
O Retorno de Sofia
Capítulo 2
Eu estava morta, mas minha alma não encontrou a paz, em vez disso, ficou presa a Pedro, meu ex-marido, como uma sombra invisível, incapaz de me afastar mais de três metros dele. Flutuando em seu escritório luxuoso no topo de um arranha-céu, eu o observava, o homem que um dia amei mais que a própria vida, agora um estranho de coração frio. A doença terminal me levou, mas a dor da traição me manteve aqui, acorrentada a ele por uma força que eu não compreendia.
Ele estava ao telefone, sua voz era a mesma, profunda e autoritária, discutindo a aquisição de um novo terreno bilionário, e sua expressão era focada, impiedosa, a mesma que ele usava para destruir seus concorrentes. A luz da cidade entrava pelas janelas panorâmicas, mas para mim, tudo era cinza. Eu via o mundo, mas não podia tocá-lo, não podia sentir o calor do sol ou o frio do vidro. Eu era uma espectadora do meu próprio luto, um luto que ninguém além de mim parecia sentir.
Minha mente voltou àquele dia chuvoso, o dia em que nosso pequeno Miguel, nosso anjinho, escorregou e caiu na piscina. Eu gritei por Pedro, mas ele estava em uma chamada importante, trancado em seu escritório, e quando finalmente saiu, era tarde demais. A dor me consumiu, mas o que me destruiu foi o olhar dele, um olhar de acusação, como se a culpa fosse minha. Depois disso, ele me enviou para uma casa de repouso isolada, um exílio disfarçado de cuidado, onde a minha doença, agravada pela tristeza, finalmente me venceu. Ele nunca me visitou.
Eu estendi minha mão etérea, tentando tocar seu ombro, querendo gritar que ele estava errado, que eu nunca faria mal ao nosso filho, mas meus dedos atravessaram seu terno caro sem encontrar resistência. Era uma tortura, estar tão perto e ao mesmo tempo tão infinitamente longe. A frustração e a impotência queimavam dentro de mim, uma chama fria em meu peito fantasmagórico.
Uma batida suave na porta interrompeu meus pensamentos. Ricardo, o assistente leal de Pedro, entrou segurando uma bandeja com uma tigela de sopa. "Senhor, sua sopa de galinha com ginseng. A sua mãe insistiu."
Pedro nem sequer olhou para ele, seus olhos fixos na tela do computador. "Leve embora. Eu já disse que não quero." Sua voz era cortante. Aquela sopa... era a receita que eu criei para ele, para quando ele trabalhava até tarde. Ver sua recusa foi como levar outra facada, mesmo sem um corpo para sentir a dor física.
Ricardo hesitou, a preocupação evidente em seu rosto. "Mas senhor, o senhor não comeu nada o dia todo..."
"Eu disse para levar embora!" Pedro rosnou, e Ricardo recuou, saindo silenciosamente do escritório. Ele sempre foi um bom homem, leal a Pedro, mas com um olhar de simpatia para mim que eu nunca esqueceria.
Pouco depois, a porta se abriu novamente, mas desta vez era Juliana, a nova parceira de Pedro, uma mulher cuja beleza era tão impressionante quanto sua ambição. Ela deslizou para dentro do escritório, seus saltos mal fazendo barulho no tapete felpudo. "Querido, ainda trabalhando?" ela murmurou, sua voz um mel venenoso. Ela se aproximou por trás dele, massageando seus ombros com uma intimidade que me revirou o estômago. Pedro relaxou sob seu toque, um contraste gritante com a forma como ele havia tratado Ricardo. Ela era a razão de tudo, a mulher que sussurrou veneno em seus ouvidos, que o virou contra mim e orquestrou minha ruína.
Mais tarde, do lado de fora do escritório, ouvi a conversa de duas secretárias. "Você viu? Ele nem perguntou sobre o funeral da senhora Sofia." A outra respondeu em voz baixa: "Ele a odiava. Desde o acidente com o filho, ele a culpou por tudo. A senhora Juliana é quem realmente o entende." O veneno delas confirmou minha solidão, meu fim trágico e esquecido, e acendeu a primeira faísca de um desejo frio e sombrio: vingança.
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