
O Relógio e a Traição
Capítulo 3
Naquela noite, o silêncio na mesa de jantar era pesado, denso.
Patrícia tentou quebrar o gelo.
Ela preparou o prato favorito de Ricardo, risoto de cogumelos, e abriu uma garrafa do melhor vinho que tinham na adega.
"Eu estava pensando...", ela começou, a voz um pouco hesitante. "Sobre o relógio."
Ricardo continuou a comer, sem levantar os olhos do prato.
"Eu sei que você ficou chateado", ela continuou, tentando soar conciliadora. "Mas não foi nada demais, de verdade. O Leonardo tem se desdobrado, feito horas extras... foi só um gesto de reconhecimento. Ele admira muito a empresa, o nosso trabalho."
Ela tentou se mostrar vulnerável, uma tática que sempre funcionava.
"Eu não deveria ter escolhido aquele relógio específico, eu admito. Foi uma falha minha, eu estava com a cabeça cheia. Me desculpe."
Ricardo parou de comer.
Ele pousou os talheres ao lado do prato, o som ecoando na sala silenciosa.
Ele finalmente olhou para ela.
"Não, Patrícia. Não foi uma 'falha'. Foi uma escolha."
A voz dele era calma, mas firme.
"Você escolheu desvalorizar algo que era nosso, que era único. O problema não é o valor do relógio, é o valor do que ele representava. E você deu isso a outra pessoa. Você entende a diferença?"
A pergunta não era uma acusação, era uma constatação. Ele estava testando se ela ainda era capaz de entender a linguagem deles.
Patrícia suspirou, sentindo a frustração crescer.
"Você está fazendo uma tempestade em copo d'água. Era só um objeto."
"Não, não era", ele a cortou. "Era um símbolo. E símbolos importam. A lealdade importa. O respeito importa."
Ele se inclinou para a frente.
"O que eu fiz hoje, recusando o projeto Nova Era, também foi um símbolo. Foi um aviso."
A palavra "aviso" pairou no ar entre eles.
"Um aviso?", ela repetiu, incrédula. "Você está me ameaçando?"
"Estou te mostrando as consequências", ele esclareceu. "O que aconteceu hoje foi apenas o começo. Se você continuar a colocar seus caprichos e esse garoto acima da nossa parceria e da nossa empresa, as perdas serão muito maiores. Eu garanto."
A ameaça era velada, mas absolutamente clara.
Ele não estava mais jogando o jogo do marido magoado. Ele estava jogando para vencer.
Patrícia o encarou, chocada. O Ricardo à sua frente era alguém que ela não reconhecia. Calculista, frio, determinado.
Ela sentiu um calafrio. Pela primeira vez, ela sentiu medo de perdê-lo. Não apenas o marido, mas o sócio, o pilar que sustentava o mundo dela.
"Isso não vai mais acontecer", ela disse, a voz baixa e apressada. "Eu prometo. Vou manter o Leonardo no lugar dele. Foi um erro, eu entendi."
Ricardo apenas a observou, o rosto inescrutável.
Ele não acreditava nela.
Não mais.
Ele viu a promessa nos lábios dela, mas viu a verdade nos olhos dela. A verdade era que ela não achava que tinha feito nada de errado. Ela estava apenas cedendo para apagar o incêndio, para que pudesse voltar a fazer o que queria.
Ela não entendia que o problema não era o Leonardo. O problema era ela.
"Ótimo", ele disse, levantando-se da mesa. "Estou cansado. Vou para o quarto de hóspedes hoje."
"Ricardo, espere...", ela pediu, levantando-se também.
Mas ele já estava saindo da sala de jantar, sem olhar para trás.
Patrícia ficou sozinha, olhando para o risoto intocado no prato dele.
Ela sentiu uma pontada de pânico. Ela havia subestimado a profundidade da ferida que causara.
Ela arrumou a mesa, lavou a louça, realizou as tarefas domésticas como se a normalidade pudesse, de alguma forma, consertar a rachadura que se abria entre eles.
Ela pensava que um pedido de desculpas e uma promessa seriam suficientes.
Ela não entendia que a confiança, uma vez quebrada, não se conserta com palavras.
Ricardo, deitado na cama do quarto de hóspedes, olhava para o teto.
Ele ouvia os sons dela se movendo pela casa, a tentativa patética de restaurar uma ordem que não existia mais.
Ele sabia que a promessa dela era vazia.
O coração dele doía, uma dor surda e persistente. Mas por baixo da dor, uma nova resolução se solidificava.
Ele não seria mais a vítima. Ele não esperaria pela próxima traição.
Ele tomaria o controle.
Ele pegou o celular e enviou uma mensagem.
"Precisamos conversar. Amanhã."
A resposta foi quase imediata.
"Claro, irmão. Onde e quando?"
Ele sorriu no escuro.
A ajuda estava a caminho.
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