
O Preço da Fúria: O Retorno da Esposa Rejeitada
Capítulo 2
No dia do nosso aniversário de casamento, o meu marido, João, deu-me um presente.
Eram papéis de divórcio.
A assinatura dele já estava lá, preta e nítida. O nome dele parecia zombar de mim.
Ele disse, com a voz desprovida de qualquer emoção: "Assina, Lúcia. Estou farto."
Eu olhei para ele. Ele usava o fato que eu lhe comprei. Parecia cansado, mas os seus olhos estavam frios, como se estivesse a olhar para uma estranha.
"Farto? Farto de quê, João?"
A minha voz tremia um pouco, mas eu forcei-me a manter a calma.
"Farto de tudo," ele respondeu, passando a mão pelo cabelo. "Farto desta casa, farto do teu cheiro a hospital, farto de ter de cuidar do teu pai."
O meu pai. Ele estava no quarto ao lado, a dormir. O cancro tinha-lhe tirado quase tudo, mas não a sua dignidade.
"O meu pai está a morrer," eu disse, com a voz baixa. "Tu prometeste que cuidarias de nós."
"Eu sei o que prometi," ele cortou-me. "Mas a Sofia precisa de mim. O filho dela está doente. Ela não tem mais ninguém."
Sofia. A ex-namorada dele. A mulher que ele nunca esqueceu.
O nome dela atingiu-me. Senti uma dor surda no peito.
"E nós? O que somos nós, João? O que sou eu?"
"Tu és forte, Lúcia. Sempre foste," ele disse, e pela primeira vez, evitou o meu olhar. "A Sofia é frágil. Ela precisa de proteção."
Ele pegou na sua mala, já pronta ao pé da porta. Ele tinha planeado isto.
"Eu vou transferir dinheiro para a tua conta todos os meses. O suficiente para o tratamento do teu pai e para as tuas despesas."
Ele agia como se estivesse a fazer-me um favor. Como se dinheiro pudesse substituir a sua presença, a sua promessa.
"Não quero o teu dinheiro," eu disse, empurrando os papéis de volta para ele. "Quero o meu marido."
Ele riu, um som amargo e sem alegria. "Tu não tens um marido, Lúcia. Não há muito tempo."
Ele abriu a porta. O ar frio da noite entrou, fazendo-me arrepiar.
"Assina os papéis. O meu advogado entrará em contacto contigo."
E com isso, ele saiu. A porta fechou-se com um clique suave, mas soou como um tiro no silêncio do nosso apartamento.
Fiquei ali, a olhar para a porta fechada, os papéis de divórcio na mesa à minha frente.
O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem da Sofia. Uma foto.
Era ela e o João, a sorrir. Na legenda, dizia: "Finalmente em casa. Obrigada por escolheres a nós."
"Nós." A palavra ficou a ecoar na minha cabeça.
Então era verdade. Ele não estava apenas a ajudá-la. Ele estava a construir uma nova vida com ela.
Senti as lágrimas a quererem sair, mas engoli-as. Não ia chorar. Não por ele.
Peguei nos papéis. A minha mão tremia tanto que mal conseguia segurar a caneta.
Mas eu assinei.
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