
O Monstro Por Trás da Máscara Dele
Capítulo 3
Helena Santiago POV:
Ricardo rugiu, um som de fúria crua e pura que vibrou pela sala.
"Você bateu nela? Você bateu numa mulher grávida, Helena?" Ele me empurrou para trás, suas mãos tremendo de raiva. Seus olhos, geralmente tão calculistas, estavam selvagens, cheios de ódio. Eu tropecei, me segurando na beirada da mesa de centro. A dor no meu pulso, depois nas minhas pernas, era uma dor surda comparada à picada aguda de sua traição.
Ele imediatamente se virou para Beatriz, sua postura se suavizando. "Beatriz, querida, você está bem? Oh, Deus, sua bochecha." Ele segurou o rosto dela em suas mãos, seus polegares roçando suavemente a marca vermelha que eu havia deixado. Sua preocupação por ela era nauseantemente genuína.
Beatriz, sempre a atriz, desabou em lágrimas de verdade desta vez. "Ela... ela simplesmente enlouqueceu, Ricardo. Eu só estava tentando me desculpar, fazer as pazes por sua causa. E ela me atacou. Não sei o que fiz de errado." Ela enterrou o rosto no ombro dele, seus soluços sacudindo seu corpo esguio. "Eu só queria que todos ficassem felizes."
Ricardo a puxou para um abraço apertado, me fuzilando com o olhar por cima da cabeça dela. O olhar em seus olhos era um que eu nunca tinha visto dirigido a mim antes: nojo absoluto e venenoso.
"Peça desculpas a ela, Helena", ele ordenou, sua voz baixa e perigosa. "Agora."
Eu o encarei, meu sangue gelando, depois fervendo. "Pedir desculpas? Por expor as mentiras dela? Por me defender da calúnia dela? Ela mereceu. Cada pedacinho ardido."
Ele recuou, seu rosto se contorcendo. "Você está doente, Helena. Verdadeiramente doente." Ele soltou Beatriz, dando um passo em minha direção. "O que deu em você? Essa não é você. Esta é uma mulher desequilibrada e rancorosa."
Então, incrivelmente, ele levantou a própria mão e se esbofeteou, com força, no rosto. O estalo agudo ecoou no silêncio atordoado. Meus pais ofegaram. Eleonora e Roberto encararam, horrorizados.
"Pronto", Ricardo engasgou, sua voz grossa de autodepreciação, ou talvez, astúcia. "Eu me machuquei, Helena. Está satisfeita? Vai parar com essa loucura agora? Por favor, querida, pare. Não sei o que está acontecendo com você, mas vou te conseguir ajuda. Podemos fazer terapia, fazer você voltar a tomar seus remédios. Apenas... por favor, pare de nos punir. Pare de me punir."
Ele olhou para mim, seus olhos suplicantes, cheios de lágrimas. "Eu te amo, Helena. Juro, eu amo. Seja lá o que for isso, podemos consertar. Vou mandar a Beatriz embora. Farei qualquer coisa. Apenas, por favor, não me deixe. Não jogue fora tudo o que construímos." Seu desespero era palpável, mas parecia uma atuação. Uma atuação desesperada e manipuladora.
"Não", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas que soou como um rugido. "Não, Ricardo. Eu cansei. Estou total e irrevogavelmente cansada." Olhei para ele, meu olhar inabalável. "Eu não te amo. Eu te odeio. Sinto-me sufocada por suas mentiras, por seu controle, por sua própria presença. Não consigo respirar no mesmo cômodo que você."
Meus pais olharam para mim horrorizados, seus rostos pálidos. Eleonora e Roberto trocaram olhares chocados. Seu filho perfeito, humilhado. Sua vida perfeita, estilhaçada.
Eleonora, com o rosto uma máscara de fúria aristocrática, agarrou o braço de Roberto. "Roberto, estamos de saída. Não posso tolerar essa demonstração de... vulgaridade. Ricardo, resolva isso. Discutiremos isso mais tarde." Ela me lançou um olhar de puro desprezo. "Você vai se arrepender disso, Helena. Vai ficar sem nada, só com seu rancor." Com isso, ela saiu, com Roberto a seguindo, sua expressão sombria.
Meus próprios pais ficaram para trás, seus rostos marcados pela decepção. "Helena", minha mãe sussurrou, sua voz carregada de desespero. "Você foi longe demais. Você vai ficar completamente sozinha. Vai se arrepender disso, pode escrever."
Meu pai apenas balançou a cabeça, seus ombros caídos. "Que pena. Que desperdício." Eles também saíram, seus passos pesados, me deixando sozinha com Ricardo e sua amante.
Eles não entendem. Eu não queria a pena deles. Eu não queria a proteção deles. Eu só queria liberdade. Liberdade das mentiras, da pretensão sufocante de uma vida perfeita que foi construída sobre meu corpo quebrado e seus votos quebrados.
Eu sabia, com uma certeza arrepiante, que isso seria uma guerra. E eu precisava estar preparada.
Mais tarde naquele dia, depois de convencer Ricardo a sair, usando a ameaça de uma medida protetiva, me retirei para o meu escritório. O zumbido silencioso do computador era um bálsamo para meus nervos em frangalhos. Eu passei os últimos dias, desde a descoberta da presença de Beatriz, instalando secretamente pequenas câmeras em locais discretos pela casa e, mais importante, no escritório de Ricardo em casa, onde ele pensava que seus arquivos estavam seguros.
Eu também havia contatado um detetive particular, um ex-colega do meu escritório de arquitetura que havia se tornado consultor de segurança. Ele era discreto, eficiente e me devia um favor. Ele vinha investigando silenciosamente as finanças de Ricardo, os registros de sua empresa e, o mais importante, seus movimentos.
A tela do laptop brilhava, exibindo uma pasta marcada como "Evidências". Dentro havia fotos, capturas de tela de transferências bancárias e dados de localização. O detetive particular era minucioso. Meus dedos voaram pelo teclado, organizando, cruzando informações. Esta era minha nova arquitetura. Construindo um caso.
De repente, a porta rangeu ao se abrir. Eu pulei, fechando o laptop com força, meu coração martelando contra minhas costelas. Ricardo estava lá, seus olhos vermelhos, seu rosto pálido.
"O que você está fazendo?", ele perguntou, sua voz áspera.
"Não é da sua conta", respondi, minha voz mais afiada do que eu pretendia. Tentei parecer calma, mas minhas mãos tremiam.
Ele entrou mais no cômodo, seu olhar varrendo os livros, as plantas antigas, os esboços de design. Ele parou perto da minha prancheta, onde uma renderização inacabada de um novo parque da cidade estava sob uma folha protetora.
"Por que você está fazendo isso, Helena?", ele perguntou, sua voz mais suave agora, quase suplicante. "Por que está tentando me destruir? Nossa vida?" Ele se virou para mim, seus olhos cheios de uma tristeza familiar que costumava torcer meu estômago de culpa. "É porque você não pode ter filhos? É por isso que está tão zangada?"
As palavras foram como um tapa físico. Sempre eram. Ele conhecia minha ferida mais profunda e a usava como uma arma.
"Foi por isso que você fez isso, Ricardo?", contrapus, minha voz tensa de raiva contida. "Porque eu não posso te dar um filho? Diga-me, Ricardo, como exatamente isso aconteceu de novo? Minha infertilidade. Me lembre."
Ele se encolheu, seus olhos caindo para o chão. A memória do acidente, a pista preta, suas insistências para que eu fosse mais rápido, mais ousada, apesar dos meus apelos por cautela. O som nauseante da neve se compactando, a dor lancinante, os longos e intermináveis meses de recuperação. Os rostos sombrios dos médicos, nos dizendo que os ferimentos internos eram graves demais, que eu nunca carregaria um filho.
Ele murmurou algo ininteligível. Sua culpa, geralmente enterrada sob camadas de charme e autopiedade, emergiu por um momento fugaz.
Nesse momento, meu laptop, que eu apenas fechei, não bloqueei, emitiu um ping suave. Uma notificação. Tarde demais.
A cabeça de Ricardo se ergueu. Seus olhos, rápidos e predatórios, fixaram-se na tela. O pequeno ícone brilhante indicava um novo arquivo de áudio.
Ele se moveu mais rápido do que eu esperava, avançando para o laptop. Eu o empurrei, mas ele era mais forte, alimentado pelo pânico. Seus dedos desajeitados mexeram no trackpad, clicando na notificação.
A sala se encheu de som. Não qualquer som, mas a voz dele. Baixa, íntima, carregada de desejo.
"Não, querida, não conte para a Helena. Ela é muito frágil. E além disso, ela não entenderia. Ela simplesmente... não é como você. Você é tão viva, tão selvagem. Ela está acabada, Beatriz. Depois do acidente, ela simplesmente... se tornou uma pessoa diferente. Não a mulher por quem me apaixonei."
Então, a voz de Beatriz, rouca e satisfeita. "E você ainda a ama, Ricardo? Sério? Porque seus beijos contam uma história diferente."
A voz de Ricardo novamente, uma risada baixa. "Ela não chega aos seus pés, meu amor. Nem de perto. Ela simplesmente não me excita mais. Ela é um fardo. Mas você... você é minha fuga. Minha adrenalina. Meu futuro."
As palavras pairaram no ar, um testemunho grotesco de sua traição. Cada sílaba era um golpe de martelo no meu coração, no meu próprio ser. Ele me chamou de acabada. Um fardo. Não a mulher por quem ele se apaixonou.
Ricardo congelou, seu rosto pálido, a cor sumindo como se ele tivesse acabado de ver um fantasma. A gravação continuou, sua voz, tão íntima, tão amorosa, para outra mulher. A mulher que estava esperando seu filho. Era uma sinfonia viciosa e brutal de mentiras.
Ele tentou fechar o laptop, seus dedos tremendo, mas eu fui mais rápida. Eu o arranquei dele, puxando-o para perto do meu peito.
"Um fardo, sou eu?", sussurrei, minha voz desprovida de emoção, um eco frio e vazio na sala. "Acabada? Não a mulher por quem você se apaixonou?" Olhei para ele, realmente olhei para ele, e vi o monstro sob a fachada encantadora. "Você é verdadeiramente uma obra de arte, Ricardo Ferraz. Uma obra-prima do engano."
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