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Capa do romance O Milagre do Alfa

O Milagre do Alfa

Dérik assume a liderança de um clã à beira da extinção pela escassez de Lunas. Aos trinta anos, a morte prematura de sua alma gêmea torna seu coração frio e impiedoso. Desesperado por um herdeiro, ele coroa uma guerreira e induz seu cio artificialmente. Três anos depois, uma loba fugitiva invade suas terras buscando exílio para evitar um casamento forçado. Dérik não esperava que ela fosse seu milagre, mas seu segredo sombrio pode destruir essa última chance de amor.
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Capítulo 2

— E como era esse lugar? — Nadja perguntou com os olhos brilhantes.

— Era bonito, cercado por árvores. Tinha uma grande fogueira no centro e nos sentávamos em torno dela. Eu ainda posso sentir o calor que vinha das chamas. Minha avó contava como conheceu o meu avô, a conexão que tinham um com o outro. Ela me prometeu que um dia eu conheceria o meu companheiro, pois, ainda que demorasse, a deusa nos aproximaria. — Rebeca disse com o semblante cansado.

Aquelas palavras eram ditas quase todas as noites, mas Nadja parecia não se cansar de ouvir sobre o mundo que já tinha esquecido.

— Acredita nisso? Que temos companheiros e que eles vão nos encontrar um dia?

Ela estava sentada no chão, suas mãos segurando as grades de metal que separava suas celas. Rebeca estava deitada, de costas para ela, olhos fechados, prestes a pegar no sono.

Rebeca pousou a mão no ventre, tentando acalmar as cólicas que a incomodavam desde aquela manhã. Ela sabia o que significavam e o pouco de esperança que tinha a abandonou.

— Amanhã conversamos mais, preciso dormir!

Nadja se afastou das grades da cela e se encolheu no canto. Era nítida a diferença no humor da amiga nos últimos dias, e naquele momento, até mesmo sua voz transbordava melancolia.

Cinco anos, esse era o tempo que Nadja estava confinada naquela cela fria e escura. Não se lembrava de nada antes de acordar naquele lugar sombrio e desolado. Os colegas de cativeiro a chamavam de Nadja, não por lembrar de seu nome, mas, graças ao colar em seu pescoço, único objeto pertencente ao passado apagado da memória.

A única rotina conhecida era a de trabalhar durante o dia e ser trancafiada a noite, onde repousava seu corpo cansado em um colchão velho sobre o chão no canto da cela. No início, eram dezenas deles, divididos em categorias por seus algozes. Ela não sabia o que significavam tais categorias, sabia apenas que Ômegas faziam o trabalho pesado, Lunas e Betas serviços domésticos. Nenhum deles, no entanto, podia sair da área de confinamento, para que seu cheiro não atraísse “enxeridos”.

Com o passar do tempo, o número diminuiu. Três Lunas foram vendidas logo na primeira semana, alguns ômegas morreram devido aos abusos. Lunas não sofriam abusos físicos, valiam mais se fossem intocadas, porém, Ômegas não tinham a mesma sorte…

Sobraram apenas duas Lunas, ela e sua colega de cela. Nenhuma das duas se lembrava muito bem do mundo externo antes de chegarem àquele lugar, mas Rebeca tinha sonhos. Sonhos que poderiam lembranças de sua avó lhe ensinando sobre almas gêmeas, como o destino sempre se encarregava de fazer com que companheiros se encontrassem. Nadja aguardava por essas histórias sempre que voltavam para a cela após um dia de trabalho. Ela ouvia com atenção cada palavra capaz de encher seu coração de esperança. A promessa de que, em algum lugar, sua alma gêmea a estaria procurando, ansioso por encontrá-la e livrá-la do cativeiro.

*****

— Acorda! Anda, não temos muito tempo!

Nadja abriu os olhos, assustada com a urgência contida nas palavras da amiga. Para sua surpresa, Rebeca estava em sua cela acompanhada de um dos machos que vigiavam as celas.

— O que foi, o que está acontecendo? — Perguntou confusa ao levantar e seguir o casal para fora.

— Temos que ir! As ervas não fizeram efeito, meu ciclo veio e logo sentirão o meu cheiro!

— Que ervas, que ciclo, do que está falando?

Rebeca puxou Nadja pelo braço e praticamente a arrastou pelos corredores. O macho as acompanhava calado, olhos atentos ao redor. 

Ele estava visivelmente ansioso com o risco de serem pegos. 

Nadja ouviu as palavras da amiga cada vez mais apavorada. De acordo com Rebeca, as fêmeas sangravam a cada lua cheia quando ficavam “maduras”, e há muitas luas aquele macho que as acompanhava a ajudou com ervas que impedia o “amadurecimento”, porem, com o passar do tempo, o chá perdeu o efeito e Rebeca sentia cólicas, que indicavam a aproximação do sangramento.

Rebeca revelou para Nadja que a razão de elas ainda não terem sido vendidas era por serem mais novas, ainda não sangravam, e seu “valor de mercado” aumentava após o “amadurecimento”, pois seus hormônios seriam percebidos por todo macho que se aproximasse, e até mesmo um ômega seria capaz de identificá-las como Lunas.  

Havia vários corpos pelo chão, resultado do envenenamento perpetrado pelo misterioso macho que as salvou.

Nadja ficou ainda mais assustada quando saíram do confinamento de concreto. A escuridão da noite as envolveu, fria e úmida. O macho segurou a mão de Rebecca e a puxou na direção da mata fechada, Nadja teve que correr para acompanhá-los.

— Vamos por ali, após atravessarmos o rio, estaremos seguros.

Nadja olhou para trás, para o acampamento que foi sua prisão por tantos anos com um forte senso de irrealidade. Tudo aquilo mais parecia um sonho. Um pesadelo estranho que acabaria em sofrimento. Ela estava com medo do que aquele mundo escuro ofereceria, e mais ainda, do que aconteceria com eles se fossem pegos pelos seus algozes.

Depois de alguns minutos correndo, Nadja mal conseguia ficar em pé. 

— Não podemos descansar um pouco? — Perguntou Rebeca preocupada com a amiga.

— Não, Luna! O líder o bando já deu por nossa falta e posso ouvi-los! Estão em nosso encalço!

— Nadja está fraca, esteve dias sem comer de castigo, ela não vai aguentar. — Rebeca olhou mais uma vez para trás, compadecida pela amiga, que se esforçava para manter o passo.

Nadja tinha sido castigada pelo líder dos criminosos por derramar a bebida dele. Dois dias sem comer nada, fazendo todo o trabalho doméstico, a deixou debilitada. Por mais que se esforçasse, não conseguia acompanhá-los. 

Um uivo alto e feroz se fez ouvir mais próximo, indicando que os lobos haviam encontrado o rastro deles. A poucos metros estava o rio que delimitava o território dos degenerados sequestradores. O homem que as acompanhava se curvou, pegou Rebeca e a jogou no ombro com um saco de batatas.

Ele correu na direção do rio sem olhar para trás.

Rebeca se desesperou ao perder a amiga de vista.

— Não corra, Nadja não consegue acompanhar!

— Então, teremos que deixá-la para trás! — Respondeu o macho sem o menor remorso.

— Não podemos fazer isso! Se é mesmo meu gama, tem que me obedecer! Precisamos salvá-la!

— Desde que te identifiquei como minha Luna, meus instintos gritam para protegê-la, ainda que nossa aldeia tenha sido destruída. Sua segurança está acima da dela e de qualquer outra pessoa! Se a pegarem, teremos uma chance maior de escapar!

*****

Nadja perdeu Rebeca de vista e os passos de lobos correndo em sua direção era barulho mais desesperador de toda a sua jovem vida. 

Ela estava sozinha, no meio de uma mata escura, sendo perseguida por feras e sua única amiga desapareceu de vista. Seu corpo fraco mal conseguia manter os passos, mas ela sabia que se desistisse, nunca mais teria outra oportunidade de escapar. 

Seus pés descalços insistiam em seguir além de suas forças. Era uma noite fria, e ela vestia apenas uma bata fina e comprida de serviçal, ainda assim, suor escorria de sua testa fria. 

O desespero era a única emoção que habitava em seu ser. Tudo aconteceu tão de repente, que não tinha tempo de raciocinar. Seguiu na direção do rio, sem saber que estava indo na direção oposta a da amiga. 

— Lá está ela, peguem-na!

A voz de um dos mais cruéis carcereiros alcançou seus ouvidos e seu corpo encontrou forças para fazê-la correr mais rápido. Um pequeno rastro de sangue era deixado por seus pés ensanguentados. Parou de repente e soltou um grito de pavor. Estava na beira de um penhasco, sem ter mais para onde correr. 

Virou para a direção de onde tinha visto, e um macho alto saiu da mata fechada com um sorriso cruel nos lábios.

— Não tem para onde ir, garotinha! É melhor vir quietinha, se me obedecer direitinho, posso convencer o chefe a pegar leve no seu castigo!

Aquele homem a aterrorizava ainda mais do que o tal “chefe”. Seu olhar era predatório de uma maneira que sua mente inocente não concebia, mas que seus instintos sabiam ser perverso. Ela não podia voltar com ele, se o fizesse, a maldade que ele emanava a atingiria livremente antes que ele a entregasse ao líder do bando. 

Nadja deu um passo para trás sem tirar os olhos daquele lobo cruel. Ele ergueu as mãos como quem se rende, e falou em tom debochado:

— Cuidado, vai acabar caindo e você não quer machucar esse corpinho lindo, quer? Não antes do papai aqui dar uma provadinha, não é?

Nadja sentiu o coração apertar com as imagens que sua mente produziu do que aquele homem pretendia fazer com ela.  Em um instante, ela virou-se na direção do abismo.

— Garota, não seja maluca, venha aqui!

Nadja fechou os olhos e pulou na direção da morte.

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