
O Meu Demónio Bonito e a Memória Perdida
Capítulo 3
No caminho para casa, o silêncio no carro era denso. Sofia, sentada ao meu lado, não parava de me olhar de lado, como se eu fosse uma bomba-relógio prestes a explodir.
"Jules, tens a certeza de que estás bem?" Ela perguntou finalmente, a sua voz baixa e cheia de preocupação.
"Eu estou ótima, Sofia." Eu disse, virando-me para ela com um sorriso. "Porque é que ninguém acredita em mim?"
"Porque há uma semana atrás, estavas a planear o teu futuro com ele. E agora... agora dizes que não te lembras dele. É estranho."
Eu encolhi os ombros. "Talvez seja uma bênção."
Ela esfregou o meu cabelo carinhosamente. "Talvez."
Senti uma pontada de culpa. A minha amiga parecia exausta. Havia olheiras escuras debaixo dos seus olhos, e a sua energia habitual tinha desaparecido. Ela devia ter passado as últimas noites em claro, preocupada comigo.
"Desculpa por te ter preocupado tanto." Eu disse, abraçando-a com força.
Ela retribuiu o abraço. "És a minha irmã de alma. Claro que me preocupo."
O jantar em casa foi surpreendentemente descontraído. O meu pai, que normalmente é um homem sério, abriu uma garrafa do seu melhor Vinho do Porto e contou histórias embaraçosas da minha infância. A minha mãe ria, e até Sofia parecia mais relaxada.
Eles evitavam cuidadosamente mencionar o nome de Benjamin, e eu estava grata por isso.
Mais tarde, no meu antigo quarto, Sofia e eu ficámos em silêncio, a olhar para o céu estrelado pela janela. O ar estava fresco e limpo depois da chuva.
"Sabes," ela disse suavemente, "quando me ligaram do hospital, pensei que o ia matar."
Eu não disse nada. Apenas apertei a sua mão.
"Ele deixou-te lá, Jules. Depois da vossa discussão, ele simplesmente foi-se embora e deixou-te sozinha na estrada, à chuva."
Uma imagem fugaz brilhou na minha mente – faróis de um carro a afastar-se, a chuva a cair com força. Mas o rosto do condutor estava em branco.
"Eu não me lembro." Eu sussurrei. E era verdade.
Sofia suspirou e apertou a minha mão com mais força. "Tudo bem. Talvez seja melhor assim."
Ficámos assim por um longo tempo, apenas a presença uma da outra era um conforto. Senti-me segura, protegida. Pela primeira vez em muito tempo, senti que estava em casa.
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