
O Ódio Dele, Minha Liberdade
Capítulo 3
No meu funeral, Pedro Henrique estava estranhamente calmo.
Ele não chorou. Não demonstrou nenhuma emoção.
Apenas ficou parado ao lado do meu caixão vazio, recebendo os pêsames com uma expressão impassível.
As pessoas cochichavam, comentando sobre sua frieza.
"Ele nunca a amou", diziam uns.
"Que homem cruel", comentavam outros.
Ele ouvia tudo, mas não reagia. Sua vingança estava consumada, e ele parecia satisfeito.
Meu irmão, Marcos, não conseguiu se conter.
Assim que viu Pedro Henrique, ele marchou em sua direção, o rosto vermelho de fúria.
"Seu desgraçado!", Marcos gritou, empurrando-o com força.
Pedro Henrique cambaleou para trás, mas manteve a compostura.
"O que você fez com a minha irmã?", Marcos berrava, agarrando-o pelo colarinho. "Você a matou! Você a destruiu!"
Seguranças intervieram, separando os dois.
Pedro Henrique ajeitou o terno, o mesmo sorriso frio de antes voltando aos seus lábios.
"Sua irmã era fraca", ele disse, a voz cortante. "Ela não aguentou a verdade."
Marcos tentou avançar novamente, mas foi contido. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, uma mistura de dor e raiva.
"Eu vou te destruir, Pedro. Eu juro."
Pedro Henrique apenas deu de ombros. "Tente a sorte."
O momento mais cruel, no entanto, veio depois.
Após a cerimônia, quando a funerária entregou a urna com as minhas cinzas para ele.
Ele a segurou diante de todos.
Meu irmão, meus pais, todos os nossos amigos e familiares estavam lá, observando.
"Ana Paula sempre quis ser o centro das atenções", ele disse em voz alta, para que todos ouvissem. "Então, vamos dar a ela o que ela quer."
Ele abriu a urna.
E então, com um gesto teatral, ele a virou de cabeça para baixo.
Minhas cinzas voaram com o vento, uma nuvem cinzenta que se espalhou pelo cemitério.
Um grito de horror escapou da minha mãe. Marcos urrou de raiva.
As cinzas caíram sobre as pessoas, sobre as flores, sobre a grama.
Pedro Henrique olhou para as mãos vazias e depois para a multidão chocada.
"Agora ela está em toda parte", ele disse com um tom de zombaria. "Exatamente como ela gostaria."
Eu, a alma de Ana Paula, flutuando acima de todos, senti meu coração inexistente se despedaçar.
Eu o amei.
Eu o amei de verdade por dois anos.
Cada gesto, cada palavra, cada momento que eu pensei ser de felicidade, foi tudo uma mentira. Uma farsa cruel.
Ele se virou para o meu irmão.
"E quanto à sua ameaça, Marcos", disse Pedro Henrique, a voz baixa e ameaçadora. "Não se esqueça que a empresa Menezes ainda está nas minhas mãos. Um movimento em falso, e eu a levo à falência em um piscar de olhos. Sua família vai acabar na rua."
Ele se inclinou para perto de Marcos, sussurrando para que só ele ouvisse.
"Eu já destruí a sua irmã. Não me provoque a destruir o resto de vocês."
Ele se afastou, deixando para trás uma família em ruínas e um rastro de minhas cinzas.
Eu observei enquanto o vento carregava os fragmentos de mim.
Um pouco caiu na tigela de comida de um cachorro de rua.
Outro pouco grudou na barra da calça de um coveiro.
Uma parte se prendeu na lapela do terno caro de Pedro Henrique, e ele nem percebeu.
Eu estava sendo espalhada, desfeita, exatamente como ele queria.
Mas eu ainda estava ali. Presa a ele.
Minha alma, por algum motivo, não conseguia se libertar.
Eu estava condenada a segui-lo.
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