
O Preço da Ascensão
Capítulo 3
A dor era uma constante, um oceano no qual Ana Paula se afogava.
Os agressores não tinham pressa, seguiam um roteiro invisível de crueldade.
Enquanto seu corpo era violado, sua mente estava presa àquela conversa, a voz de João e a voz do Sistema ecoando em um loop infinito.
Ela ouviu de novo.
"O progresso da transferência de infortúnio está em 60%", disse a voz mecânica do Sistema. "A entidade Ana Paula está mostrando sinais de colapso mental e físico. Recomenda-se cautela."
A resposta de João veio em seguida, gelada e pragmática.
"Continue. Precisamos chegar a 100% para que o destino de Patrícia seja completamente limpo. Não podemos parar agora."
Ana Paula fechou os olhos, mas não havia como escapar das palavras dele.
Cada sílaba era um golpe, mais doloroso que os socos que recebia.
O Sistema pareceu hesitar, uma anomalia em sua programação.
"A dor dela excede os parâmetros calculados. A continuação pode resultar em danos permanentes ou morte prematura, o que anularia a transferência."
"Então encontre uma maneira de mantê-la viva, mas sofra", João ordenou, sua voz dura. "Aumente a intensidade das provações. Patrícia precisa estar segura. É a minha missão."
Ana Paula soluçou, um som baixo e quebrado que se perdeu no vasto galpão.
Lembrou-se da noite anterior ao sequestro.
Ela estava se sentindo fraca, os sintomas de sua doença pareciam piores.
Ela chorou nos braços de João, dizendo que estava com medo.
"Não se preocupe, meu amor", ele a consolou, beijando sua testa. "Eu estou aqui. Eu nunca vou deixar nada de ruim acontecer com você. Eu prometo."
A lembrança agora era veneno.
Cada promessa, cada carícia, cada olhar de amor era uma peça do quebra-cabeça de sua destruição.
Ele a estava confortando, sabendo que no dia seguinte a entregaria a torturadores.
A crueldade do plano era incompreensível.
"E depois?", perguntou o Sistema. "O que você fará com ela quando a transferência estiver completa?"
"Eu a resgatarei", disse João, como se falasse do tempo. "Serei o herói. Cuidarei dela, a cobrirei de amor e presentes. Ela nunca saberá a verdade. Pensará que foi apenas um sequestro aleatório e que eu a salvei. Ela vai me amar ainda mais por isso."
Um riso amargo e silencioso brotou no peito de Ana Paula.
A arrogância dele era tão vasta quanto sua crueldade.
Ele realmente acreditava que poderia apagar o que estava fazendo com ela? Que o "amor" dele poderia compensar o inferno?
O Sistema então fez uma sugestão que selou o destino de Ana Paula.
"A última provação necessária para completar a transferência requer a perda total da pureza e da dignidade social da entidade. Isso garantirá que o infortúnio mais profundo de Patrícia, uma mancha em sua reputação, seja transferido."
Houve uma pausa.
Até mesmo João pareceu hesitar por um momento.
Mas foi apenas um momento.
"Faça", ele disse, a voz baixa e firme. "Faça o que for preciso. A reputação de Patrícia precisa ser impecável para o casamento dela com o herdeiro dos Varga. É a minha porta de entrada para a alta sociedade, o meu prêmio final."
O coração de Ana Paula parou de bater por um segundo.
Não era apenas para proteger Patrícia. Era para o benefício dele. Para a ascensão social dele.
Ela não era apenas um sacrifício. Era um degrau.
Ela ouviu João dar a ordem final, detalhada e fria, aos homens através de um pequeno comunicador que um deles usava.
"Certifiquem-se de que ela seja humilhada da pior maneira possível. Quero que ela perca tudo. A pureza, a dignidade. Façam o que sabem fazer."
Os homens se entreolharam.
Um deles se aproximou de Ana Paula, um sorriso doentio no rosto.
"Você ouviu o chefe", ele disse, a voz áspera. "Temos novas instruções."
O terror que Ana Paula sentiu naquele momento foi absoluto.
Era um abismo sem fundo, e ela estava caindo, caindo, caindo, sem nada a que se agarrar, enquanto o homem que jurou amá-la a empurrava para a escuridão.
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