
O Legado Roubado da Amante
Capítulo 3
Meu pai, com um suspiro teatral de exasperação, gesticulou para um dos funcionários.
"Vá buscar o maldito cofre. Vamos acabar logo com essa palhaçada para que possamos continuar com os negócios de verdade."
Enquanto o funcionário saía apressado, a mente do meu pai já estava em outro lugar. Ele fingia relutância, mas o sorriso mal disfarçado em seus lábios o traía. Para ele, isso era apenas mais uma prova da minha inaptidão, um espetáculo lamentável que só serviria para destacar ainda mais o "brilho" de sua filha preferida, Rafaela.
A preferência dele nunca foi um segredo. Desde que Rafaela, sua filha bastarda, veio morar na fazenda logo após a morte da minha mãe, a dinâmica da casa mudou completamente. Eu, que sempre fui a filha dedicada, a herdeira natural, fui lentamente posta de lado.
Rafaela era a "genial". Tudo o que ela fazia era celebrado. Seus desenhos infantis eram "obras de arte", suas notas medianas na escola eram "provas de seu intelecto superior". Enquanto isso, meu trabalho duro na fazenda, meu conhecimento profundo sobre cada grão de café, era visto como algo trivial, um trabalho braçal, coisa de gente sem ambição.
Lembro-me claramente de uma vez, quando eu tinha uns quinze anos. Eu passei meses desenvolvendo uma nova técnica de enxerto para um tipo de café mais resistente a pragas. Era o meu "osso de besta", a minha criação, a prova do meu talento. Mostrei-a, orgulhosa, ao meu pai.
Ele olhou por cima, desinteressado.
"Interessante, Sofia. Continue trabalhando."
Uma semana depois, na feira agrícola da cidade, Rafaela apresentou a minha técnica como se fosse dela. E meu pai estava ao seu lado, o peito estufado de orgulho, dizendo a todos como sua filha era "uma visionária, um verdadeiro prodígio".
Quando o confrontei, ele apenas balançou a cabeça.
"Sofia, não seja egoísta. Rafaela tem o dom da comunicação, ela sabe 'vender' a ideia. Você é boa no trabalho duro. Fiquem com o que vocês fazem de melhor. Pense na família."
"Pensar na família" sempre significou sacrificar-me por Rafaela.
O funcionário voltou, carregando com dificuldade o cofre de madeira escura. Era pesado, antigo, com entalhes que o tempo havia suavizado. Ele o colocou no palco com um baque surdo.
Rafaela riu.
"É isso? Parece que vai desmoronar se a gente tocar."
Meu pai se aproximou de mim, baixando a voz para um sussurro paternal falso.
"Filha, ouça," ele disse, colocando a mão no meu ombro, um gesto que deveria ser de conforto, mas que me causou repulsa. "Eu sei que é difícil. Pedro é ambicioso, e Rafaela... bem, ela tem o que é preciso. Deixe isso para lá. Aceite o cofre como uma lembrança da sua mãe. Não prolongue essa humilhação."
Era uma ordem disfarçada de conselho. Ele estava me oferecendo um prêmio de consolação, um pedaço de lixo para que eu saísse de cena e não atrapalhasse o triunfo de sua filha favorita.
Olhei ao redor. Vi os olhares de pena de alguns dos funcionários mais antigos, pessoas que me viram crescer, que sabiam do meu amor pela fazenda. Eles sabiam que aquilo era uma injustiça, mas eram impotentes, assim como eu parecia ser.
Aceitei em silêncio. Por fora, eu parecia derrotada, a herdeira despojada que se agarrava a uma última relíquia inútil. Mas por dentro, uma chama se acendia.
Toquei a madeira fria do cofre. Era pesado, sim, mas não como um objeto morto. Havia uma densidade nele, uma energia contida. O que todos viam como um caixote velho e empoeirado, eu sentia como algo diferente. Era como segurar um ovo que todos acreditavam estar morto, mas que eu sentia uma leve pulsação vinda de dentro.
Uma promessa.
Um segredo.
O último presente da minha mãe.
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