
O Preço do Amargo Arrependimento Dele
Capítulo 2
PONTO DE VISTA DE CAROLINA:
Suas palavras, "Não me importo se você morrer", me atingiram como um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Mas eu não caí. Eu não podia. Não quando aquele dinheiro ainda estava na mesa.
Ele soltou meu braço, sua mão ainda tremendo levemente. Ele me observava, sua expressão indecifrável.
"Você realmente chegou ao fundo do poço", Camila arrulhou, seu braço agora envolvendo o de Heitor. Seus olhos, brilhantes de satisfação, me percorreram. "Imagine, Heitor, sua própria irmã, implorando por migalhas."
Meu olhar permaneceu fixo no dinheiro. Era tudo. Era minha última chance.
"Você vai me dar o dinheiro ou não?", perguntei, minha voz desprovida de emoção.
Heitor recuou, como se estivesse me vendo de verdade pela primeira vez em anos. Seus olhos se estreitaram. Ele enfiou a mão no bolso e tirou um maço de dinheiro, jogando-o na mesa com um movimento do pulso. Aterrissou com um baque suave, um pagamento frio e duro pela minha humilhação.
"Feliz agora?", ele zombou.
"Quase", respondi, juntando as notas, meus dedos roçando no papel frio e nítido. "Só preciso do resto para a última parcela da urna." Minha voz era pouco mais que um sussurro, mas pareceu ecoar no silêncio repentino da balada.
Uma única risada amarga escapou dos meus lábios. Esta era a minha vida agora. Meu futuro. Meu fim.
A sala pareceu encolher ao meu redor. Os rostos se borraram. Tudo o que eu via era a expressão atônita de Heitor, depois o lento amanhecer da confusão.
"Urna?", ele zombou, recuperando-se rapidamente. "Que tipo de jogo você está jogando agora, Carolina?"
Ele não sabia. Ele realmente não sabia. Achei uma estranha e sombria diversão nisso.
"Nenhum jogo", eu disse, olhando-o diretamente nos olhos. "Apenas garantindo que meu lugar de descanso final seja pago. Não posso exatamente contar com a família, posso?"
Camila soltou um suspiro falso. "Heitor, ela está tentando te manipular! Não caia nos truques dela. Ela sempre foi tão dramática."
O olhar de Heitor endureceu. "Não se dê ao trabalho, Carolina. Eu não vou cair nessa."
Eu dei de ombros, o movimento um esforço para meus músculos doloridos. "Acredite no que quiser."
Guardei o dinheiro no bolso, o som das notas um pequeno conforto. Ainda não era o suficiente. Não exatamente.
"Preciso ir", eu disse, virando-me para sair. O gerente da balada, Sr. Queiroz, observava à distância, seu rosto uma mistura de pena e medo.
"Espere", Heitor chamou, sua voz afiada. "Você está demitida."
Meus passos vacilaram. Virei-me lentamente. "Demitida?"
"Sim, demitida", ele cuspiu. "Você acha que pode me envergonhar, envergonhar o nome Almeida Prado, e ainda manter seu emprego? Você está fora."
Meu coração martelava contra minhas costelas. Fora. De novo.
"E nem pense em encontrar outro emprego nesta cidade", ele acrescentou, sua voz baixa e ameaçadora. "Todas as portas estarão fechadas para você. Considere isso mais uma lição."
Minhas unhas cravaram em minhas palmas. Mais uma lição. Cinco anos de lições não foram suficientes?
Eu queria gritar, atacar, mas as palavras morreram na minha garganta. Qual era o sentido? Ele não ouviria. Ele nunca ouvia.
Eu apenas assenti, um movimento lento e deliberado. "Entendido."
Saí da balada, o ar frio da noite um choque no meu rosto. Era melhor assim. Chega de humilhações públicas, pelo menos não aqui. Meu corpo parecia pesado, cada passo um esforço monumental. Meu estômago se revirou, e eu sabia o que estava por vir.
Tropecei no beco mais próximo, o fedor de lixo velho enchendo minhas narinas. Apoiei-me contra uma parede de tijolos úmida, vomitando até minha garganta queimar e meu estômago ficar vazio. Era um ritual familiar agora, a rejeição brutal de qualquer comida miserável que eu conseguia comer.
Meu corpo estava me traindo, lenta mas seguramente. As palavras do médico ecoavam em minha cabeça: "Terminal."
De volta ao meu minúsculo quarto alugado, o silêncio era ensurdecedor. Olhei para o telefone. Outra chamada perdida da loja de urnas. O gerente, Sr. Guedes, estava ficando impaciente. O pagamento final estava atrasado.
Eu precisava daquele dinheiro. Não para a vida, mas para a morte. Por um pingo de paz, um canto tranquilo na terra, comprado com meu próprio sangue e lágrimas.
O telefone tocou novamente. Sr. Guedes. Eu me preparei.
"Sra. Daniels", sua voz, geralmente jovial, estava tensa de irritação. "Você vai fazer este pagamento ou não? Eu tenho outros clientes, sabe. Aquela urna é popular."
"Eu... eu perdi meu emprego", sussurrei, as palavras presas na minha garganta seca. "Eu vou conseguir. Só mais alguns dias."
Ele zombou. "Mais alguns dias? Você disse isso na semana passada! Olha, eu não sou casa de caridade. Se você não pode pagar, terei que vendê-la para outra pessoa."
Meu coração deu um salto. "Não! Por favor. É... é importante para mim."
"Importante o suficiente para pagar, então", ele retrucou. "Vou te dar até amanhã de manhã. É isso. Caso contrário, já era." Ele desligou antes que eu pudesse argumentar mais.
A linha ficou muda. Minha última esperança, diminuindo.
Uma notificação de texto apareceu no meu celular velho e rachado. Era do gerente da balada, Sr. Queiroz. "Seu contrato de trabalho foi rescindido, com efeito imediato. Seu último salário será retido por danos incorridos durante seu último turno."
Danos. Claro. A última e cruel facada de Heitor. Ele não estava apenas me demitindo; estava garantindo que eu não tivesse absolutamente nada. Nem mesmo a quantia insignificante que eu havia ganhado.
Minha visão embaçou. Ele realmente não se importa se eu morrer. As palavras ecoaram, uma profecia arrepiante.
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