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Capa do romance O Pescador do Silêncio

O Pescador do Silêncio

JP, um pescador mudo, casou-se com a rica Isabela Alencar, mas o sonho era uma jaula de tortura. Sob ameaças falsas contra seus pais, ele suportou humilhações de Isabela e seu amante, Ric. Após falhar em envenená-la, JP foi jogado em um armazém fétido e levado ao desespero com a farsa da morte de sua família. Ao descobrir que tudo fora uma mentira cruel, resta apenas a fúria. Sem esperança, ele usa o veneno de Mateus no casamento dos vilões como seu último ato de liberdade.
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Capítulo 2

João Pedro, o JP, pescador mudo, casou com Isabela Alencar.

Ninguém na vila pequena e pobre do litoral do Ceará entendeu.

Ela, herdeira de um império, gado e usina no sertão.

Linda, falante, rica.

Ele, só o mar e o silêncio.

Nas festas da família Alencar, Isabela o exibia.

"Meu JP é diferente, especial", ela dizia, a voz cheia de um orgulho que parecia amor.

Protegia-o dos olhares curiosos, das perguntas maldosas sobre por que ele não falava.

JP apenas observava, as mãos grossas de puxar rede desconfortáveis entre talheres de prata.

A vila comentava: "JP tirou a sorte grande".

Mal sabiam.

A porta do quarto se fechou.

O sorriso de Isabela sumiu.

"Você sorriu para minha prima hoje", ela disse, a voz baixa, diferente da voz das festas.

JP negou com a cabeça, rápido.

As mãos dela apertaram o braço dele, unhas cravando.

"Não minta para mim, JP. Eu vi."

Os olhos dela, antes brilhantes de festa, agora eram duros, frios.

"Seus pais", ela continuou, soltando o braço dele com um empurrão leve, "gostam muito daquela casinha que dei a eles, não é?"

JP sentiu um arrepio.

"Seria uma pena se algo acontecesse. Um incêndio, talvez. Coisas acontecem."

Ela sorriu de novo, mas era um sorriso que não alcançava os olhos.

"Você é meu, João Pedro. Só meu."

Isabela ligou a televisão grande na parede.

Um vídeo começou a rodar.

Seu Antônio e Dona Maria, os pais de JP, estavam num barco pequeno, no meio do mar agitado.

A câmera tremia.

As ondas batiam forte.

Dona Maria gritava, o rosto molhado de água e medo.

Seu Antônio tentava controlar o barco, os braços finos lutando contra o leme.

"Isso é só um aviso, meu amor", Isabela sussurrou no ouvido de JP, o hálito quente.

"Eles estão bem, por enquanto. Eu mandei buscá-los. Mas posso mandá-los de volta para o mar a qualquer hora."

JP caiu de joelhos.

As mãos tremiam tanto que ele não conseguia fazer sinal algum.

Um som gutural escapou de sua garganta, um soluço de puro terror.

Isabela passou a mão pelos cabelos dele.

"Não se preocupe. Contanto que você seja um bom menino."

Isabela não se contentava só com JP.

Ela tinha outros.

Muitos.

Mas um deles era especial: Ricardo Tavares, o Ric.

Cantor de axé, de Salvador, corpo sarado, sorriso fácil.

Estava começando a fazer sucesso.

Isabela o conheceu numa de suas viagens.

Trouxe-o para a fazenda.

"JP, este é o Ric", ela apresentou, como se fosse um novo cavalo premiado.

"Ele vai passar um tempo conosco."

Ric apertou a mão de JP, o aperto firme demais, o sorriso largo demais.

JP sentiu o cheiro doce do perfume caro de Ric misturado ao cheiro de Isabela.

"Você vai ser legal com ele, não vai, JP?", Isabela disse, a voz melosa, mas com uma ordem clara por baixo.

"Ric é meu amigo. E você trata bem os meus amigos."

JP apenas assentiu, o olhar baixo.

A casa era grande, mas de repente pareceu pequena demais para os três.

JP não aguentava mais.

A presença de Ric, os olhares de Isabela, a humilhação constante.

Uma noite, ele juntou coragem.

Esperou Isabela estar sozinha na varanda, olhando as estrelas.

Aproximou-se em silêncio.

Com as mãos, ele fez os sinais.

Eu. Quero. Ir. Embora.

Nós. Acabou.

Isabela riu, um som seco, sem humor.

"Ir embora? Você não vai a lugar nenhum, JP."

Ela se levantou, caminhou até ele, o corpo tenso.

"Você acha que pode simplesmente me deixar? Depois de tudo que fiz por você?"

Ela agarrou o rosto dele com força.

"Você é meu. Entendeu? Meu. Para sempre."

Os olhos dela faiscavam.

"Tente ir embora, e seus pais vão pagar o preço. Eu te garanto."

JP sentiu o medo gelado voltar.

Ele estava preso.

Ric e Isabela brigaram feio.

Gritos ecoaram pela casa.

JP ouviu tudo do seu quarto, encolhido.

Depois, silêncio.

No dia seguinte, Ric tinha sumido.

Isabela entrou no quarto de JP, o rosto pálido de raiva.

"Onde ele está?", ela sibilou.

JP fez sinais de que não sabia.

"Não minta pra mim, seu pescadorzinho mudo! Você fez alguma coisa com ele!"

Ela o agarrou pelos cabelos, arrastando-o pela casa.

"Você vai me dizer onde está o Ric, ou seus pais vão sentir saudades do mar."

A ameaça era clara, direta.

JP balançava a cabeça, lágrimas escorrendo, tentando fazer sinais de inocência.

Mas Isabela não via, ou não queria ver.

A culpa já estava selada nos olhos dela.

O telefone de Isabela tocou.

Ela atendeu, ouviu por um momento, e um sorriso cruel se espalhou por seu rosto.

Ela desligou e virou-se para JP.

"Más notícias, meu amor."

Ela mostrou a ele a tela do celular.

Outro vídeo.

Desta vez, o pequeno barco dos pais de JP virava.

As ondas engoliam tudo.

Gritos.

Depois, só o mar vazio.

JP soltou um grito mudo, o corpo convulsionando.

O som que saiu de sua garganta era de um animal ferido.

Ele caiu no chão, batendo a cabeça, a dor insuportável.

Seus pais. Mortos. Por causa dele.

Isabela o observava, fria.

"Viu o que você me fez fazer?", Isabela disse, a voz calma, quase gentil.

JP estava no chão, quebrado.

O vídeo do afogamento dos pais repassava em sua mente, uma tortura sem fim.

Ele olhou para Isabela, os olhos vermelhos de tanto chorar, cheios de uma dor que ela não podia, ou não queria, entender.

Ela deu de ombros.

"Se você tivesse me contado onde Ric estava, nada disso teria acontecido."

A culpa, sempre dele.

JP cerrou os punhos.

Uma nova sensação começou a crescer dentro dele, por baixo da dor e do desespero.

Uma semente escura.

Raiva.

Ele olhou para as próprias mãos, as mãos de pescador.

Mãos que sabiam dar e tirar a vida do mar.

Agora, ele queria usá-las para outra coisa.

Vingança.

JP esperou a noite.

Isabela dormia, ressonando levemente, como se nada tivesse acontecido.

Ele saiu da casa grande, caminhou pela escuridão até a vila.

As luzes fracas das casas dos pescadores pareciam distantes, de outro mundo.

Ele foi até a pequena farmácia de Mateus Sales.

Dr. Mateus. Amigo de infância.

O único que entendia seu silêncio, que lia seus olhos.

Mateus estava nos fundos, organizando frascos de ervas.

JP entrou, o cheiro de plantas secas enchendo suas narinas.

Ele fez os sinais, as mãos trêmulas, mas firmes.

Preciso. Veneno.

Forte. Sem. Rastro.

Mateus o olhou, os olhos sérios.

Ele não fez perguntas.

Apenas assentiu lentamente.

"Espere aqui, JP."

JP voltou para a casa grande antes do amanhecer.

O pequeno frasco que Mateus lhe dera pesava em seu bolso.

Ele entrou na sala de estar.

E congelou.

Isabela estava lá, sorrindo.

Ao lado dela, Ric Tavares.

Vivo.

Ric tinha um curativo na testa, mancava um pouco.

Parecia assustado, mas também satisfeito.

"JP, meu amor!", Isabela exclamou, correndo para abraçá-lo. "Ric voltou! Ele conseguiu escapar!"

Ric olhou para JP, os olhos cheios de uma falsa piedade.

"Ele... ele me sequestrou, Isa. JP. Ele me bateu, me deixou sem comida."

Isabela se virou para JP, o rosto contorcido de fúria.

"Seu monstro! Como pôde?"

JP ficou parado, o mundo girando.

Tudo era uma mentira.

Os pais dele... mortos por nada.

Isabela empurrou JP.

"Você vai pedir desculpas a Ric. Agora."

JP olhou para Ric, depois para Isabela.

A raiva dentro dele queimava.

Desculpas? Nunca.

Ele balançou a cabeça.

Isabela sorriu, um sorriso gelado.

"Eu sabia que você seria teimoso."

Ela se aproximou, o cheiro do perfume dela enjoativo.

"Então, temos duas opções, meu pescador."

"Ou você se ajoelha e implora o perdão de Ric..."

Ela fez uma pausa, saboreando o momento.

"...ou você vai passar um tempo no nosso velho armazém de salga. Lembra dele, JP? O cheiro de peixe podre que você tanto odeia?"

O trauma de infância.

O bullying.

O cheiro que o fazia vomitar.

Isabela sabia. E usava isso.

A escolha era clara.

Mas JP não se moveria.

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