
O Preço do Abandono Materno
Capítulo 2
"Eu não quero."
A voz de Maria Clara era fria, sem qualquer emoção.
Diante dela, sobre a mesa de mogno de um restaurante caro que ela jamais pagaria, estava um cartão bancário preto e a chave de um apartamento de luxo no centro da cidade.
"Isso é apenas uma pequena compensação por todos esses anos, querida," disse a mulher elegantemente vestida à sua frente, Beatriz, com uma voz suave e cheia de um cuidado ensaiado. "Sua vida tem sido muito difícil. Mamãe quer te compensar."
Maria Clara olhou para as unhas perfeitamente cuidadas de Beatriz, depois para as suas próprias, com as cutículas ressecadas e a pele áspera pelo trabalho pesado.
Ela não tocou em nada sobre a mesa.
"Eu não preciso," repetiu ela, com a mesma frieza.
Beatriz suspirou, um ar de mágoa em seu rosto perfeitamente maquiado.
"Clara, eu sei que você me odeia, mas eu sou sua mãe. Eu só quero o melhor para você."
Maria Clara quase riu.
Mãe?
Essa mulher a abandonou quando ela tinha cinco anos para se casar com um homem rico. Desde então, ela nunca mais a tinha visto.
Ela foi criada pela sua tia, em meio a dificuldades e privações.
Agora, vinte anos depois, essa mulher aparecia do nada, querendo bancar a mãe carinhosa.
"O melhor para mim era ter uma mãe quando eu precisei de uma," disse Maria Clara, sua voz finalmente ganhando um tom cortante.
Ela se levantou.
"Eu tenho que ir. Tenho trabalho."
Ela não esperou por uma resposta. Simplesmente se virou e saiu do restaurante luxuoso, deixando Beatriz para trás com seus presentes caros e sua expressão de falsa tristeza.
Do lado de fora, uma chuva torrencial começou a cair, como se o céu estivesse liberando toda a raiva que Maria Clara sentia.
Ela não tinha um guarda-chuva. Em poucos minutos, suas roupas baratas estavam completamente encharcadas.
O frio penetrava seus ossos, mas não era nada comparado ao frio que sentia por dentro.
Enquanto caminhava pelas ruas movimentadas, as memórias voltaram sem pedir permissão.
Ela se lembrou de uma noite, muitos anos atrás, quando caiu e cortou a perna. A ferida era profunda. Ela chorou, chamando por uma mãe que nunca veio. Sua tia a levou para o hospital, segurando sua mão o tempo todo.
A cicatriz ainda estava lá, um lembrete permanente do abandono.
A chuva parecia lavar a cidade, mas não conseguia lavar suas memórias.
Ela finalmente chegou ao seu pequeno apartamento alugado, um cubículo nos subúrbios. O cheiro de mofo a cumprimentou na porta.
Ela tirou as roupas molhadas, tremendo de frio, e se enrolou em um cobertor gasto.
Seu celular, um modelo antigo com a tela trincada, apitou.
Era uma mensagem de um número desconhecido.
"Clara, sou eu, sua mãe. Por favor, me dê uma chance de consertar as coisas. Eu realmente preciso falar com você. É urgente."
Maria Clara olhou para a mensagem por um longo tempo.
Um sentimento de desprezo subiu por sua garganta.
Urgente?
Depois de vinte anos de silêncio, de repente era urgente.
Ela sentiu uma raiva fria se espalhar por seu corpo.
Ela não respondeu.
Em vez disso, virou o celular com a tela para baixo sobre a mesinha de cabeceira gasta.
Colocou o aparelho no modo silencioso.
Ela não queria mais ouvir nada daquela mulher.
Ela fechou os olhos, tentando encontrar um pouco de paz no som da chuva batendo contra a janela, mas o sono não veio. A escuridão do seu quarto parecia tão vasta e vazia quanto o buraco que Beatriz deixou em sua vida.
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