Capa do romance O marido da minha irmã

O marido da minha irmã

8.4 / 10.0
Heloísa e Helena são gêmeas idênticas com vidas opostas. Enquanto uma desfruta do luxo ao lado de um magnata temido, a outra vive isolada por traumas. Quando Helena sofre um colapso mental, a família falida teme perder o sustento do genro rico. Para evitar a ruína, os pais obrigam Heloísa a assumir a identidade da irmã. Agora, ela deve enganar o perigoso cunhado, mas a farsa desperta uma conexão proibida. Se a verdade surgir, o preço será a destruição total.

O marido da minha irmã Capítulo 1

Capítulo 1

Eu me lembro do dia em que vi Miguel pela primeira vez.

E me lembro, principalmente, do dia em que percebi que Helena também tinha visto... que eu o vi.

Helena sempre via primeiro, mesmo sem ver.

Ela não precisava amar ele.

Ela só precisava vencer. Tirar de mim.

E ela venceu, mais uma vez.

Miguel se tornou dela.

E eu fiquei com o que sempre ficou para mim: migalhas.

Eu nunca contei para ninguém o que eu senti.

Nem para minha mãe, nem para meu pai... nem para Helena.

Mas Helena descobriu mesmo assim.

Ela descobriu e sorriu, como se estivesse segurando uma arma.

E eu nunca esqueci a frase que ela disse naquela noite:

- Tudo que você ama... eu posso tirar de você. Eu sou melhor que você.

Eu quis acreditar que, com o tempo, aquilo ia parar de doer.

Mas não parou.

Porque o problema não era Miguel.

O problema era eu ter passado a vida inteira engolindo, aceitando, cedendo... e ainda assim nunca ser suficiente.

Quando soube que estavam negociando um contrato de casamento com a família Bordin, eu simplesmente desisti de ser a sombra e fugi.

Fugi da casa dos meus pais, fugi da cidade, fugi de Helena.

Fugi até de mim.

E por alguns anos eu achei que finalmente estava livre. Eu sabia o básico sobre eles... o que saía no jornal e o que não dava tempo de evitar.

Até hoje.

Até meu celular tocar, depois de anos sem lembrarem da minha existência.

Meu corpo inteiro travou no instante em que vi o nome na tela.

MÃE.

Eu fiquei olhando, como se o aparelho tivesse virado uma bomba.

Minha mãe nunca me ligava. Desde que fugi, ela nunca quis saber se eu estava bem, se eu estava viva. O que importava sempre esteve lá... Helena.

Mas alguma coisa estava errada.

Porque na minha família, quando algo dava errado... sempre sobrava para mim. E era aí que eu voltava a existir.

O celular vibrou de novo.

Meu coração disparou.

Eu tomei meu remédio para ansiedade, esperando que ela desistisse.

Mas não desistiu.

A vontade que eu tive foi ignorar.

Deixar tocar até cansar.

Fingir que eu não vi.

Mas eu atendi.

Porque eu era fraca.

Na verdade... eu sempre fui.

- Alô?

Do outro lado, silêncio.

E quando a voz dela veio, eu soube na hora que algo tinha quebrado de verdade.

- Heloísa...

Minha mãe estava chorando.

Eu nunca ouvi minha mãe chorar daquele jeito.

Senti o chão sumir.

- Mãe... o que aconteceu?

- Você precisa vir agora.

Meu peito apertou.

- Vir onde?

- Caxias do Sul. Na clínica psiquiátrica... por favor, não pergunte nada agora. Seu pai tá aqui comigo... a gente tá desesperado.

Clínica psiquiátrica?

Meu estômago virou.

Eu já sabia a resposta antes mesmo de perguntar.

Mesmo assim, a palavra saiu:

- É a Helena?

A respiração da minha mãe falhou, como se eu tivesse dito algo proibido.

- Vem, Heloísa... é pior do que você imagina.

Eu fechei os olhos com força.

Helena.

Sempre Helena.

Sempre o caos dela.

Sempre a tempestade dela destruindo tudo... e sobrando para mim recolher os pedaços.

Eu tentei ser firme.

- Mãe... eu não posso. Eu tenho minha vida aqui. Eu não quero saber de nada disso.

Eu falei.

E pela primeira vez, quase acreditei na minha própria coragem.

Mas então minha mãe disse:

- Ela tem um bebê, Heloísa... e ele precisa de ajuda...

E eu congelei.

Um bebê... no meio do caos que minha família sempre foi.

Ele não merecia isso.

Minha mãe continuou, desesperada:

- Ele tá aqui com a gente. A Helena tá fora de si... eu tô com medo... medo do que ela pode fazer.

Meus olhos arderam.

Meu peito apertou com força.

Eu não conhecia aquele bebê.

Mas eu conhecia o tipo de mundo em que ele estava nascendo.

Um mundo cheio de mentiras, orgulho e gente doente.

Eu apertei o celular com tanta força que meus dedos doeram.

Minha mente gritava para eu dizer não.

Mas minha boca já sabia o que responder.

Porque eu sempre disse sim.

Porque eu sempre cedi.

- Eu tô indo.

Do outro lado, minha mãe soltou um suspiro aliviado.

- Eu sabia... eu sabia que você não ia abandonar a gente.

Aquilo me atingiu como uma facada.

Porque eu fui abandonada primeiro.

Desde que nasci.

Eu desliguei.

E fiquei parada por alguns segundos, olhando para o vazio.

A raiva subiu quente, amarga.

Eu estava indo.

De novo.

Mais uma vez eu estava indo salvar Helena.

Mais uma vez eu estava indo consertar a sujeira da minha família.

E o pior...

era que eu sabia que aquilo era humilhante.

Eu sabia que estava sendo burra.

Eu sabia que devia virar as costas... como sempre fizeram comigo.

Mas eu não consegui.

Porque eu não estava indo por Helena.

Eu estava indo por uma criança que não tinha culpa de nascer em uma família tão maldita quanto a minha.

E talvez... talvez por uma parte de mim que ainda queria acreditar que eu podia ser importante em alguma coisa.

Ou até mesmo... que eles ainda pudessem me amar.

Eu peguei a bolsa, joguei meus documentos dentro sem nem olhar, enfiei o casaco, as chaves, o celular.

E saí.

No caminho até Caxias do Sul, o céu estava fechado.

A estrada parecia mais longa do que deveria.

E dentro do carro, eu só conseguia pensar em uma coisa:

Eu não devia estar fazendo aquilo.

Quando cheguei à clínica, já era final de tarde.

O lugar era limpo, bonito, silencioso demais... como se o sofrimento ali fosse proibido de aparecer.

A recepcionista me olhou com aquele rosto neutro, de quem já viu muitas famílias quebradas entrarem e saírem.

- Posso ajudar?

Eu engoli seco.

- Meus pais estão aqui. Vim encontrar eles... Antônio Azevedo.

Ela digitou algo no computador e levantou os olhos devagar.

E o olhar dela mudou.

Como se tivesse reconhecido meu sobrenome.

Ou como se já soubesse exatamente quem eu era.

- Você é a irmã dela, não é?

Meu estômago revirou.

- Sou.

Ela assentiu e apontou para o corredor.

- Eles estão aguardando...

Meu coração disparou.

Eu caminhei com passos lentos, sentindo o eco do meu salto no chão encerado. O cheiro de desinfetante era forte. O ar parecia pesado, como se ali dentro ninguém tivesse permissão para ser humano.

No corredor, encontrei meu pai primeiro.

Antônio Azevêdo parecia menor do que eu lembrava. Envelhecido. Os ombros caídos, o rosto pálido, os olhos vermelhos. Ele estava sentado, com as mãos entrelaçadas, encarando o chão como se não tivesse coragem de olhar para mais nada.

Minha mãe estava de pé, andando de um lado para o outro, inquieta, segurando a bolsa com força, como se fosse a única coisa que a mantinha de pé.

Quando ela me viu, correu na minha direção e me abraçou com força.

Eu senti o corpo dela tremendo.

- Graças a Deus... graças a Deus que você veio.

Eu fiquei rígida no abraço.

Não porque eu não quisesse carinho, porque eu já desisti de ter, mas o desespero dela me assustava. Minha mãe sempre foi feita de controle, aparência e postura. Ver ela assim era como ver uma rainha sem coroa.

- Mãe... o que aconteceu? Onde tá a Helena?

Ela soltou o abraço e olhou para meu pai, como se pedisse coragem.

Meu pai levantou os olhos devagar.

E quando ele falou, a voz dele parecia quebrada.

- Nós fomos até a casa deles.

Eu engoli em seco.

- Por quê?

Minha mãe respondeu, a voz tremendo.

- Ela ligou pra mim de madrugada... chorando. Disse que não aguentava mais. Disse que... ele ia tirar o bebê dela.

Eu senti o ar sumir dos meus pulmões.

Miguel?

Meu pai continuou, como se cada palavra fosse uma pedra sendo arrancada do peito.

- Nós não avisamos. Pegamos o carro e fomos. Achamos que era exagero, drama... você conhece sua irmã.

Sim.

Eu conhecia.

Helena sempre foi dramática. Sempre foi intensa. Sempre foi exagerada quando queria atenção.

Mas o olhar do meu pai dizia que dessa vez não era teatro.

Minha mãe apertou os próprios dedos, tentando se controlar.

- Quando chegamos lá... Heloísa... nós encontramos sua irmã como... como se ela fosse outra pessoa.

Eu senti minha pele arrepiar.

- Como assim?

Minha mãe respirou fundo, e as lágrimas começaram a cair sem controle.

- Ela tava no quarto, com o cabelo todo bagunçado, descalça, o olhar perdido... ela não parecia a Helena. Ela parecia... alguém que tinha sido arrancada de si mesma.

Meu pai fechou os olhos, como se estivesse revendo a cena.

- O bebê estava chorando... chorando muito. E ela não fazia nada. Só olhava. Como se não soubesse o que era aquilo. Como se tivesse medo dele.

Meu estômago revirou.

Eu não consegui imaginar Helena daquela forma. Helena sempre foi vaidosa, impecável, dona de si. Mesmo quando estava infeliz, ela fazia questão de parecer bem. Ela vivia de aparência. Era impossível imaginar ela assim.

- E o Miguel? - eu perguntei, quase num sussurro.

Meu pai abriu os olhos de novo.

- Não estava. Estava viajando.

Minha mãe se aproximou, segurando minhas mãos.

- Heloísa... ela dizia coisas sem sentido. Dizia que ele estava trazendo uma mulher pra casa. Que ia dar o filho pra amante. Que o bebê não era dela. Que ele queria destruir ela.

Eu senti um frio subir pela minha espinha.

Isso não era ciúme normal.

Aquilo era paranoia.

Minha mãe limpou o rosto, mas as lágrimas continuavam.

- Ela começou a gritar. Começou a quebrar coisas. Jogou um vaso antigo no chão... e depois caiu no chão abraçada no próprio corpo, parecendo uma criança. Eu nunca vi sua irmã daquele jeito.

Meu pai falou baixo, com vergonha.

- Ela estava assustando até os empregados.

Eu engoli seco.

Meu coração apertava, não por Helena... mas por tudo que aquilo significava.

Uma mulher surtada. Um bebê pequeno. Um marido poderoso. Uma mansão cheia de olhos.

Aquilo era um desastre prestes a explodir.

Minha mãe apertou minhas mãos com força, quase machucando.

- Nós ligamos para um médico particular. O mesmo que atende nossa família há anos. Ele disse que ela precisava ser internada. Que era possivelmente depressão pós-parto... mas que já tinha se transformado em algo mais grave.

Meu pai completou:

- Um colapso. Um surto psicótico.

Eu senti minha cabeça girar.

Helena internada?

Helena, a intocável?

A escolhida?

A perfeita?

Meu olhar correu pelo corredor, como se eu esperasse ver minha irmã surgindo ali a qualquer momento, rindo e dizendo que era tudo exagero.

Mas não havia riso.

Só silêncio.

Minha mãe então disse a frase que mudou tudo:

- E o Miguel não pode saber.

Meu corpo inteiro endureceu.

- Por quê? Como assim?

Meu pai levantou, andando devagar até mim.

Ele era um homem orgulhoso, rígido, tradicional. Mas naquele momento ele parecia apenas um pai desesperado.

- Porque se Miguel descobrir... ele toma o bebê. E com razão. Ele não vai deixar o filho nas mãos de uma mulher instável.

Eu senti um nó na garganta.

- E vocês trouxeram o bebê?

Minha mãe assentiu, os olhos brilhando.

- Sim. Ele tá aqui.

Eu não consegui esconder o choque.

- Aqui? Na clínica?

Ela apontou para uma porta ao lado.

- Ele tá numa sala reservada, com uma enfermeira. Nós não podíamos deixar ele naquela casa. Não depois do que vimos.

Meu coração bateu mais forte.

Eu não sabia o que sentir.

Raiva. Medo. Tristeza. E um incômodo antigo, de que tudo se repete, mais uma vez... como se a vida estivesse me puxando de volta para um lugar que eu passei anos tentando esquecer, que eu tinha enfim conseguido sair.

Minha mãe respirou fundo, como se juntasse forças para o que viria a seguir.

- Heloísa... nós precisamos de você.

Eu senti meu corpo gelar.

Eu já sabia.

Antes mesmo dela falar, eu já sabia.

Eu olhei para meu pai.

Ele não conseguia me encarar.

Minha mãe falou com a voz baixa, quase suplicando:

- Você precisa assumir o lugar dela!

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