
O LEGADO - Spin-off do o Enteado Do Meu Pai
Capítulo 2
Minha vida nunca foi e tão pouco é fácil . Moro com minha mãe e meu pai , ele é agressivo e o odeio – Já tentei falar pra minha mãe , mas ela nunca se importou ou se interessou pra me ouvir , pelo contrário , ficava do lado dele e agarrada a sua pequena televisãozinha que não desgruda por nada desse mundo . Tem eu e minha irmã Laísa de 18 anos de filha – Ela é o oposto perfeito de mim , é esnobe , quer sempre ser melhor que os outros e todas as noites sai muito bem arrumada com sua amiga Amande – ela é de família rica e tem um carro muito bonito . Por um lado vejo isso como culpa da minha mãe , a enchia de mimos e fazia suas vontades , canso de ouvir dizer que Laísa vai se dar bem na vida , porque é ambiciosa ao contrário de mim , que sou uma insossa vendedora de flores artificiais que eu mesma confecciono .- Ela só esqueceu de mencionar que sou eu quem costuma colocar comida dentro de casa . Não tive a oportunidade de estar no colégio , fiquei até o primeiro ano do ensino médio , e quando minha mãe perdeu a capacidade de trabalhar por ter se acidentado em seu serviço as rédeas veio para as minhas mãos – Parei de estudar e comecei a me virar como podia , não vou negar que já houve dias em que passamos fome por não ter encontrado um emprego fixo . Então eu comecei a fazer flores artificiais de papel crepom e emborrachados com a mãe de Virginia minha amiga – Dona Iza . Ela me trata como se eu fosse sua filha e eu me pego pensando como gostaria que minha mãe fosse como ela .
Me sento na calçada e miro meus pés , estão empoeirados de tanto andar . Minhas havaianas estão gastas e como não tenho dinheiro pra comprar outra, coloquei um grampo em baixo pra poder sair pra vender flores , embora tenha que parar as vezes para concertá-la quando o grampo sai do lugar .
Minha barriga ronca de fome , droga ! , é meio dia e eu sequer tomei o café da manhã . Coloco a cesta de flores em cima da calçada e descanso meu cotovelo em cima de um dos meus joelhos dobrados . Meus olhos são atraídos pra uma multidão que se forma do lado de fora do aeroporto . Geralmente gosto de vender aqui , porque é cheio de turistas e a maioria curte artesanato . E no final me sobram alguns trocados embora eu saiba que serão tirados de mim .
-Com certeza deve ser algum famosinho que chegou e o povo , tá pirando – Murmuro para mim mesma e então seu josé do lanche ri me fazendo olhar pra ele.
Ele é uma excelente pessoa , e um senhorzinho de muito bom coração.
- Acertou em cheio minha filha – Me estende o lanche . Sorrio agradecida tomando de sua mão . É um pastel recheado de frango, o meu preferido e ele sabe . – É um Dj famoso gringo que chegou aí
-É mesmo ? , quem é ele ? o senhor sabe? – Pergunto de boca cheia e limpando com o dorso da mão
-Acho que é um tal de Hayden Ward – Já ouvi falar mesmo dele , suas músicas tocam muito nas rádios , eu até ouvi minha irmã escutando uma vez , acho que ela tem até pôster dele na parede . Não me lembro do seu rosto porque não ando pelo seu quarto , a última vez que tentei só para limpar , fui escorraçada quase que a ponta pés . E desde então não vou mais lá .
-Já ouvi falar dele – Digo terminando de comer o pastel . Está delicioso e acalmou a fúria do meu estômago.
-Vai tocar hoje no vila Mix.
-Feliz de quem tem dinheiro pra pagar esses ingressos – Digo me levantando e pegando minha cesta de flores da calçada. - Eu nunca daria um centavo pra curtir festa . Tem tantas coisas mais importantes que gastar com essas bobagens passageiras . O cara com certeza é o maior ricaço e não sabe o que é dificuldade na vida .
Só em pensar que pelo mundo existem milhares de pessoas necessitadas e não tem a menor condição de ter uma refeição decente me inspira um profundo sentimento de compaixão.
Seu José concorda comigo . Pego minha bolsinha olhando as moedas dentro dela . Despejo em minha mão e conto 7,00 . É tudo que consegui pra hoje , mas com essa festa na cidade até que rendeu , só é meio- dia e ainda tenho muito pra vender . Geralmente no final do dia voltava com essa quantia pra casa , então hoje está de bom tamanho.
-Não minha querida – Seu José me interrompe – Eu te dei de coração . Você precisa mais desse dinheiro – Meu sorriso para ele é de agradecimento, a medida em que sinto meus olhos enchendo-se de água.
Contorno seu carrinho de lanche , lhe dando um forte abraço e um beijo na bochecha .
- Deus te abençoe , sou muito grata . Obrigada mesmo seu José – Ele pega em minhas mãos
-Um dia vou te ver vencendo na vida minha filha . Deus vai te honrar
Gostaria de ser tão otimista assim como ele é ....
- Amém seu José . Amém...
Me despedi dele e segui meu rumo . No final do dia tinha conseguido fechar com 40,00 . Tinha pegado o coletivo pra ir pra casa, e quando cheguei coloquei minha cesta em meu quarto e fui pro banheiro tomar banho . Me vesti por lá mesmo , porque não gosto de sair apenas de toalha .Minha mãe continuava com os olhos presos na tv , é assim dia e noite e nunca muda
Bufo me sentando no outo sofá velho , uma mola bate contra minha bunda , mas não tenho reação alguma a não ser uma careta , já me acostumei mesmo .
-Vendeu alguma flor hoje ? – Minha mãe pergunta em zombaria levando uma mão de pipoca a boca
Ignoro seu sarcasmo e fixo meus olhos nela - Algumas
-Ganhou quanto ?
-40,00- Respondo a contra gosto . Ela faz uma cara de desagrado
-Não cansa de quebrar podre? . Quem vai querer comprar essas flores feias ? – Engulo o bolo do meio da minha garganta engolindo uma resposta venenosa. Tento fingir que suas palavras não me abalam – Pelo amor de Deus Samantha , tanta coisa pra você fazer.
-Como o que por exemplo? – Lhe interrompo com ironia
Levanta a sobrancelha – Como usar sua beleza ao seu favor . Mas prefere andar como uma esmolambada sem classe , que homem que vai te olhar se vestindo desse jeito ? . Meus olhos inflamam com a raiva mas me recuso a cair em seu papo baixadora de astral .
-Claro , a senhora quer que eu dependa dos homens , como depende do meu pai ou senão do dinheiro que Laísa traz pra casa de Deus sabe onde .
Seu rosto torna-se furioso
Ela é magra e esbelta , mas um problema em uma de suas pernas a deixou com uma um pouco menor que a outra.
-Sua irmã sabe aproveitar a vida . Olhe como é desejada , como todo mundo a olha. Tem boas amizades , é bonita e sabe se vestir ao contrário de você , que fica penando vendendo essas flores ridículas e que não te dão futuro nenhum.
Me levanto num rompante não aguentando ouvir sequer uma palavra venenosa jogada contra minha cara. As lágrimas molham meu rosto e eu as limpo com fúria , meu coração se comprime . Me debruço na pequena mureta quase aos pedaços e fico ali meditando e olhando pro céu . Algumas crianças brincavam no parquinho muito felizes - Enquanto fico me perguntando que destino foi esse que a vida havia me reservado .
-E ai vizinha ? – Virginia diz ao se aproximar de mim e se sentando na mureta
Ela é minha única amiga , a considero como uma irmã.
-Oi amiga
-Que rostinho triste é esse?
-O de sempre – Ela sabe que me refiro a minha mãe
-Sabe que se quiser deixar essa velha rabugenta e mal agradecida para trás , a porta da minha casa estão abertas . – Sorrio pra ela , e então nos abraçamos
-Obrigada Virginia . Minha mãe é assim mesmo , o que posso fazer ? – Dou de ombros, ela torce a boca desaprovando
-O Ivan me convidou pra ir ao festival hoje – Diz toda sorridente balançando os pés
- Ah é ? , que festival?
-O vila Mix . Vai ser mara – Bate palminhas de animação. Ivan é seu namorado e se amam desde a infância, nunca vi amor maior que o deles.
-Uau que legal . Fico feliz por você – Sorrio pra ela
-Vamos com a gente
-Com que dinheiro ? – Debocho rolando os olhos abrindo um sorriso sarcástico.
-Eu posso pedir ao Ivan pra pagar pra você- Oferece
-Ta louca? , nem pense numa coisas dessas é muito constrangedor . Eu aceito que sou pobre e nem tudo posso ter , pode deixar.
-Sam ! – Protesta colocando as mãos na cintura , com as sobrancelhas curvadas
-Não insista Virginia por favor!
Ela bufa rolando os olhos e agitando as pernas
-Ta .. ta bom .. – Se rende . Mas então abre um largo sorriso e me encara – Que tal se você fosse assim mesmo?
-Meu Deus ! eu já disse que ..
-Posso terminar de falar ? – Assinto revirando meus olhos – Eu estou dizendo pra você levar suas flores pra vender lá na porta . Muita gente gosta pra colocar no cabelo ou alguma coisa assim.
Abro um largo sorriso pra ela a olhando surpresa contente por ter me dado uma ótima ideia , para que eu veja meu alvo mais de perto .
-Caramba! É uma excelente ideia – Batemos palma na mão da outra em cumplicidade
-Sua amiga é um gênio – Se gaba jogando os cabelos para trás das costas
-É verdade – Concordo com seu esnobismo rindo – Estou precisando de grana e essa pode ser uma ótima oportunidade pra ganhar um bom dinheiro.
-É sim uai – Nos despedimos , porque ela precisava se arrumar e estava na hora , já que Ivan chegaria logo.
Coloquei um vestido mais arrumadinho , tinha um pequeno rasgo na bainha mas como eu tinha costurado dava pra disfarçar . Coloquei minhas gastas sandálias havainas e até um gloss , sei que o pessoal estará bem arrumado , mas não me importo ! , é o que eu tenho pra agora.
-Vai pra onde? – Meu ''pai ''pergunta jogado no sofá com uma lata de cerveja .Meu estômago embrulha.
-Vender flores – Mostro a cesta
-Uma hora dessas? – Sua expressão é grosseira e desconfiada
Minha mãe presta atenção ao nosso diálogo''
-É o festival do Vila Mix . Vai ter muita gente por lá e vou aproveitar pra vender – Ele passa uma demorada olhada pelo meu corpo e eu sinto uma vontade absurda de me cobrir com as mãos.
-Vai trocar de roupa !
Arregalo os olhos
- O que ?
-AGORA! – Aponta pra porta do quarto
Meus olhos se enchem de lágrimas e uma desliza pelo meu rosto . Olho pra minha mãe buscando ajuda , ela dá de ombros e volta a assistir ,pouco se lixando pra mim . Volto pra meu quarto e coloco um vestido longo folgado que minha mãe me deu por não usar mais , ou quando ia pra igreja . Volto pra sala emburrada.
-Agora sim – Ele diz dando um gole em sua cerveja e aponta com ela pra mim – Não demore , ou dormirá no lado de fora .
Mordo minha boca pra não lhe dar uma resposta ousada . Assinto com a cabeça e saio porta a fora , me sentindo um pouco livre pra sair dessa prisão em que me encontro .
Peguei o coletivo e quando cheguei ao festival , tinha tanta gente que fiquei atônita . Vendi bastante flores e ainda sobrou um bocado , mas estava feliz porque tinha lucrado 100, 00 . Andei pelo meio do povo oferecendo mais , mas ninguém estava mais entusiasmado em comprar . Em algum tempo rodando , quando o apresentador gritou '' e com vocês Hayden Ward'' quase fui atropelada por uma quantidade incalculável de pessoas que se espremiam gritando e uivando como lobos em direção do palco , eu embaracei no meu vestido e senti uma raiva súbita por meu'' pai'' me fazer usá-lo.
Eu não tinha entrado, mas tinha muita gente do lado de fora , a maioria com o som de carros ligados ouvindo todo tipo de música – então tive mais certeza de que perda de tempo seria comprar um ingresso pra ouvir música , quando posso ouvir na minha casa ou no rádio? .
Fiquei ainda oferecendo flores já que a algum tempo tinha me despedido da Virgínia e do seu namorado. Estava cansada e já era tarde. Então decidi ir embora.
-Que horas são moço? – Perguntei a um dos seguranças, só pra ter certeza de que não ficarei do lado de fora caso não chegue no horário em casa .
Ele olha pro seu relógio com impaciência me fazendo sentir culpada por estar lhe importunando e me olha em seguida – 00:30
Me sobressaltei - Caramba ! .
Alguém se tomba em mim me fazendo dar um passo brusco pra frente
-Sorry ..opa ! , desculpe – Me viro estacando no lugar quando encaro lindos olhos verdes que me olham penetrantes e um leve franzir na testa . Usava capuz e não dava pra ver que cor eram seus cabelos
Ele era muito lindo !, não me recordo de ver alguém tão bonito em toda minha vida , com certeza parecia uma idiota o encarando desse jeito.
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