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Capa do romance O Marquês de Sangue - Livro Um

O Marquês de Sangue - Livro Um

Ana Blackwood, filha do Barão de Ackley, vê seu futuro com o Visconde de Redfield ameaçado por uma doença fatal. Em busca de cura, ela conhece o Dr. Nathaniel e a criada Leticia, mas a chegada de Vladimir Strauss, o Marquês de Lancaster, muda tudo. Ana descobre um mundo oculto de vampiros e lobisomens, sendo forçada a questionar seus princípios e sentimentos. Sob a mentoria de Strauss, um homem nada cavalheiro, ela enfrentará o desafio de se adaptar a essa nova realidade sobrenatural.
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Capítulo 2

Ana seguia pelas ruas de Mayfair com seu chapéu mal amarrado apertando suas têmporas, com grampos nos cabelos quase perfurando seu crânio, fazendo sua cabeça latejar. Estava de péssimo humor, sentia uma fadiga injustificável e um peso em suas pernas que só lhe eram característicos quando estava em seus dias. Isso sem falar do suor que atrapalhava suas noites de sono. Lutava para manter a imagem serena de uma dama recatada quando tudo o que queria era deitar-se em sua cama e dormir pelo resto da semana.

Sua mãe seguia na frente de braços dados com seu pai, Charles, enquanto Jonathan a guiava e sussurrava sobre as apostas que fizera e o lucro que obtivera. Se os pais de Ana o ouvissem falando sobre apostas, o repreenderiam seriamente pela falta de decoro. Ana não se importava, não gostava de apostas e jogos de azar, no entanto, sabia como o amigo adorava falar sobre esse assunto e, para agradá-lo, fingia interesse.

O caminho até a casa de Lorde Redfield era curto, o visconde morava próximo à família de Ana, e como Charles Blackwood, Barão de Ackley, queria mostrar à sociedade que sua filha era próxima do Visconde de Bristol, Lorde Ackley fazia o esforço de mover sua pança pelas ruas de Londres.

A cabeça cheia de cachos loiros emoldurados por um chapéu lilás virou-se suavemente e Theodora deu uma rápida olhada para a filha. Ana parecia não ouvir uma palavra do que Jonathan dizia, o que não era comum, já que a filha sempre participava ativamente dos assuntos, mesmo quando simulava atenção. Talvez estivesse indisposta pela chuva forte que pegara dias antes enquanto caminhava pelo parque, logo após uma visita a um hospital para praticar caridade. Ana visitava o lugar fazia meses sem que os pais soubessem. Theodora descobriu depois de enviar um lacaio para segui-la. Desde então, a filha a avisava antes de sair e a mãe acobertava suas escapulidas. Temia por Ana, mas sabia que o desejo da filha de ajudar era um dom herdado do pai, e Theodora jamais se colocaria entre Ana e a missão divina que a filha recebera. Agora, se Charles soubesse que a filha visitara um lugar como aquele, as consequências para ela seriam desastrosas.

Ana tentava acompanhar o assunto da vez, contudo, mal conseguia distinguir as palavras que saiam da boca de Jonathan, aquela situação era um desastre. Estava na companhia do homem que amava e, assim que começasse a temporada, esperava ter coragem para se confessar; por isso não conseguia aproveitar o momento. Jonathan parecia não notar a diferença no comportamento dela, continuava falando sobre suas conquistas dentro da câmara dos lordes e sobre como naquele ano sua viscondessa traria para Londres um brilho sem igual.

— Viscondessa? — Ana conseguiu dizer. — Já decidiu com quem se casará?

— Sim, é claro que decidi. Dentro de semanas pedirei a mão dela a seu pai e anunciarei o noivado.

— Já conversou com a dama sobre o assunto, para saber se ela está de acordo com o enlace?

— Ainda não, mas não vejo por que negaria. Ela não é uma beldade aos olhos da sociedade, e as chances de conseguir mais propostas são pequenas. Não que me gabe disso, mas não gosto de concorrência — Jonathan riu.

— E para você? Ela também não é uma beldade? Está pensando em desposá-la por pena? — Ana temia a resposta, foram muitos anos nutrindo sentimentos por Jonathan para então descobrir que, caso ela fosse a escolhida, a desposaria por pena. Seu pai possuía melhores condições financeiras, mesmo estando abaixo na linha da nobreza, mas Lorde Redfield não precisava de dinheiro, não pelo que contava a ela. Ana não era uma beldade, era muito mais alta que as demais damas, e seus olhos de cor diferente fazia-a sentir-se como uma atração bizarra ao invés de sedutora. Seus pais possuíam olhos azuis da cor do céu, bem como sua irmã caçula, mas ela nascera com aqueles esquisitos olhos lilases.

— Jamais a enxerguei com pena, pelo contrário. Você me conhece, Ana. Jamais me casaria com uma dama que não fosse, no mínimo, minha melhor amiga e que eu considere bonita.

— Posso saber que dama é esta que o arrebatou a ponto de se tornar sua melhor amiga?

— Ora, você, como minha melhor amiga, deveria saber a resposta. — Jonathan abriu um sorriso e Ana o encarou levantando as sobrancelhas. O jovem ruivo e da mesma estatura que ela piscou um olho e sorriu descontraído. Ana adorava o tom castanho dos olhos dele. Seus lábios se curvaram em um sorriso tímido e ela voltou a fitar o caminho.

Tudo corria bem, Jonathan acabara de confessar seus sentimentos e indiretamente a pedira em casamento. Ainda demorariam semanas até que o pedido fosse feito, mas saber que era correspondida já a deixava extasiada. Ana sentia que o cansaço aumentava conforme seguiam pela rua que os levaria até Redfield Manor. Suas pernas pareciam não querer obedecê-la, em um segundo estava caminhando, no outro sentia sua visão escurecer e ouvia a voz desesperada de Jonathan.

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— É apenas uma gripe, Milady, senhorita Ana precisa descansar e tomar bastante chá. Deixarei láudano e um preparado de ervas para o banho. Não esqueçam de deixá-la em repouso total. Em alguns dias creio que sua filha estará recuperada.

— Tem certeza, doutor? Ana tem tido algumas tosses incomuns há algumas semanas, não é a primeira vez que fica de cama com cansaço.

— É perfeitamente normal, Milady. É possível que a dama esteja descansando pouco e se alimentando mal. Precisará vigiar as refeições e certificar-se de que não pule nem o chá da tarde.

Após deixar todas as recomendações necessárias, o médico partiu, deixando Theodora sozinha com a filha no quarto da jovem. A baronesa segurava a mão da filha quando essa despertou. Ana ainda estava desnorteada pelo láudano e tossia mais do que o comum. A jovem sempre tivera uma saúde um tanto frágil. Na infância era dada a ter febres e resfriados fortes, fora um milagre ter sobrevivido. Mas ao chegar à fase adulta, Ana se tornara um pouco mais forte, no entanto, ainda caía de cama mais vezes do que uma pessoa normal.

— Logo tudo ficará bem, minha querida. O médico disse que é apenas uma gripe — Theodora falou com mansidão para acalmar a filha.

Na tarde seguinte, Ana emitiu alguns sussurros entre os intervalos da tosse quando sua mãe voltou ao quarto. A jovem perguntou sobre Jonathan.

— Ficou apavorado com seu desmaio. Foi difícil tirá-lo da sala de visitas. Perguntava incessantemente o que acontecera com você e quando eu disse que talvez fosse indisposição após uma chuva, o visconde não se contentou e interrogou o médico para saber se o que tinha era contagioso. Ele pareceu mais aliviado quando o doutor revelou que era uma simples gripe.

Ana balançou a cabeça em concordância e voltou a fechar os olhos. A criada da jovem secava sua testa quando ela voltou a tossir, dessa vez de forma agressiva. Janette se assustou ao ver sangue saindo da boca da jovem, sujando a manga da camisola conforme colocava a mão na boca. Theodora arregalou os olhos ao ver a mancha vermelha e saiu imediatamente do quarto da filha.

Horas mais tarde ela retornou com o médico e o implorou que assegurasse de que era apenas um resfriado. Depois de analisar a piora no estado da paciente, Henry Phillip chamou a baronesa à parte e lhe deu a pior notícia que uma mãe poderia receber.

— Milady, sinto muito. A piora no estado da sua filha e a aparição de sangue são péssimas notícias. A senhora disse que ela tosse há alguns meses e têm resfriados mais vezes do que o comum, certo? — O médico limpava as mãos em uma vasilha com água. — Sabe por onde sua filha tem andado e se teve contato com outros doentes?

— Ana costuma visitar um hospital escondido do pai para praticar caridade. Ela ajuda a organizar papéis com informações sobre os doentes. Nunca mencionou contato direto com nenhum enfermo.

O doutor voltou ao quarto da jovem e a questionou sobre suas idas ao hospital, sobre o estado dos pacientes e se houve algum contato. Ana, com dificuldade, lhe explicou sobre o único contato que teve, uma jovem que caiu no corredor próxima a ela. Ana disse que ajudou a garota, a qual tossia incessantemente, e depois voltou a fazer seus trabalhos com os arquivos. Henry a questionou sobre o estado da paciente doente, e Ana o revelou que a garota morrera semanas depois.

A jovem não entendia de doenças, ia ao hospital ajudar em memória de seu falecido tio, que era médico. Winston falava para a sobrinha sobre a importância de salvar vidas e dedicar-se ao bem da humanidade. Winston havia morrido há um ano, vítima de uma doença desconhecida.

Tendo recolhido todas as informações necessárias, o médico deixou o quarto e suspirou pesadamente ao fechar a porta. A menina era tão jovem, acabara de completar vinte anos. Aquela seria uma perda muito pesarosa para a família. Chamando os pais de Ana, o médico lhes deu a triste notícia:

— Meus senhores, sinto lhes informar, mas o pior aconteceu. Sua filha contraiu tuberculose de alguém infectado pela doença.

— Tuberculose? O que é isso? Do que está falando, homem? Ontem mesmo disse a minha esposa que era apenas gripe! — O barão, visivelmente exaltado, tentava entender o que acontecia em sua casa.

— Talvez a conheçam pelo nome “Peste Branca”. Sua filha provavelmente a contraiu no hospital que tem frequentado.

Charles olha para a esposa com ira nos olhos, ele sequer sabia que aquela garota rebelde andava se esgueirando para lugares imundos e inadequados para uma dama.

— O que podemos fazer por ela? — Charles quase rosna as palavras.

— Levem-na para um lugar onde possa passar o tempo que lhe resta em paz. Eu sugiro Bath. Caso não consigam, apenas a tirem de Londres. Este lugar não faz bem aos doentes.

— Doutor! Está nos dizendo que nossa filha morrerá? Deve haver alguma maneira de curá-la! — Theodora o encarou desesperada.

— Sinto muito. A esta altura não há nada que eu ou qualquer médico possa fazer. Aproveitem o tempo que lhes resta com a jovem dama. Agora, se me dão licença, ficar aqui é um risco para a minha saúde também.

Henry Phillip deixou a casa sob os protestos de Lorde e Lady Blackwood. Charles deu uma bofetada na face da esposa assim que ficaram sozinhos, e Theodora sentiu lágrimas caírem pelo rosto.

— Como pôde ser tão inconsequente? Ainda por cima escondeu as burradas que sua filha fazia pelas minhas costas.

— Eu não sabia que ela ficaria doente! Ela disse que não corria risco ficando na sala de documentos. Disse que ninguém além do médico encarregado do hospital sabia da presença dela e que ele era amigo de Winston.

Ao ouvir o nome do irmão, Charles quebrou um vaso ao jogá-lo na parede. Sempre soube da preferência de Ana por Winston Blackwood. O que Ana não sabia era que Winston era seu verdadeiro pai. Charles nunca perdoara a esposa pela traição, mas sabia que a culpa era sua por tê-la desposado sabendo que estava apaixonada por seu irmão mais novo. Cego pela beleza da mulher, não pensou duas vezes em aceitar o acordo entre as famílias. Contudo, não a tocou nos primeiros meses de casamento depois de vê-la saindo furtivamente de uma cabana com seu irmão um dia antes do casório. Meses depois veio a confirmação. Theodora estava grávida, e Charles sabia que a criança não era sua. Aquela fora uma noite de horror. Quase matara o irmão a pauladas e jurara destruir Theodora. Entretanto, sua ira foi apaziguada com o nascimento da menina. Theodora jurou nunca mais se aproximar de Winston, e o irmão nunca mais pôs os pés em qualquer propriedade da família. Muitos anos depois, Charles ficou severamente machucado após uma caçada e Winston o salvou da morte. Aquilo selou uma trégua entre ambos, já que o irmão casara e tinha sua própria família. Ele mesmo vivia bem com Theodora, então abriu novamente as portas da casa para que o irmão pudesse achegar-se a eles. Ana se apegara tanto ao tio que tornaram-se confidentes, mas no ano seguinte Winston morreu repentinamente de uma doença desconhecida.

Theodora, jogada ao chão, implorava para que o marido a perdoasse. Charles desviou-se das súplicas da mulher e ordenou aos criados que fizessem uma lista de médicos para contatar e trazer até a residência a fim de examinar a filha.

Semanas se passaram e o estado da jovem piorava. Decidido a esconder da sociedade o que acontecia em sua casa, Charles tomou a decisão de partir para Manor Grace, sua propriedade na Escócia. Um senhor entre dezenas de médicos que visitaram sua casa lhe contou sobre um homem que já havia curado alguns pacientes com os mesmos sintomas da jovem dama. Decidido a agarrar-se a essa oportunidade, o barão partiu com a esposa e as duas filhas para a Escócia. Não deixaria a filha de Winston morrer, não permitiria que o irmão tivesse o deleite de aproveitar a companhia da garota no além.

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