
O Projeto Roubado: Um Amor Destruído
Capítulo 2
A tela do tablet brilhava no escuro do nosso apartamento, a única luz acesa. Meus olhos estavam fixos na manchete da revista de arquitetura mais conceituada do país.
"Jovem Talento Pedro Revela Projeto Inovador e Garante Estágio com a Renomada Arquiteta Dona Clara."
Abaixo da manchete, uma foto. Pedro, um calouro que eu mal conhecia, sorria com arrogância, e ao lado dele, o meu projeto. O projeto que consumiu três anos da minha vida. Meu nome estava lá, no final do artigo, em letras minúsculas, listado como um mero "assistente de pesquisa".
Meu sangue gelou.
Eu levantei do sofá, o tablet na mão, e caminhei até o nosso quarto. Ana, minha noiva, minha namorada desde a infância, estava sentada na cama, lixando as unhas como se nada tivesse acontecido.
Ela ergueu os olhos, sorrindo.
"Oi, amor. Cansado?"
Eu não respondi. Apenas virei a tela do tablet para ela.
O sorriso dela vacilou por um segundo, mas logo se recompôs.
"Ah, você viu. Que bom, não é? O Pedro conseguiu."
A calma dela era um tapa na minha cara.
"O que é isso, Ana?" minha voz saiu rouca, um sussurro cheio de incredulidade.
"É o artigo sobre o projeto," ela disse, voltando a lixar a unha com uma concentração irritante. "O Pedro precisava muito desse estágio. Você sabe como a família dele é simples. Essa era a única chance dele."
"O projeto? O MEU projeto?" eu finalmente explodi, minha voz ecoando pelo quarto. "O projeto em que eu trabalhei por três anos? O projeto que eu ia apresentar para a Dona Clara?"
Ana suspirou, largando a lixa de unha. Ela me olhou com uma ponta de impaciência, como se eu fosse uma criança fazendo birra.
"Miguel, não seja dramático. É só um projeto. Você é o estudante mais talentoso da nossa turma, todo mundo sabe disso. Você pode criar outro, talvez até melhor."
Suas palavras me atingiram como pedras.
"Fazer outro?" eu ri, um som amargo e sem alegria. "Você está me ouvindo? Três anos, Ana. TRÊS ANOS. Esse não era 'só um projeto'. Era a minha vida. Era a minha chance de trabalhar com a Dona Clara, meu sonho desde que eu era criança."
"E o sonho do Pedro não conta?" ela rebateu, o tom de voz subindo. "Ele precisava disso mais do que você! Você tem tudo, Miguel. Seus pais são arquitetos famosos, você nunca precisou se preocupar com nada."
"Isso não te dava o direito!" eu gritei, avançando um passo. "Você pegou o meu trabalho, o meu futuro, e deu para outra pessoa como se não fosse nada!"
Ela se levantou, me enfrentando.
"Eu fiz o que era preciso para ajudar alguém que eu me importo. Alguém que precisava. Você está sendo egoísta."
A palavra "egoísta" me deixou sem ar. A manipulação era tão descarada, tão cruel, que por um momento eu não soube como reagir.
Meus olhos correram pelo quarto e pousaram na prateleira ao lado da porta. Lá estava ela. A maquete final do projeto. A representação física de cada noite mal dormida, de cada gota de suor.
Uma fúria cega tomou conta de mim.
Eu marchei até a prateleira, peguei a maquete com as duas mãos e, sem pensar duas vezes, a arremessei contra a parede.
O som do acrílico e da madeira se estilhaçando foi ensurdecedor. Pedaços do meu sonho voaram por todo o quarto.
Ana gritou, mais de surpresa do que de medo.
Eu me virei para ela, o peito subindo e descendo, a respiração ofegante.
"Três anos," eu disse, a voz tremendo de raiva. "Eu passei seis meses só pesquisando os materiais sustentáveis que usei. Eu construí cada viga daquela maquete com as minhas próprias mãos, fiquei até de madrugada colando peças minúsculas enquanto você dormia. Recusei festas, viagens, tempo com meus amigos... tudo por essa merda de projeto."
Eu apontei para os destroços no chão.
"Isso aí não era só um trabalho de faculdade. Era a minha alma. E você deu de presente."
O rosto de Ana estava pálido, mas a expressão de desafio ainda estava lá.
"Você está exagerando, Miguel. Foi só uma ajuda."
"Ajuda?" eu peguei meu celular do bolso, abri a galeria e mostrei a ela uma foto que eu tinha tirado do e-mail de recomendação. "E isso? Essa assinatura na carta de recomendação para o Pedro... Você falsificou. Você usou meu nome para validar a sua mentira."
Pela primeira vez, vi um lampejo de pânico nos olhos dela. A fachada de calma começou a rachar.
Eu me aproximei, baixando a voz para um tom gélido e ameaçador.
"Você tem até amanhã para ir até a universidade, até a revista, e contar a verdade. Você vai retratar essa farsa publicamente e garantir que meu nome seja colocado como o autor principal deste projeto."
Ela engoliu em seco. "Miguel, não faça isso. Você vai destruir a carreira do Pedro antes mesmo de ela começar."
"Você já destruiu a minha," eu retruquei. "A escolha é sua, Ana. Ou você conserta a merda que fez, ou eu vou fazer isso por você. E eu juro, você não vai gostar do meu jeito."
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