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Capa do romance O Noivo Que Roubou Minha Vida

O Noivo Que Roubou Minha Vida

Enganada por Heitor, descobri no noivado que sua família planejava roubar meu rim para Clarice. Fui traída e jogada em uma clínica brutal sob falsas acusações. Ao sair, Heitor me humilhou com minha rival, Kátia, culpando-me até por acidentes que ela causou. No hospital, entre provas forjadas e insultos, ele me descartou como um monstro. Agora, ferida mas desperta, percebo que vivi com carrascos. Livre desse amor tóxico, decidi nunca mais olhar para trás.
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Capítulo 3

Ponto de Vista de Elna:

As palavras de Heitor ecoavam no silêncio estéril do quarto de hospital: *Vazia. Um vácuo.* Eram um ferro em brasa, marcando-se em meu próprio ser. No entanto, uma calma estranha se instalou sobre mim. Ele me via como nada. Se eu era nada, então não tinha nada a perder.

Fechei os olhos e, contra minha vontade, as memórias surgiram. Não dos horrores recentes, mas de um tempo anterior. Um tempo mais suave.

"Elna", Heitor murmurou, seus dedos traçando a linha da minha mandíbula. Estávamos na varanda de sua cobertura, as luzes da cidade brilhando abaixo como diamantes espalhados. "Você é tão linda."

Eu apenas pisquei, confusa com a intensidade de seu olhar. Eu não entendia "linda" da maneira que ele queria dizer. Para mim, era apenas uma palavra. Mas seus olhos, tão quentes, tão cheios de... algo, fizeram meu peito se sentir um pouco menos apertado.

"Eu sempre vou te proteger", ele sussurrou, me puxando para mais perto. "Você é minha, e eu nunca vou deixar ninguém te machucar."

Ele me comprou um delicado medalhão de prata, gravado com minha inicial. "Isto", ele disse, pressionando-o na minha palma, "é um símbolo da minha promessa. Do meu amor. Mantenha-o perto."

Suas palavras, seus gestos, tinham sido tão convincentes. Ele me perseguiu implacavelmente, pacientemente quebrando minha concha protetora, tentando entender minha alexitimia. Ele leu livros, buscou conselhos, sempre dizendo: "Eu quero aprender sua língua, Elna."

Ele uma vez passou uma tarde inteira tentando explicar o sentimento de alegria, desenhando diagramas e fazendo analogias, apenas para ver um lampejo de compreensão em meus olhos. Ele chamava minha natureza quieta de "serena", não de "vazia". Minhas dificuldades emocionais, de "uma perspectiva única", não de "quebrada".

Para onde aquele homem tinha ido? Quando sua paciência se transformou em nojo, sua compreensão em julgamento? Foi Clarice? O rim? Ou sempre esteve lá, à espreita sob a superfície, esperando o momento certo para emergir?

As perguntas giravam na minha cabeça, um carrossel vertiginoso. Fiquei ali a noite toda, incapaz de dormir, juntando os cacos quebrados do nosso passado, tentando encontrar o momento preciso em que as rachaduras começaram a aparecer. Não encontrei nenhuma. Apenas um estilhaçamento súbito e brutal.

Na manhã seguinte, o hospital me deu alta. Voltei para a mansão, uma sensação de pavor se instalando em meus ossos. Eu sabia o que me esperava.

Quando entrei no hall, Heitor e Kátia estavam lá, abraçados. Os braços de Kátia estavam em volta do pescoço dele, a cabeça dela inclinada para trás, um sorriso triunfante no rosto. Heitor a segurava perto, os olhos fechados. Era um quadro íntimo e possessivo.

Então Kátia me viu. Seu sorriso não vacilou. Em vez disso, ela apertou seu abraço em Heitor, pressionando-se ainda mais contra ele. Ela esfregou a bochecha na dele, um gesto deliberado e provocador.

Um rubor estranho e quente se espalhou por mim. Não era a vergonha ardente da festa. Isso era diferente. Uma sensação primal e crua que fez minhas mãos se fecharem. Meu peito ficou apertado, minha respiração superficial. Era... ciúme? A palavra parecia estranha na minha língua, afiada e desconhecida.

"O que você está fazendo?", ouvi-me perguntar, as palavras cortando o ar, surpreendentemente firmes.

Os olhos de Heitor se abriram. Ele se desembaraçou de Kátia, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. Kátia, no entanto, permaneceu no lugar, um sorriso presunçoso brincando em seus lábios.

"Elna, querida", Kátia ronronou, sua voz doce como veneno. "Apenas confortando o Heitor. Ele ficou tão preocupado comigo, sabe, depois daquele terrível incidente com o lustre. E seu... envolvimento infeliz." Ela suspirou teatralmente. "Foi realmente uma experiência traumática, até para mim, apenas por estar ao lado."

Ela fez uma pausa e acrescentou: "Mas é tão bom ver que você está se recuperando. Estávamos todos tão preocupados." As palavras eram um ramo de oliveira coberto de espinhos.

"Elna", disse Heitor, sua voz afiada, cortando a simpatia fingida de Kátia. "Você precisa sempre causar uma cena? Kátia ainda está se recuperando. Ela não precisa do seu... drama."

Meu maxilar se contraiu. "Drama? Eu não estou causando nada. Acabei de entrar."

"E sua própria presença parece perturbá-la", ele retrucou, olhando para Kátia, que sutilmente se encolheu e agarrou o braço. "Estou avisando as duas. Não vou tolerar mais brigas. Esta é a minha casa. Vocês duas vão se comportar."

Ele se virou para mim, sua voz endurecendo. "Agora, peça desculpas a Kátia por seu comportamento na festa e por perturbá-la agora mesmo."

Minha respiração engatou. Pedir desculpas? Por ser incriminada? Por ser humilhada? A raiva explodiu, quente e afiada. "Eu não vou me desculpar. Não fiz nada de errado."

Os olhos de Heitor se estreitaram. Ele deu um passo em minha direção, depois parou. Seu olhar caiu sobre a pequena fotografia emoldurada na mesa lateral. Era uma foto minha, sorrindo levemente, segurando o medalhão de prata que ele me dera. O medalhão que ainda estava em volta do meu pescoço.

Ele estendeu a mão, o dedo traçando a prata. Uma ameaça sutil. Ele sabia o quanto aquele medalhão significava para mim. Era a única lembrança física de sua promessa, de um tempo em que ele afirmava me amar.

A raiva se esvaiu de mim, substituída por um medo frio e entorpecente. Ele o pegaria. Ele o destruiria. Ele apagaria todo e qualquer vestígio de nossa história compartilhada.

"Eu... sinto muito", engasguei, as palavras com gosto de cinzas. "Peço desculpas, Kátia."

O sorriso de Kátia se alargou, um flash triunfante de dentes brancos. "Oh, Elna, está tudo bem", disse ela, sua voz pingando falsa magnanimidade. "Eu entendo que você passou por muita coisa. Eu te perdoo. De verdade." Ela se virou para Heitor, piscando os cílios. "Viu, Heitor? Ela não é tão má. Apenas um pouco... equivocada."

"Agora que isso está resolvido", continuou Kátia, sua voz ganhando um tom mais firme, "Heitor, querido, estou me sentindo um pouco fraca. O choque, sabe. Você poderia talvez me levar às compras? Preciso de uma distração. Algo bonito para levantar meu ânimo." Ela se inclinou para ele, seu olhar deslizando para mim, um desafio silencioso.

Heitor hesitou por uma fração de segundo. "Claro, meu bem." Ele pegou a carteira. "Aqui, pegue este cartão. Compre o que precisar. Qualquer coisa para te fazer sentir melhor." Ele entregou a ela um cartão black. "Elna, você acompanhará Kátia. Ajude-a. Certifique-se de que ela tenha tudo o que deseja."

Meu sangue gelou. Acompanhá-la? Servi-la? A humilhação era infinita.

Lembrei-me de um tempo, não muito tempo atrás, em que Heitor pedia minha opinião, respeitava minhas escolhas. *"O que você quer, Elna? Sua felicidade é tudo o que importa."* Suas palavras, antes cheias de tanto calor, agora pareciam uma zombaria cruel. Ele estava me forçando. Reduzindo-me a um papel subserviente.

"Bem, Elna? Vai ficar aí parada o dia todo?", a voz de Heitor era afiada, impaciente. "Kátia está esperando."

Suspirei, um som profundo e cansado que parecia vir das profundezas da minha alma. "Sim, Heitor", murmurei, minha voz desprovida de emoção. "Claro."

Enquanto caminhávamos em direção ao carro, Kátia ainda agarrada possessivamente ao braço de Heitor, observei a interação deles. Kátia estava rindo, a cabeça jogada para trás, a mão apoiada no peito de Heitor. Ele olhou para ela, um sorriso suave no rosto. Meu peito se apertou novamente, aquela sensação desconhecida e ardente retornando.

"Sabe, Heitor", Kátia ronronou, alto o suficiente para eu ouvir. "Prefiro sentar ao seu lado no carro. Elna pode ir no banco de trás. Ela é tão quieta, não vai se importar."

Heitor riu, dando um aperto no ombro dela. "O que você quiser, minha querida." Ele olhou para mim, seu sorriso desaparecendo. "Elna, você entende, não é? Kátia ainda está frágil. Ela precisa de conforto."

*"Ela está sempre tão frágil, não é?"*, pensei, um gosto amargo na boca. Meus lábios, no entanto, permaneceram fechados.

"Além disso", continuou Heitor, seus olhos endurecendo, "você não costuma expressar muito, não é? Kátia, por outro lado, é tão cheia de vida, de emoção. É uma alegria estar perto dela." Ele fez uma pausa, um brilho cruel em seus olhos. "Você realmente deveria tentar ser mais como ela, Elna. Aprender a... sentir."

Kátia deu uma risadinha, um som triunfante e zombeteiro.

Senti uma onda de algo quente e afiado, uma dor tão intensa que fez minha visão embaçar. Sentir? Eu queria gritar. Queria dizer a ele que estava sentindo mais do que ele jamais poderia imaginar. Que suas palavras estavam me despedaçando, pedaço por pedaço agonizante. Mas as palavras não saíam. Elas nunca saíam. Minhas emoções eram uma bagunça emaranhada e silenciosa dentro de mim.

O Heitor que pacientemente tentou me ensinar a sentir, agora zombava da minha incapacidade de fazê-lo. A ironia era uma pílula amarga. Deslizei para o banco de trás, o medalhão em volta do meu pescoço parecendo mais pesado que uma pedra.

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