
O Renascer da Fénix: Minha Paz, Minhas Regras
Capítulo 2
Quando abri os olhos, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital.
O meu corpo inteiro doía.
A minha mãe, Sofia, estava sentada ao meu lado, a sua cara estava pálida e os seus olhos vermelhos e inchados.
Ela segurou a minha mão com força.
"Clara, finalmente acordaste."
A sua voz estava rouca, cheia de preocupação.
Tentei sentar-me, mas a dor na minha perna direita era insuportável.
Olhei para baixo e vi a minha perna, do joelho para baixo, envolta numa espessa camada de gesso.
Lembrei-me do que aconteceu.
A derrocada.
O meu carro foi atingido por lama e pedras, caindo da estrada da montanha.
O meu noivo, Lucas, estava ao meu lado.
"Lucas? Onde está o Lucas?", perguntei apressadamente.
A expressão da minha mãe ficou ainda mais sombria, e ela hesitou antes de falar.
"Ele... ele está bem. Está a cuidar da irmã dele, a Joana."
Joana?
A minha mente ficou em branco por um momento.
"Porque é que ele está a cuidar da Joana? Ela não estava na cidade?"
"A Joana ouviu sobre o teu acidente e correu para cá, mas o cão dela, o Trovão, assustou-se com a tempestade e fugiu para a montanha. A Joana foi procurá-lo e torceu o tornozelo," a minha mãe explicou, a sua voz baixa.
Uma raiva fria começou a subir do fundo do meu coração.
Eu estava aqui, com uma perna partida, quase morta, e o meu noivo estava a cuidar da sua irmã que torceu o tornozelo enquanto procurava um cão.
Agarrei o meu telemóvel na mesa de cabeceira.
As minhas mãos tremiam.
Encontrei o número do Lucas e liguei.
Demorou muito tempo até ele atender.
"Clara? Como estás? Estás acordada?" A sua voz soava cansada, mas não havia muita preocupação.
"Lucas, onde estás?" A minha voz era calma, assustadoramente calma.
"Estou no hospital com a Joana. Ela magoou o pé. O Trovão também está muito assustado, não come nada."
"Então, vais ficar aí com ela?"
"Sim, ela precisa de mim. Ela está sozinha, sabes como ela é sensível."
Sensível.
E eu? A noiva dele, que acabou de sobreviver a uma derrocada. O que sou eu?
Respirei fundo, o ar do hospital frio e com cheiro a desinfetante.
"Lucas, vamos terminar."
Houve silêncio do outro lado da linha.
Depois, a sua voz explodiu, cheia de incredulidade e raiva.
"Terminar? Estás a brincar comigo, Clara? Tivemos um acidente! Eu também estou exausto! A Joana é minha irmã, ela precisa de mim! Não podes ser um pouco mais compreensiva?"
"Compreensiva?" Eu ri, um som seco e sem alegria. "A tua irmã torceu o tornozelo. Eu parti a perna. Eu quase morri, Lucas."
"Foi um acidente! Eu não queria que isto acontecesse! Eu tirei-te do carro, não tirei? Chamei a ambulância! O que mais querias que eu fizesse? A Joana estava em pânico, eu tinha de a acalmar!"
As suas palavras eram como pedras, atingindo-me uma a uma.
Ele não entendia. Ele nunca entenderia.
"Não quero discutir, Lucas. Acabou."
Desliguei o telemóvel antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
Olhei para o ecrã escuro, e depois para a minha mãe.
Os seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela não disse nada, apenas me abraçou com força.
Eu não chorei.
Eu sentia-me vazia.
Completamente vazia.
Nesse momento, o meu telemóvel vibrou.
Era uma mensagem de um número desconhecido.
"Não penses que podes terminar com o meu irmão assim. Ele ama-te, mas a família vem sempre em primeiro lugar. Devias aprender o teu lugar."
Era a Joana.
Apaguei a mensagem.
Fechei os olhos.
A família vem em primeiro lugar.
Eu ia ser a família dele.
Mas, aparentemente, eu nunca seria tão importante como a irmã dele.
Ou o cão dela.
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