
O Legado Roubado
Capítulo 3
O café estava cheio. Jovens como eu, com o mesmo sonho nos olhos, esperavam ansiosos.
Era o dia do teste final para o clube local, uma porta de entrada, uma chance real. A última chance antes da janela de transferências fechar.
O ar estava pesado com a tensão.
"Cadê o Antônio? A gente precisa entrar, a comissão técnica já está esperando," um dos garotos, Léo, disse, batendo os dedos na mesa.
Todos os olhares se voltaram para mim e para Sofia, sentada ao meu lado, mexendo no celular com uma calma irritante.
"Calma, gente," ela disse sem tirar os olhos da tela. "O Antônio não vai fazer esse teste medíocre."
Um murmúrio de surpresa e raiva percorreu o grupo.
"Como assim, medíocre? É a nossa chance!", gritou outro rapaz.
"O Antônio tem coisa melhor. Estou esperando um contato importante, um empresário de verdade, não esses amadores daqui," Sofia respondeu, com um tom de superioridade que fazia meu estômago revirar.
Ela estava esperando Ricardo. O abutre.
Ela estava deliberadamente me segurando aqui, me impedindo de entrar, de seguir o caminho que, na outra vida, eu ignorei. A sua teimosia estava bloqueando não só o meu futuro, mas o de todos os outros que dependiam do início do teste.
"Sofia, a gente vai se atrasar. Isso é importante," eu falei, testando-a.
"Mais importante que seu futuro? Que o nosso futuro?", ela virou o rosto para mim, os olhos brilhando com uma intensidade manipuladora. "Confia em mim, Tonho. Eu sei o que é melhor para você."
Ela pegou minha mão, um gesto que antes me derretia, mas que agora parecia o toque de uma serpente. Ela estava criando uma cena, usando nosso relacionamento como uma arma para me manter preso à cadeira.
Os outros jogadores nos olhavam com uma mistura de pena e raiva. Para eles, eu era só um idiota controlado pela namorada.
E era exatamente isso que eu queria que eles pensassem.
Eu respirei fundo e encenei minha parte.
"Você tem razão, amor," eu disse, com uma voz suave. "Se você diz que ele é bom, eu espero. A gente espera."
O queixo de Léo caiu. Os outros rapazes me olharam com incredulidade e desprezo.
"Você tá louco, cara? Vai jogar seu futuro no lixo por causa dela?", Léo sibilou.
Eu dei de ombros, um gesto de submissão calculada.
Sofia sorriu, vitoriosa.
Ela se inclinou e me deu um beijo no rosto, um beijo gelado de posse.
"Viu só? Ele sabe que eu estou certa," ela disse, olhando para os outros com um ar de triunfo. "Agora, se vocês nos dão licença, estamos esperando alguém que realmente importa."
A arrogância dela era palpável, um veneno que se espalhava pelo ambiente. Ela não se importava com os sonhos daqueles garotos. Não se importava com a ansiedade deles, com o desespero que crescia a cada minuto perdido.
Eles eram apenas um dano colateral no seu grande plano.
E eu, o tolo apaixonado, era a peça central do seu golpe.
Mal sabia ela que o tolo agora conhecia o jogo inteiro. E estava prestes a virar o tabuleiro.
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