
O Preço do Sucesso Dele: A Minha Alma
Capítulo 3
A minha decisão, dita ao vento, pareceu solidificar-se dentro de mim.
Peguei no telemóvel e enviei uma mensagem curta e direta ao Tiago.
"Precisamos de falar. Quero o divórcio."
A resposta dele demorou quase uma hora a chegar, tempo suficiente para eu e o meu pai regressarmos a casa em silêncio, a casa que agora parecia demasiado grande e vazia sem a presença da minha avó.
O telemóvel vibrou na minha mão. Era uma mensagem de voz. A voz dele, agora desprovida da euforia anterior, estava carregada de irritação.
"Divórcio? Eva, que raio estás a dizer? Estás a brincar comigo? Ganhei o maior prémio da minha carreira e é assim que reages? Com ameaças de divórcio?"
A sua voz continuou, cheia de uma raiva que me era estranha.
"Eu sei que hoje foi o funeral da tua avó, e lamento, mas não podes esperar que eu pare o mundo por causa disso! Esta noite era importante para a nossa carreira, para o nosso futuro!"
O nosso futuro? Que futuro? Aquele em que eu ficava na sombra enquanto ele brilhava sob os holofotes com os nossos sonhos partilhados?
"A Sofia trabalhou tanto nisto como eu! Ela ficou até tarde no escritório, sacrificou fins de semana! Ela merece celebrar, e eu mereço celebrar com ela! Não sejas egoísta!"
Egoísta. A palavra atingiu-me. Eu, que abdiquei do meu nome no projeto para que ele pudesse submetê-lo como único autor e ter mais hipóteses. Eu, que passei os últimos seis meses a dar banho, a alimentar e a confortar a minha avó enquanto ela se definhava. Eu era a egoísta.
As lágrimas que contive durante todo o dia ameaçaram cair. Forcei-as a recuar. Não lhe daria essa satisfação.
A mensagem de voz terminou com um tom de ultimato.
"Pára com este drama. Amanhã falamos quando estiveres mais calma. Precisas de pensar nas tuas prioridades."
Depois disso, silêncio. Tentei ligar, mas a chamada ia diretamente para o correio de voz. Ele tinha desligado o telemóvel ou bloqueado o meu número.
Olhei para o meu reflexo no ecrã escuro do telemóvel. A mulher que me olhava de volta parecia cansada, os seus olhos fundos. Onde estava a rapariga cheia de sonhos que se tinha apaixonado pelo Tiago na faculdade de arquitetura?
Ele estava certo numa coisa. Eu precisava de pensar nas minhas prioridades. E a minha prioridade, agora, era eu mesma.
O divórcio não era um drama. Era uma necessidade. Uma libertação.
A Sofia "trabalhou tanto"? Ela estava a fazer o trabalho dela. Eu estava a abdicar da minha vida. Será que ele não via a diferença?
Será que ele alguma vez pensou em mim durante a cerimónia? Será que sentiu a minha falta ao seu lado, a segurar a sua mão quando anunciaram o nome dele?
Provavelmente não. Ele estava demasiado ocupado a partilhar o momento com a Sofia.
Eles tinham tentado ligar-me durante o dia. Uma vez. Uma chamada perdida da Sofia, provavelmente para cumprir um formalismo. Ele não se deu ao trabalho.
Lembro-me da promessa que lhe fiz, quando decidimos que ele seria o único nome no projeto. "É só desta vez, Eva. Assim que ganharmos, abrimos o nosso próprio atelier, 'Soares & Costa'. Será nosso."
A dor daquela memória era aguda, um lembrete da minha própria ingenuidade. O meu sonho estava a ser celebrado por outra pessoa, e não havia nada que eu pudesse fazer.
Enquanto estava perdida nestes pensamentos, o telemóvel do meu pai tocou. Era um número desconhecido. Ele atendeu, a sua expressão a endurecer à medida que ouvia.
"Sim, sou o pai dela. Quem fala?"
Uma pausa.
"Ah, D. Isabel. A mãe do Tiago. Sim, ele está bem, imagino. Acabou de ganhar um prémio."
Outra pausa, mais longa desta vez. O meu pai olhou para mim, os seus olhos cheios de uma fúria fria.
"O quê? A sua filha não sabe educar o marido? A Eva está a ser infantil por querer o divórcio num momento tão importante? Ouça-me com atenção, minha senhora..."
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