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Capa do romance O Naufrágio da Minha Alma

O Naufrágio da Minha Alma

Após Duarte Moreno morrer para salvá-la, Leonor renasce buscando redenção. Contudo, nesta vida, ele é um carrasco cruel que busca vingança. Duarte submete Leonor a humilhações extremas, como ferir seus dedos e forçar sua mãe doente a cirurgias para beneficiar sua amante, Sofia. Acusada injustamente de ferir o avô dele, Leonor decide que a única saída é o fim. Com um disfarce, ela planeja sua morte em um naufrágio para escapar do homem que jurou amá-la.
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Capítulo 2

A adega da quinta dos Moreno no Douro era fria e húmida, o cheiro a mofo e a terra molhada entrava-me pelas narinas.

A porta de madeira pesada fechou-se com um baque surdo, mergulhando-me na escuridão.

Lá fora, ouvi a voz fria e sem emoção do meu marido, Duarte Moreno.

"Tranquem-na. Não a deixem sair até a doação estar concluída."

Os seus homens obedeceram sem uma palavra. A chave girou na fechadura, um som metálico e final.

Bati na porta com os punhos, a minha voz a ecoar no espaço vazio.

"Duarte! Não podes fazer isto! É a minha mãe!"

Nenhum som me respondeu, apenas o silêncio pesado da adega.

A amante dele, Sofia Neves, uma artista de Lisboa, precisava de um transplante de medula óssea. Um dador raro. E a única compatível era a minha mãe.

A minha mãe, que já tinha uma saúde frágil.

Eu opus-me. Gritei. Implorei.

E esta foi a resposta dele.

Encostei-me à porta, o frio da madeira a atravessar a minha roupa, e deslizei até ao chão. O meu corpo tremia, não só de frio, mas de uma raiva e desespero que me consumiam.

Como é que o homem que, noutra vida, deu tudo por mim, se podia ter tornado neste monstro?

O frio intenso da adega começou a infiltrar-se nos meus ossos, e com ele, as memórias vieram em catadupa, nítidas e dolorosas.

Não eram sonhos. Eram a minha vida. A minha vida anterior.

Lembrei-me de como desprezava Duarte, do nosso casamento arranjado para salvar a empresa têxtil da minha família, uma empresa histórica, mas à beira da falência.

Eu estava apaixonada por Tiago, o meu amigo de infância, cuja família era rival dos Moreno na produção de vinho.

Ele sussurrava-me promessas de amor e liberdade, enquanto, às escondidas, planeava a minha ruína e a dos Moreno.

A memória do sequestro atingiu-me como um soco. Fui raptada por ordem de Tiago. Ele queria o controlo das vinhas dos Moreno.

E Duarte... o meu nobre e tolo Duarte... pagou o resgate.

Para me salvar, ele vendeu uma a uma as vinhas mais preciosas da sua família, terras que lhes pertenciam há séculos, o coração do seu império de Vinho do Porto. Ele sacrificou o seu legado por mim.

E eu? Quando fui libertada, acusei-o. Disse-lhe que ele tinha destruído a sua família por nada, que eu nunca o amaria.

A memória seguinte era de fogo. Tiago, num ato final de desespero e maldade, incendiou a nossa casa.

Eu estava presa nos escombros, a fumaça a encher os meus pulmões. E Duarte correu para dentro. Ele não tentou escapar. Ele veio ter comigo.

Abraçou o meu corpo inerte, e as suas últimas palavras ecoaram na minha mente, tão claras como se tivessem sido ditas há um segundo.

"Leonor... mesmo que morras... morrerei contigo."

Ele morreu a abraçar-me, o seu corpo a proteger-me das chamas que nos consumiram a ambos.

E depois... eu renasci.

Acordei no dia do meu casamento com Duarte, nesta nova vida. Com a memória do seu sacrifício a queimar-me a alma, o meu único desejo era amá-lo. Compensá-lo por tudo.

Mas o homem que encontrei não era o meu Duarte.

Este Duarte era frio, distante, cruel. E agora, ao trancar-me nesta adega, ao forçar a minha mãe a uma cirurgia perigosa por causa da sua amante... a verdade atingiu-me com a força de uma revelação divina e terrível.

Ele também se lembrava.

Ele também tinha renascido.

A sua crueldade não era indiferença. Era vingança. Um teste monstruoso para ver se o meu arrependimento era real.

Sentei-me no chão frio da adega, e pela primeira vez nesta nova vida, não chorei por mim. Chorei por ele. Pela dor que ele devia estar a carregar para me tratar desta forma.

A porta abriu-se horas depois. Um dos homens de Duarte olhou para mim sem expressão.

"A doação foi concluída. O senhor Moreno disse que pode sair."

Levantei-me, as minhas pernas dormentes. Subi as escadas e fui direta ao hospital. A minha mãe estava pálida na cama, mas estável. Os meus pais olharam para mim, os seus rostos uma máscara de culpa e impotência.

"Filha..." começou o meu pai.

"Eu estou bem," menti. "Vou resolver isto."

Voltei para a quinta. Duarte estava no escritório, a olhar pela janela para as vinhas. Sofia não estava à vista.

Ele virou-se quando entrei. O seu rosto era uma escultura de indiferença.

"A tua mãe está bem," disse ele, a sua voz desprovida de qualquer calor. "A dívida da tua família está um pouco mais perto de ser paga."

A frieza dele era uma parede de gelo. Mas agora eu via as fissuras. Eu via a dor por trás dela.

"Duarte," comecei, a minha voz a tremer. "Nós precisamos de falar."

"Não temos nada para falar," cortou ele. "Apenas cumpre o teu papel como minha mulher. É o mínimo que podes fazer."

Aproximei-me dele. Precisava de uma confirmação. Uma prova.

Lembrei-me de um pequeno detalhe da nossa vida passada. Algo que só ele podia saber.

"Outro dia, na festa, serviram camarão. Tu trocaste o meu prato. Disseste que o chefe se tinha enganado no pedido."

Ele não reagiu.

"Eu só descobri a minha alergia a marisco no nosso segundo ano de casados, na vida passada. Como é que sabias, Duarte?"

Ele olhou para mim, e por um segundo, vi um vislumbre de algo nos seus olhos. Dor. Mas desapareceu tão depressa como apareceu.

Ele forçou um sorriso trocista.

"A tua mãe mencionou-o uma vez, há muito tempo. Tenho boa memória para detalhes inúteis."

Era uma desculpa plausível. Mas era uma mentira. Eu sabia.

A minha última réstia de esperança vacilou. Se ele ia continuar a negar, a torturar-me assim, talvez não houvesse redenção para nós.

Fui ao meu quarto e peguei nos papéis do divórcio que um advogado tinha preparado para mim há semanas, num momento de desespero. Eu não os queria usar, mas agora...

Voltei ao escritório. Ele estava a falar ao telefone, a sua voz subitamente mais suave.

"Sim, Sofia... estou a ir. Descansa."

Ele desligou e olhou para mim, a sua máscara de frieza de volta no lugar.

Estendi-lhe os papéis e uma caneta.

"O que é isto?" perguntou ele.

"Divórcio," disse eu, a palavra a arranhar a minha garganta.

Ele pegou nos papéis. Nem sequer olhou para eles. O seu olhar estava fixo em mim, frio e calculista. Enquanto isso, a sua outra mão pegou numa escova de prata da secretária e começou a passar por um lenço de seda que pertencia a Sofia, como se estivesse a pentear o cabelo dela.

O gesto era tão íntimo, tão desdenhoso para comigo, que me roubou o ar.

Ele assinou o seu nome com um floreado rápido e atirou os papéis para cima da secretária.

"Estás livre, Leonor. Assim que o período de reflexão legal terminar."

Ele virou-me as costas e saiu da sala, deixando-me ali, com o coração partido e uma certeza terrível.

Esta guerra estava apenas a começar.

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