
O Preço da Coragem
Capítulo 3
A imagem da violência se repetia em sua mente, um filme de terror em loop. Maria fechava os olhos e via as botas chutando o corpo de João, o som surdo dos punhos contra o rosto dele, sua própria voz gritando, impotente, enquanto era segurada por um dos agressores. Ela sentia o cheiro do sangue e do bolo esmagado misturados no ar. Cada detalhe era uma ferida aberta em sua alma.
Ela estava sentada no corredor frio do hospital, esperando por qualquer notícia, quando viu o Sr. Alves e Ricardo se aproximando. Ricardo tinha um pequeno curativo na sobrancelha, uma zombaria diante do estado de João. Eles pararam na sua frente. Ricardo com um sorriso arrogante, o pai com uma expressão de superioridade entediada.
"Então, a velha ainda está aqui" , disse Ricardo, alto o suficiente para que as enfermeiras ouvissem.
O Sr. Alves tirou um talão de cheques do bolso do paletó caro. Ele preencheu uma folha com uma caneta de ouro e a estendeu para Maria.
"Aqui. Cinquenta mil reais. Deve cobrir as despesas do hospital e ainda sobra um troco pra você. Considere isso um presente. Agora, vá à delegacia e retire a queixa. Diga que foi um mal-entendido."
Maria olhou para o cheque, depois para o rosto dele. A calma dele era mais violenta que os socos do filho.
"A vida do meu neto… vale cinquenta mil para o senhor?" , ela sussurrou, a voz rouca de dor e raiva.
O Sr. Alves deu de ombros. "Sendo bem sincero, Dona Maria? Acho que estou até pagando caro demais. Foi só uma briga de garotos. O seu que apanhou mais, acontece. Pegue o dinheiro e suma. É o melhor que você pode fazer."
A mão de Maria tremeu. Ela queria rasgar aquele cheque, cuspir no rosto daquele homem. Mas a exaustão e o medo a paralisaram. Ela apenas balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo silenciosamente.
Ricardo riu. "Ela não quer, pai. A velhinha acha que pode alguma coisa contra a gente. Ela é burra, tadinha."
Eles se viraram e foram embora, deixando Maria com a humilhação e o cheiro de dinheiro sujo no ar.
Mais tarde, o médico a chamou em sua sala. As notícias não eram boas.
"Dona Maria, os exames mostram um traumatismo cranioencefálico grave. Há um edema cerebral significativo. Nós o mantemos sedado para diminuir a pressão intracraniana, mas… a verdade é que o prognóstico não é bom. Mesmo que ele acorde, as chances de sequelas permanentes são altíssimas. Danos motores, cognitivos… ele pode nunca mais ser o mesmo."
Cada palavra do médico era um prego no caixão de suas esperanças. Seu João, seu menino inteligente e cheio de vida, poderia passar o resto dos dias numa cama, ou numa cadeira de rodas, sem poder falar, sem poder reconhecê-la. A dor era tão intensa que ela mal conseguia respirar.
Ela voltou para o quarto de João. Ele estava deitado, pálido, um tubo na garganta, fios e monitores o cercando como uma teia de aranha. A única coisa que se movia era a linha verde no monitor, subindo e descendo, um pulso fraco contra o silêncio da morte.
Ela segurou a mão dele. Estava fria.
"João, meu querido… a vovó está aqui. Você precisa lutar. Lute, meu filho. Não me deixe sozinha."
Naquele momento, uma enfermeira entrou. "Dona Maria, a família Alves está aqui novamente. Eles insistem em falar com a senhora."
Maria sentiu o sangue ferver. Ela enxugou as lágrimas, a dor se transformando em uma fúria fria e dura como aço. Ela saiu do quarto e os encontrou no corredor.
"O que vocês querem mais?" , ela disse, a voz cortante.
"Viemos ver se você já tomou a decisão certa" , disse o Sr. Alves, impaciente.
Maria olhou diretamente nos olhos dele. "Eu nunca vou pegar o seu dinheiro. Eu quero justiça. Eu juro, por tudo o que é mais sagrado, que vocês vão pagar pelo que fizeram com o meu neto. Vocês vão para a cadeia."
Ricardo soltou uma gargalhada alta e debochada.
"Cadeia? Nós? Ah, velhinha, você é mais ingênua do que eu pensava. Você não entendeu ainda? Nessa cidade, nós somos a lei. Nós mandamos na polícia, nos juízes, em todo mundo. Você não é nada. Você é uma barata que a gente pode esmagar a qualquer momento."
Ele se aproximou, o rosto a centímetros do dela, o hálito cheirando a álcool. "Escuta bem o que eu vou te dizer. Se você não retirar essa queixa até amanhã, eu volto naquele hospital e desligo as máquinas que mantêm seu netinho inútil vivo. E ninguém, absolutamente ninguém, vai poder me impedir."
A ameaça pairou no ar, pesada e venenosa. Maria sentiu o chão sumir sob seus pés. Eles não eram apenas cruéis, eram monstros. E ela estava completamente sozinha contra eles.
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