta de banco regional sob o nome de solteira de sua mãe. Sempre um pouco abaixo do limite de dez mil reais que exige declaração. Em seis meses, somou quase duzentos e cinquenta mil reais."

Ele prendeu uma impressão dos registros bancários no quadro. Lá estava. O dinheiro. Não em uma transferência limpa e óbvia, mas lavado lentamente, cuidadosamente, através de um fantasma.

Minha respiração falhou. Era real. Isso não era mais apenas uma teoria. Era uma prova.

"É isso", sussurrei, minha mão se estendendo para tocar o papel, como se sua realidade pudesse ser absorvida através das pontas dos meus dedos.

"É um começo", Ricardo advertiu, seu olhar suavizando um pouco. "Isso prova que ela tinha uma fonte secreta de renda que coincide com o escândalo. Mas não prova que veio do Grupo Vértice. Para isso, precisamos encontrar a pessoa do outro lado da transação. A pessoa no Vértice que a pagou."

Ele desenhou um círculo ao redor do nome da empresa rival no quadro.

"E é aí", disse ele, virando-se para mim, um brilho de desafio em seus olhos, "que as coisas ficam perigosas."

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