
O Noivo Que Ele Subestimou Demais
Capítulo 3
O mundo girava ao meu redor, um caleidoscópio vertiginoso de dor e traição. Meu braço latejava, um lembrete constante do acidente quase fatal, mas a verdadeira agonia era uma ferida mais profunda e fria. Eu tinha que fugir. Longe de Leo, longe de Jade, longe do peso esmagador da traição deles.
"Laura!" A voz de Leo cortou a névoa, urgente e desesperada. Ele estava atrás de mim, sua mão buscando meu braço ileso.
Mas antes que ele pudesse me tocar, Jade soltou um pequeno grito sufocado. "Leo! Minha cabeça... dói." Ela balançou, seus olhos tremulando.
A mão de Leo caiu, sua atenção instantaneamente desviada. "Jade! O que há de errado?" Ele a pegou nos braços, seu rosto marcado pela preocupação. "Alguém chame uma ambulância!"
Eu assisti, um nó frio e duro se formando no meu peito. Ele a escolheu, de novo. Sempre ela. Meus ferimentos, minha quase morte, não significavam nada comparados à sua delicada fragilidade. Era um padrão familiar, um eco cruel de suas palavras: "Ela é pura, sabe?"
Sérgio estava ao meu lado, me apoiando enquanto eu mancava em direção ao seu carro que esperava. "Apenas me tire daqui", murmurei, minha voz rouca. Não olhei para trás. Não conseguia.
A sala de emergência era um borrão branco e estéril, cheio de vozes sussurradas e o bipe rítmico das máquinas. Meu braço foi engessado, meu ferimento na cabeça suturado. Recusei analgésicos. Eu queria sentir tudo, cada latejar agonizante, cada pontada afiada. Era uma punição merecida.
Através do vidro da sala de observação, observei Leo andar de um lado para o outro, seu rosto uma máscara de preocupação. Jade estava na cama, parecendo pálida e frágil, sua mão agarrada à dele. Ele murmurava palavras de consolo, acariciando seu cabelo. A imagem da devoção.
Meu estômago se revirou. Este não era o homem com quem eu construí um império, o homem que me via como igual, como parceira. Ele era um tolo apaixonado, completamente cativado por uma mentira.
Assinei meus papéis de alta, meu nome um rabisco de desafio. Quando me virei para sair, Leo me viu. Seus olhos se arregalaram, um lampejo de alívio, depois preocupação.
"Laura! Você está acordada! Você está bem? Eu... eu estava tão preocupado." Ele começou a vir em minha direção, sua mão se estendendo.
"Não", eu disse, minha voz plana. Não vacilei, não me movi. "Não temos mais nada a dizer."
"Mas... a Jade, ela está..." ele começou, sua voz sumindo.
"Ela é problema seu agora", completei por ele, meu olhar mais frio que os ventos de inverno. "Fique com ela. E boa sorte."
Virei-me, Sérgio me guiando. Leo tentou seguir, mas uma enfermeira o parou gentilmente, lembrando-o da condição delicada de Jade. Seus olhos, cheios de um apelo desesperado, encontraram os meus por um momento final e agonizante. Não lhe dei nada. Apenas um olhar vazio, um reflexo estilhaçado da mulher que ele havia quebrado.
Saí do hospital, o ar fresco da noite mordendo minha pele. Sérgio me levou para minha cobertura, mas eu não conseguia ficar lá. Parecia grande demais, vazia demais, cheia de fantasmas demais. Eu o direcionei para o antigo prédio de apartamentos na periferia do centro, aquele que Leo e Jade haviam reivindicado.
A fachada de tijolos desbotados parecia ainda mais desolada ao luar. Entrei com a chave reserva que ainda carregava, uma relíquia de uma vida diferente. O ar lá dentro estava pesado com o cheiro de tinta barata e fumaça de cigarro velha. Eles haviam tentado nos apagar, pintar sobre nossas memórias.
Um brilho de luz chamou minha atenção. Uma pequena foto emoldurada. Éramos nós, jovens e imprudentes, rindo na escada de incêndio, nossos braços um ao redor do outro. Peguei-a, meus dedos traçando o contorno de seu rosto.
"Laura?" Uma voz me assustou. Era Dona Rosa, a síndica do prédio, seu rosto gentil marcado pela preocupação. "Não te vejo por aqui há séculos. O Leo... ele me disse que você não viria mais." Seus olhos se suavizaram. "Está tudo bem, querida?"
Forcei um sorriso frágil. "Está tudo ótimo, Dona Rosa." Meu olhar caiu para a data rabiscada no verso da foto: 26 de outubro. Nosso aniversário. Quinze anos. Hoje.
Quinze anos, pensei, uma risada amarga borbulhando na minha garganta. E ele esqueceu. Ou talvez, ele simplesmente não se importou.
"Eu só vim... pegar algumas coisas", menti, a foto ainda em minha mão. Eu precisava sair. Antes que sua "musa" voltasse.
Como se fosse um sinal, a porta rangeu ao abrir. Jade estava lá, parecendo surpreendentemente vibrante para alguém que acabara de estar na emergência, seus olhos se estreitando ao ver a foto em minha mão. "O que você está fazendo aqui?", ela exigiu, sua voz perdendo o tom inocente. "Esta é a nossa casa agora."
"Nossa casa?", repeti, um sorriso cínico brincando em meus lábios. "Engraçado, parece que me lembro de construir este lugar do zero com outra pessoa." Inclinei-me, minha voz caindo para um sussurro baixo e perigoso. "Você deveria ter cuidado, garotinha. Algumas fundações são construídas em rocha sólida. Outras", gesticulei ao redor do apartamento descascado, "são construídas em areia movediça. E quando desmoronam, levam tudo junto."
Seu rosto corou, seus olhos ardendo com uma fúria súbita e inesperada. "Você se acha tão esperta, não é? Acha que pode simplesmente entrar aqui e arruinar tudo? O Leo me escolheu! Ele me ama! Ele quer começar uma família comigo, uma família de verdade, não uma parceria fria e calculista como a sua!" Ela agarrou o estômago novamente, um gesto calculado. "Ele quer um bebê, Laura. Meu bebê."
As palavras me atingiram como um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Um bebê. Nosso sonho. Um sobre o qual havíamos falado em sussurros, planejado para um futuro que agora parecia impossivelmente distante. Ele havia me prometido uma família, um legado. E agora... com ela.
Minha mente girou, uma torrente de memórias inundando meu cérebro. Os tratamentos de fertilidade, as inúmeras consultas médicas, as lágrimas silenciosas que chorei no banheiro quando me disseram que talvez nunca acontecesse. Leo me abraçou então, me confortou, prometeu que não importava, nós éramos o suficiente. Mentiras. Tudo mentiras.
Uma risada fria e oca me escapou. "Um bebê?", repeti, a palavra com gosto de cinzas. "Que... conveniente."
Os olhos de Jade piscaram, um toque de algo calculista em suas profundezas. "Ele me ama", ela insistiu, sua voz tremendo, mas a convicção se foi. "Ele ama nosso bebê."
Olhei para ela, para a mentira brilhando em seus olhos inocentes, e depois para a foto de Leo e eu, jovens e cheios de esperança. O contraste era gritante, brutal. A dor era tão profunda que quase parecia paz. Despiu toda pretensão, toda esperança, todo afeto remanescente. Não restava nada além de uma raiva gélida e ardente.
"Fique com seu bebê, Jade", eu disse, minha voz pouco mais que um sussurro, mas infundida com uma ameaça inconfundível. "E fique com ele. Porque a partir deste momento, vocês dois estão mortos para mim."
Joguei a moldura da foto no chão de madeira gasta, deixando-a se estilhaçar. Os cacos de vidro refletiam o rosto aterrorizado de Jade, um espelho adequado para a ruína que ela havia causado. Virei-me, saindo do apartamento, daquele prédio e daquela vida. Não olhei para trás. A chuva começou a cair, fria e implacável, espelhando a tempestade que rugia dentro de mim. Eu estava farta.
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