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Capa do romance O Legado Do Alfa

O Legado Do Alfa

Derik Hale, o temido alfa de Nova Orleans, carrega o destrutivo poder do Legado. Enquanto isso, a legista Allison Morgan investiga mortes estranhas que a levam a um destino sombrio. Quando seus caminhos se cruzam, um vínculo sobrenatural e ardente surge, unindo-os contra caçadores e sombras. Agora, Rick deve controlar sua fera interior ou permitir que ela consuma Allison. Em um mundo de instintos, esse amor proibido pode ser a sentença de morte definitiva.
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Capítulo 3

Fiquei alguns segundos sem piscar, só encarando a chuva do lado de fora e aquele homem parado como se a noite tivesse sido feita pra ele. Tinha algo no jeito que ele preenchia o escuro. Não era só presença. Era ameaça. Era promessa. Era as duas coisas ao mesmo tempo.

Meu peito queimou de novo, bem no centro. Quase xinguei em voz alta.

- Não. Agora não.

Peguei as luvas, respirei fundo, desliguei a lâmpada da mesa de autópsia. O necrotério ficou naquela penumbra feia de hospital fora de hora. Achei que, no breu, minha cabeça ia se acalmar. Piorou. O símbolo na foto do meu celular ainda brilhava. Ao vivo, não. Na foto, sim. Parecia rir da minha cara.

Uma batida seca na porta do corredor me fez pular.

Não foi "toc-toc". Foi batida de quem não pede licença.

- Arthur? - chamei, já sabendo que não era.

Silêncio. O tipo de silêncio que estica a espinha. O tipo que faz a gente lembrar que está viva.

Travei a respiração, empurrei a porta com o ombro e entrei no corredor. Luz fria, piso molhado de chuva que alguém trouxe na sola do sapato. O ar cheirava a álcool, café velho e... outra coisa. Madeira molhada? Terra? Lobo molhado passou pela minha cabeça e eu ri de mim mesma. Só que o riso não saiu.

Ele estava ali.

A uns cinco passos, encostado na parede, braços cruzados, camiseta escura grudada no corpo, água escorrendo do cabelo pro pescoço. Olhos que não davam trégua. Eu não sabia se eram claros ou escuros - só sabia que me seguravam. Como se eu tivesse sido puxada por um cabo invisível até a borda de um lugar sem volta.

- Você não devia estar aqui - eu disse. A voz saiu firme, graças a Deus.

Ele não piscou.

- E você devia - respondeu, calmo, como quem avisa "vai chover".

- Aqui é área restrita. - Levantei o crachá sem pensar. Um reflexo idiota, pra me lembrar de quem eu era, do lado que eu ficava. - Quem é você?

- Alguém que chegou antes do pior - ele disse.

- Isso não é resposta.

- É aviso.

O peito apertou.

- Se é polícia, mostra a droga do distintivo. Se é parente, fala o nome do morto. Se não é nada disso... dá meia-volta.

Ele deu um passo.

A vontade foi dar dois pra trás. Forcei as pernas a ficarem no lugar. O calor subiu no esterno, espalhou pelos ombros. Eu senti - de novo - o mesmo ritmo batendo dentro e fora de mim. O meu coração e o dele conversando sem a gente ter dado permissão.

- Você tá sentindo também - ele disse, quase um murmúrio. Não era pergunta. Era certeza.

- Sentindo o quê? - Eu segurei o olhar, mas não foi fácil. Ele olhava como quem despia.

- O chamado.

- Ahnam. Tá bom. Próxima fala é "sou lobo, você é a lua"? - ironizei, porque quando dá medo de verdade eu viro boca.

O canto da boca dele mexeu, só um pouco.

- Se eu dissesse que sim, você corria ou chegava mais perto?

- Eu te tasco uma prancheta na cara e chamo segurança.

- Tenta.

A palavra ficou no ar. Não como provocação barata. Como desafio de quem sabe exatamente o que faz com a gente quando fala assim.

Por um segundo, eu odiei aquele homem. De verdade. Odiei o jeito seguro, o corpo plantado, a força que dava pra sentir sem encostar. Odiei o jeito que meu corpo respondeu, traíra, sem pedir minha opinião.

- O que você quer aqui? - perguntei, engolindo o nervoso.

Ele apontou com o queixo na direção da sala.

- O morto. Essas marcas. E você.

- Desculpa? - a indignação veio rápido, graças a Deus. - Me respeita.

- Eu respeitei. - Ele inclinou de leve a cabeça. - Eu só falei a verdade.

- Verdade é que você invadiu um necrotério às onze da noite, molhando o chão e sujando o meu plantão. Verdade é que eu vou ligar agora pro Arthur e-

- Liga. - Ele encostou o ombro na parede, como se tivesse todo o tempo do mundo. - Quando ele chegar, eu já não tô aqui. E nada do que interessa vai ter sido dito.

Eu ainda ia retrucar quando o corredor inteiro ficou frio. Não de ar-condicionado. Frio de igreja vazia de madrugada. As lâmpadas piscaram, uma após a outra, como se alguma coisa passasse por baixo delas e roubasse um pouco da luz. O instinto que eu nem sabia que tinha gritou: tem coisa errada.

- Não olha pra trás - ele disse, bem baixo.

Eu olhei.

Uma sombra mais escura que o escuro, grudada no teto, esticando os dedos como se tivesse muitos dedos, escorrendo pelas paredes. O tipo de coisa que a gente só acredita porque tá vendo. E mesmo vendo, a cabeça tenta negar.

Meu corpo foi pra frente sem eu mandar. A mão dele agarrou meu braço e me puxou pro lado, me colando na parede, o peito dele encostando no meu. Quente. Vivo. Forte. O calor do meu esterno respondeu na hora, feito faísca indo atrás de gasolina.

- Solta - falei, mas minha voz saiu curta, quase sem ar.

- Fica quieta - ele disse, sem grosseria. Foi ordem. E eu obedeci. O que me deu raiva. E me deu alívio também.

A sombra desceu um palmo, como se cheirasse. O corredor inteiro cheirou a coisa que apodrece na água. Eu queria engolir a náusea. O homem aproximou a boca do meu ouvido.

- Ela gosta de medo. - A voz raspou. - Não dá isso pra ela.

- Vou dar o quê então? Um abraço?

- Ironia também serve. - Ele quase sorriu. Quase.

A sombra esticou, testou o vidro da porta da sala de autópsia. O símbolo no meu peito queimou forte, tão forte que eu mordi o lábio pra não gemer. Ele sentiu. Claro que sentiu. O olhar dele desceu um segundo pro meu esterno, voltou pro meu rosto. Ficou mais escuro. Mais... perigoso.

- Isso aí é meu? - ele perguntou baixo. Não era vulgaridade. Era instinto.

Eu quis bater. Eu quis beijar. Eu quis sumir.

- Não é de ninguém. É meu - respondi, firme, e só então percebi que era verdade. - E eu decido.

Ele assentiu. Nem um pingo de ofensa. Só respeito.

- Então decide ficar viva - murmurou.

Do fim do corredor, passos. Rápidos. Pesados. Prata no ar. Doeu dentro do nariz. Caçadores. Merda.

- Amiga, a segurança é comigo - ele disse, mais pra si do que pra mim. O timbre mudou, ganhou um peso que meu corpo entendeu antes da minha cabeça. Alfa. A palavra entrou sozinha na minha boca sem eu falar.

Ele tirou o corpo do meu, só o suficiente pra eu respirar, mas não o bastante pra eu sentir falta. Tarde demais: eu já sentia.

- Vai entrar naquela sala, trancar, apagar a luz e não abrir pra ninguém que não falar o teu nome completo - ele falou, olho no meu. - Fala comigo: Allison Morgan.

- Eu não obed-

- Fala o teu nome - ele apertou meu pulso de leve. Não doeu. Mas doeu.

- Allison Morgan - saiu.

- Boa menina.

- Eu não sou "menina".

- Eu sei. - Ele respirou perto. - Por isso eu tô te pedindo.

A sombra no teto vibrou, como se tivesse ouvido e odiado. Os passos de prata dobraram a esquina. Três homens, colete, cara de quem veio preparado pra guerra errada. Um deles ergueu a arma, dedo perto demais do gatilho.

- Senhores - o homem à minha frente disse, indo um passo adiante, o corpo entre mim e eles. - Lugar errado. Hora errada.

- Quem é você? - o da frente rosnou.

O estranho sorriu daquele jeito curto de quem não tem paciência.

- O problema que vocês não querem.

Eu devia ter corrido pra sala. Devia. Em vez disso, fiquei um segundo olhando a linha da mandíbula dele, o jeito que o ombro abre espaço, o jeito que ele decide o ambiente. É incrível como a gente reconhece alguém que carrega o perigo como segunda pele.

- Vai, Allison - ele disse, sem olhar pra trás. - Fecha.

- Como você sabe meu nome? - perguntei, já com a mão na maçaneta.

- Eu sinto.

A tranca bateu. Apaguei a luz. Encostei a testa na porta, tentando ouvir com o corpo. Do lado de fora, silêncio de um segundo, dois, três. Depois, tudo ao mesmo tempo: ordem gritada, metal raspando, um impacto seco, outro, vidro estalando, um rugido que não era humano e, acima de tudo, minha pele queimando como se alguém tivesse escrito fogo por dentro de mim.

Peguei o celular no bolso. A tela acendeu sozinha. Outra mensagem do número sem nome:

"Se ele tombar, você tomba junto. Escolha."

A lâmpada no teto estourou. O símbolo na minha foto ficou dourado por um piscar de olho. Lá fora, um corpo bateu na porta como um peso morto.

Eu segurei a maçaneta.

E abri.

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