
O Preço do Sangue Dela
Capítulo 2
O envelope branco com o resultado do exame estava no fundo da minha gaveta de lingerie, um segredo sujo escondido sob a seda. Grávida. Não eu, mas a assistente do meu marido. O nome dela era Clara.
Hoje era nosso nono aniversário de casamento. A casa estava cheia de gente, o cheiro de trufas e champanhe pairava no ar. Leo, meu marido, um chef famoso que o mundo adorava, circulava entre os convidados com um sorriso que não alcançava seus olhos. Ele era o centro das atenções, como sempre. Eu era apenas um acessório bonito ao seu lado, a arquiteta talentosa que abriu mão da própria carreira para construir a dele.
Ele parou na minha frente, o copo de cristal na mão. Seus olhos, que um dia me olharam com amor, agora estavam frios.
"Sofia, preciso falar com você. Agora."
A voz dele era baixa, mas cortante. Ele me guiou pelo braço até o centro da sala de estar. O barulho das conversas diminuiu, todos os olhos se voltaram para nós. Meu coração começou a bater mais rápido. Eu sabia que algo terrível estava para acontecer.
"Quero que todos saibam," ele disse, a voz ressoando no silêncio repentino. "Que este casamento acabou."
Um suspiro coletivo percorreu a sala. Eu fiquei parada, o rosto queimando de humilhação.
"Sofia não é mais a mulher que eu amava. Ela se tornou uma pessoa fria, vazia. E eu não posso mais viver assim."
Ele olhou para mim, um desprezo claro em seu rosto.
"Quero que você saia da minha casa. Agora. Leve suas coisas e suma da minha vida."
As palavras dele me atingiram como pedras. Eu olhei para os rostos dos nossos amigos, vi pena em alguns, curiosidade mórbida em outros. Ninguém se moveu para me defender.
"E," ele continuou, seu olhar descendo para o meu pescoço, "deixe o colar. Ele pertence à minha família, não a você."
O colar de esmeraldas. Um presente da avó dele no nosso casamento. Era pesado no meu pescoço, um símbolo de uma promessa quebrada. Minhas mãos tremeram enquanto eu tentava abrir o fecho. Meus dedos pareciam não obedecer.
Ele se impacientou.
"Deixa que eu faço isso."
Leo se aproximou e arrancou o colar do meu pescoço com um puxão violento. O fecho arranhou minha pele. Ele segurou a joia na palma da mão por um segundo, olhando para ela como se fosse lixo. Então, na frente de todos, ele abriu a porta da varanda e atirou o colar na escuridão do jardim.
"Agora vá."
Eu me virei, cega pelas lágrimas que me recusei a derramar. Caminhei em direção à porta, cada passo um esforço monumental. Eu já tinha planejado minha saída. Meu pai, um empresário do ramo imobiliário que nunca aprovou Leo, havia providenciado um carro. Ele estaria me esperando a dois quarteirões de distância.
Quando abri a porta, o ar frio da noite me atingiu. Dei um passo para fora, para a liberdade.
Mas a mão de Leo agarrou meu braço com força, me puxando para dentro com violência.
"Você não vai a lugar nenhum."
A porta se fechou atrás de mim, me trancando de volta na minha própria prisão. Os convidados já estavam se dispersando, constrangidos, ansiosos para fugir da cena.
"O que você pensa que está fazendo?" , eu sussurrei, a voz rouca de choque.
"Você vai ficar. Tenho outros planos para você."
Ele me arrastou escada acima, para o nosso quarto. O quarto que em breve seria dele e de Clara. Ele me jogou na cama.
"Você se lembra daquela vez, no nosso primeiro ano de casados? Quando você teve aquela febre terrível e eu fiquei a noite toda cuidando de você?"
Eu me lembrava. Eu me lembrava de delirar de febre, de chamá-lo, e de ele me dizer para calar a boca porque o choro me deixava feia. Eu me lembrava dele dormindo profundamente ao meu lado enquanto eu tremia de frio.
"Você sempre foi tão fraca, Sofia. Tão dependente. E agora, você vai me ser útil uma última vez."
Ele me forçou a ficar de joelhos no chão.
"Peça desculpas."
"Pedir desculpas? Pelo quê?" , a minha voz era um fio.
"Por me decepcionar. Por não ser a mulher que eu precisava. Por me forçar a procurar conforto em outros braços. Peça."
A humilhação era um gosto amargo na minha boca. Eu olhei para o rosto dele, um rosto que eu já amei mais que a minha própria vida. Agora, eu só via um monstro.
"Me desculpe," eu disse, as palavras saindo secas, sem emoção.
"De novo. Com sentimento."
"Me desculpe, Leo."
"Eu não ouvi direito."
"Me desculpe."
Eu repeti as palavras, de novo e de novo, como uma oração vazia, até que minha voz se quebrou e eu não tinha mais nada para dar. Ele sorriu, satisfeito. O pesadelo estava apenas começando.
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