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Capa do romance O Monstro que Criaram

O Monstro que Criaram

Ana Paula sempre viveu sob a sombra de Sofia, a irmã preferida que lhe roubou tudo, inclusive Pedro. Após ser empurrada da escada pela própria mãe e morrer no dia do casamento de Sofia com Marcelo, Ana desperta milagrosamente no passado. Com memórias intactas e sede de justiça, ela decide usar os segredos sujos da família para destruir quem a humilhou. O jogo virou: a filha submissa morreu, dando lugar a um monstro focado em vingança absoluta.
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Capítulo 3

O momento em que eu renasci foi absolutamente banal.

Eu estava no meu antigo quarto, olhando para um vestido bege sem graça que minha mãe queria que eu usasse para um jantar de negócios. Na minha primeira vida, eu odiei aquele vestido. Ele me fazia parecer apagada, invisível.

Naquele momento, uma dor de cabeça lancinante me atingiu, e a cena da minha própria morte passou diante dos meus olhos como um filme. A queda, a dor, o rosto da minha mãe e de Sofia. Quando a tontura passou, eu estava de volta, no mesmo lugar, com o mesmo vestido na minha frente.

O cheiro de naftalina do guarda-roupa, o barulho sutil do ar-condicionado, tudo era real. Eu toquei meu rosto, meu pescoço. Não havia sangue, não havia ferida. Eu estava viva. Eu estava de volta.

Agora, sentada na sala de jantar, a cena era quase idêntica a tantas outras da minha vida passada. Minha mãe, Isabel, falava ao telefone, gesticulando com suas mãos cheias de anéis caros. Sofia estava ao seu lado, lixando as unhas, entediada.

"Sim, querido, claro. A família toda está ansiosa para conhecê-lo. Sim, o Marcelo. Um rapaz de ouro."

Marcelo.

O nome atingiu meus ouvidos e meu estômago revirou. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Senti um suor frio na nuca e minhas mãos começaram a tremer. Era ele. O empresário rico que minha mãe originalmente queria para Sofia, mas que acabou sendo empurrado para mim, antes de Sofia o roubar de volta. O pivô da briga que me levou à morte.

Eu abaixei a cabeça, fingindo olhar para o meu prato, tentando controlar a minha respiração. Vê-las ali, vivas, agindo como se nada tivesse acontecido – porque para elas, nada ainda tinha acontecido – era uma tortura. O ódio borbulhava dentro de mim, tão forte que eu tinha medo que transbordasse.

"Ana Paula, você está me ouvindo?"

A voz da minha mãe me trouxe de volta à realidade.

"Estou."

"Marcelo virá jantar aqui na sexta-feira. E eu quero que você seja simpática. Sofia não está interessada, então talvez você tenha uma chance." O desprezo na voz dela era palpável. Era como se ela estivesse me oferecendo as sobras.

Na minha primeira vida, eu fiquei animada. Uma chance? Uma chance de finalmente agradar minha mãe? De ter algo que não fosse um resto de Sofia?

Que idiota eu fui.

Forcei um pequeno sorriso e olhei para a minha mãe.

"Claro, mãe. Vou ser muito simpática."

Sofia bufou, sem tirar os olhos das unhas.

"Até parece. O Marcelo é um gato, rico, bem-sucedido. O que ele iria querer com a Ana?"

Minha mãe não a repreendeu. Ela apenas deu um sorrisinho de concordância. Era essa a dinâmica delas. Uma aliança construída sobre a minha desvalorização.

"Bem, nunca se sabe," disse minha mãe, com falsa generosidade. "Pelo menos tente, Ana Paula. Use uma maquiagem, arrume esse cabelo. Tente parecer menos... você."

Eu não respondi. Apenas continuei comendo em silêncio. Mas minha mente estava a mil por hora.

Mais tarde naquela noite, eu estava passando pelo corredor e ouvi vozes vindo do quarto de Sofia. A porta estava entreaberta. Era ela, conversando com Pedro no telefone.

"...não, amor, ela não sabe de nada. Ela é muito burra pra perceber," Sofia dizia, com uma risadinha. "A gente se encontra amanhã no mesmo lugar... Sim, eu sei que terminei com você semana passada, mas foi só pra fazer um charme. Você sabe que eu não resisto a você."

Uma pausa.

"Não se preocupa com a doença, a médica me deu uns cremes. Já está melhorando. Foi só um susto. Agora, me fala o que você vai fazer comigo amanhã..."

Senti o gosto amargo da bile na minha boca. Então, a traição com Pedro não era algo recente. Era um caso antigo, que acontecia pelas minhas costas, mesmo quando eu ainda estava com ele. E a doença que ela pegou dele, ela estava tratando em segredo, mentindo para a nossa mãe e, claro, para mim.

Eu me afastei da porta em silêncio, meu coração martelando com uma nova camada de raiva. Eu tinha sido mais cega do que imaginava.

Voltei para o meu quarto e me sentei na escuridão. A vingança não era mais apenas uma ideia. Era uma necessidade. Era a única coisa que poderia me fazer seguir em frente.

Eu não iria apenas expor a vida promíscua de Sofia. Isso era pouco. Eu iria desenterrar cada um de seus segredos sujos. Iria usar a obsessão da minha mãe por status contra elas.

Sofia queria o Marcelo? Ela o teria. Mas ela o teria do meu jeito. E no final, ela não teria nada.

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