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Capa do romance O Lugar Onde O Sol Se Põe

O Lugar Onde O Sol Se Põe

Mila Dervishi vive na Itália tentando fugir do peso de suas raízes albanesas. Após a morte da avó, ela herda uma casa em Berat que dizem ser amaldiçoada. Ao retornar à Albânia para vender o imóvel, Mila conhece o restaurador Blerim. Juntos, descobrem segredos sobre o sumiço da mãe dela e mistérios de gerações passadas. Entre o desejo de partir e a descoberta de um novo amor, Mila precisa decidir se confronta a verdade ou se liberta das ruínas do passado.
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Capítulo 2

Na manhã seguinte, Mila acordou antes do sol. O quarto da pensão parecia ainda mais estranho na penumbra - como se todas as sombras tivessem vindo se deitar ao redor dela.

Tomou um banho rápido, vestiu jeans e a camisa branca que tinha dobrado com cuidado na mala. Quando passou o rímel nos cílios, notou que sua mão tremia. Não era medo, dizia a si mesma. Era só a tensão de tudo aquilo: o cansaço da viagem, o peso de dormir num lugar que não era seu, e aquele aviso de Blerim que ficara martelando no fundo da mente como um relógio velho.

"A casa está acordando."

Era uma bobagem, ela sabia. Mas também sabia que tudo em Berat parecia envolto por alguma história que não se contava inteira.

Desceu as escadas da pensão antes que a recepcionista surgisse. Na rua, o frio da manhã a recebeu com um tapa gelado no rosto. O casario escalava a encosta em degraus brancos e inclinados, janelas multiplicando reflexos alaranjados do nascer do sol. Mila sentiu, pela primeira vez, algo parecido com curiosidade. Ou nostalgia. Talvez uma mistura impossível dos dois.

Ela seguiu pelas vielas estreitas até a Rua e Qetësisë. Enquanto caminhava, percebeu olhares. Rostos que apareciam nas janelas, nas portas entreabertas. Ninguém dizia nada, mas ela sentia perguntas flutuando no ar, presas nos lábios que não ousavam se mover.

Quando alcançou o portão da casa, parou.

O que estava fazendo ali, afinal? Queria só vender aquilo, assinar alguns papéis, voltar à vida ordenada que construíra tão longe. Mas agora que estava diante da porta, tinha a impressão de que cruzar aquele limiar era mais definitivo do que qualquer assinatura.

Ela respirou fundo e empurrou.

A sala parecia menos ameaçadora sob a luz da manhã. Os lençóis que cobriam os móveis tinham um tom quase pálido, como véus esperando um funeral que não acabava nunca. Um feixe de sol entrava pela fresta de uma janela quebrada, iluminando partículas de poeira que dançavam devagar, como se o tempo ali se movesse em outra velocidade.

- Bom dia. - disse uma voz atrás dela.

Mila se virou tão rápido que sentiu o coração bater na garganta.

Blerim estava parado na soleira, braços cruzados. Vestia a mesma camisa do dia anterior, agora aberta nos primeiros botões, revelando uma pele bronzeada que ela não queria notar. Mas notou.

- Você chegou cedo. - ela disse, tentando manter o tom neutro.

- Melhor começar cedo. A luz ajuda a ver o que deve sair e o que pode ficar. - Ele caminhou devagar, os passos sem pressa, como se já conhecesse cada ruído do assoalho. - Preciso saber exatamente o que pretende fazer com tudo isso.

- Tudo isso o quê?

Ele ergueu o queixo, apontando em volta.

- Móveis. Papéis. Coisas que não me cabem decidir. Alguns objetos são valiosos. Outros, apenas... velhos. Mas você vai ter que escolher.

Ela engoliu em seco. A palavra "escolher" parecia mais difícil do que admitir.

- E se eu não quiser nada disso?

- Então vendemos junto com a casa. - ele deu de ombros. - Mas vai render menos. E talvez seja... desrespeitoso.

Ela estreitou os olhos.

- Com quem?

Ele a encarou, e foi a primeira vez que Mila percebeu que havia cansaço no jeito como Blerim sustentava o olhar - como quem já tinha tido que explicar coisas assim muitas vezes.

- Com o lugar. - disse, afinal.

Por um instante, Mila quis rir. Uma risada curta, quase nervosa. Mas conteve. Porque, no fundo, havia algo naquela resposta que fazia sentido, por mais absurdo que parecesse.

- Certo - disse, soltando o ar devagar. - Então comece. Faça o que tiver que fazer pra deixar dois cômodos habitáveis. Eu vou ficar aqui.

Ele ergueu uma sobrancelha.

- Na casa?

- Sim. - ela se apressou em dizer, como se precisasse se convencer também. - Eu... quero entender esse lugar antes de decidir o que fazer.

Blerim não retrucou. Apenas assentiu, como quem já sabia que seria assim. Depois, caminhou até uma das janelas e abriu completamente a madeira empenada. O sol entrou em cheio, iluminando as manchas no tapete, o contorno de móveis pesados e uma poltrona que parecia ter guardado por décadas o cheiro de alguém.

- Vou começar pela sala e pelo quarto dos fundos. - anunciou. - Preciso tirar os lençóis e catalogar o que encontrar.

- Quer ajuda?

Ele olhou de lado, avaliando.

- Ajuda atrasa e adianta ao mesmo tempo.

Ela arqueou uma sobrancelha, desafiando-o.

- Então vamos ver qual das opções acontece.

Ele sorriu, finalmente - um sorriso curto, mas tão inesperado que Mila sentiu um calor que não tinha nada a ver com a luz da manhã.

- Como quiser, Dervishi.

Passaram as horas seguintes em silêncio. Blerim retirava os lençóis devagar, sacudindo a poeira no ar. Às vezes dizia apenas uma palavra - "cômoda", "espelho", "baú" - e empilhava as coisas num canto, como se quisesse deixá-las respirar depois de tanto tempo fechadas. Mila abria gavetas, levantava tampas de caixas e passava a mão sobre superfícies riscadas, tentando imaginar quem tinha sido a última pessoa a tocá-las. Algumas gavetas estavam vazias. Outras, não.

Algumas gavetas estavam vazias. Outras, não.

Em uma das gavetas da cômoda, Mila encontrou um retalho de tecido bordado com letras quase apagadas. Só conseguiu ler uma palavra: Mërgim. Exílio.

Sentiu uma fisgada no peito. Dobrou o tecido devagar, como se temesse rasgá-lo só com o toque. Não disse nada a Blerim. Guardou na bolsa sem saber por quê.

Quando levantou o olhar, ele a observava. Mas não perguntou.

No final da tarde, tinham limpado dois cômodos. O ar parecia menos denso, embora não exatamente leve. O cheiro antigo continuava lá, misturado agora ao pó levantado pela faxina e a alguma outra coisa - talvez lembrança, talvez só superstição.

Mila apoiou a mão no batente da porta, exausta. Blerim deixou o bloco de anotações sobre uma mesa e se aproximou devagar.

- Você vai mesmo ficar?

Ela ergueu o rosto, sustentando o olhar dele por mais tempo do que pretendia.

- Vou.

Ele respirou fundo, como quem estava prestes a dizer algo importante. Mas não disse. Apenas deu um passo para trás.

- Se precisar de qualquer coisa, meu número está aqui. - estendeu um cartão com o nome dele impresso em letras claras.

- Obrigada.

- Só prometa uma coisa.

- O quê?

Ele hesitou. Depois, baixou a voz.

- Que não vai ignorar o que encontrar aqui.

Mila sentiu a pele arrepiar. Por um momento, quis perguntar o que ele já sabia e ela não. Mas mordeu a língua.

- Não vou. - disse apenas.

Quando ele saiu, o silêncio pareceu crescer, cobrindo cada fresta da casa.

Mila olhou em volta. O sol começava a sumir atrás das colinas. A luz dourada se transformava num cinza profundo, engolindo os contornos dos móveis, fazendo tudo parecer mais velho de novo.

E pela primeira vez desde que chegara, ela teve a certeza de que a casa não era o único lugar que estava acordando.

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