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Capa do romance O Jogo Mais Cruel do Negociador

O Jogo Mais Cruel do Negociador

Heitor Ferraz, o negociador herói da PF, escolheu salvar sua colega Bárbara em vez de mim durante um sequestro. Após sobreviver ao tiro, pedi o divórcio, mas descobri que nosso casamento de seis anos nunca existiu legalmente. Tudo não passou de uma farsa meticulosa para encobrir sua espera por outra mulher. Traída e ferida, percebi que minha vida inteira foi construída sobre mentiras de um homem que me usou como um escudo emocional para proteger seu verdadeiro amor.
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Capítulo 1

Meu marido, Heitor Ferraz, era o queridinho da Polícia Federal, o negociador heroico que nunca perdia a calma. Para o mundo, éramos o casal perfeito.

Então, um assalto a banco deu terrivelmente errado. O sequestrador desesperado agarrou duas mulheres como escudos humanos: eu e a colega de Heitor, Bárbara. Ele deu uma escolha ao meu marido: salvar uma.

Pelo megafone, a voz do meu marido ecoou, clara e decisiva para o mundo inteiro ouvir.

"Solte Bárbara Salles! Ela é um patrimônio nacional!"

Ele correu para abraçá-la, protegendo-a com seu corpo, sem sequer olhar para trás. O sequestrador, enfurecido, virou a arma para mim. Eu vi o clarão antes que o mundo ficasse preto.

Acordei no hospital e a primeira coisa que fiz foi ligar para um advogado. Eu queria o divórcio. Mas ele voltou do cartório com uma expressão estranha no rosto.

"Temos um problema, Sra. Ferraz", disse ele, deslizando o documento pela mesa. "De acordo com os registros oficiais, este casamento nunca foi registrado. Legalmente, vocês nunca se casaram."

Seis anos. Nossa casa, nossos amigos, nossa vida — tudo construído sobre uma mentira. Era tudo por ela. Ele construiu uma vida perfeita e falsa comigo apenas para poder esperar Bárbara voltar.

Capítulo 1

Heitor Ferraz conseguia convencer um homem a não pular de um prédio. Conseguia desarmar um homem-bomba com uma voz firme e uma promessa bem colocada. Em todos os canais de notícias, ele era o queridinho da PF, o negociador heroico do Comando de Operações Táticas que nunca perdia a calma. Eu o observava na tela, o maxilar cerrado, os olhos tranquilos, e sentia uma mistura familiar de orgulho e um espaço frio e vazio ao meu lado no sofá.

Todos viam o casal perfeito. *Herói Nacional Encontra o Amor com Esposa Devotada, Alice Pereira*, dizia a manchete de uma revista. Nossos amigos suspiravam de inveja nos jantares. "Vocês dois são o que todo mundo sonha", diziam. Heitor sorria, um sorriso perfeito e polido, e apertava minha mão. Era uma atuação excelente.

Mas quando as câmeras desligavam e os amigos iam embora, aquela mão se soltava. Seus olhos, tão focados e empáticos na televisão, olhavam para além de mim, através de mim. O calor era um interruptor que ele ligava para o público. Para mim, havia apenas uma distância educada e avassaladora. Ele era um profissional no controle de tudo, exceto da capacidade de amar verdadeiramente a mulher que chamava de esposa.

O telefone tocou, quebrando o silêncio da noite. Heitor atendeu, sua voz mudando instantaneamente, tornando-se mais quente, mais viva do que eu a ouvia há anos.

"Bárbara? Você voltou?"

Uma cãibra aguda e brutal tomou meu abdômen. Eu arquejei, dobrando-me, o controle remoto caindo no chão. Uma dor quente e cruel me rasgou por dentro.

Heitor mal olhou na minha direção. "Uma festa de boas-vindas? Claro, estarei lá."

"Heitor", consegui dizer, minha voz tensa de agonia. "Tem alguma coisa errada."

Ele cobriu o receptor. "O que foi, Alice? Estou no telefone."

"O bebê", sussurrei, uma onda de náusea e terror me invadindo. "Acho que... estou perdendo o bebê."

Ele olhou para mim então, um brilho de irritação em seus olhos. Ele disse ao telefone: "Chego em breve, Bárbara. Mal posso esperar para te ver." Ele desligou e se virou para mim, o rosto uma máscara de impaciência. "Você tem certeza? Provavelmente é só uma dor de estômago."

"Não", gritei, outra onda de dor me fazendo ver pontos escuros. "Não é. Estou sangrando."

Ele suspirou, um som de profundo incômodo. Tirou a carteira e jogou um cartão de crédito na mesa de centro. "Chame um táxi. Eu tenho que ir. Essa festa é importante."

"Importante?", encarei-o, a dor no meu coração agora rivalizando com a dor no meu corpo. "Mais importante que isso? Que nosso filho?"

"Ainda não era bem uma criança, Alice", disse ele, a voz fria e desdenhosa. Ele ajeitou a gravata. "Mal era um amontoado de células. Não seja dramática."

"O retorno da Bárbara é um grande evento", continuou ele, seu tom mudando para o profissional e razoável que usava com criminosos. "Ela é uma figura chave no contraterrorismo. Minha presença é uma necessidade profissional. Você entende."

Eu não conseguia falar. A crueldade de suas palavras roubou meu fôlego. Ele viu meu silêncio como aceitação. Deu um tapinha no meu ombro, um gesto desprovido de qualquer conforto.

"Eu vejo como você está mais tarde."

Então ele saiu pela porta, deixando-me sangrando no chão.

Ele foi para a festa dela. Eu fui para o pronto-socorro sozinha. As palavras do médico eram um zumbido abafado ao fundo. "Sinto muito, Sra. Ferraz. Fizemos tudo o que podíamos."

Horas depois, Heitor apareceu ao lado da minha cama. Cheirava a perfume caro e champanhe. Segurava um buquê de flores baratas de hospital. Seu rosto era uma máscara bem ensaiada de preocupação.

"Sinto muito, querida. Vim assim que soube."

A mentira era tão descarada, tão insultuosa, que me deu enjoo. Virei o rosto para a parede.

"Não me toque", eu disse, minha voz vazia.

Ele tentou mesmo assim, a mão no meu braço. "Alice, eu sei que você está chateada. Bárbara e eu, somos apenas velhos amigos. Era uma obrigação profissional."

"Saia", sussurrei.

Ele suspirou, o negociador paciente lidando com um sujeito irracional. "Tudo bem. Vou te dar um espaço." Ele saiu, e o silêncio que deixou para trás foi um alívio.

A semana seguinte foi um borrão de luto e vazio. Então veio a ligação que mudou tudo. Um assalto a banco no centro. Reféns. Heitor era o negociador principal. Eu assistia na TV da minha cama, uma espectadora oca de seu heroísmo.

Então a situação escalou. O ladrão, desesperado, tentou fugir, arrastando duas mulheres com ele como escudos. A câmera deu um zoom. Meu sangue gelou. Uma era uma estranha. A outra era Bárbara Salles.

Eles foram encurralados em um beco. Outra figura apareceu na tela - era eu. Eu estava por perto e, em um momento de caos, o ladrão me agarrou também. Agora ele segurava as duas mulheres.

A transmissão era ao vivo. Um capitão da polícia falava. "O suspeito exige uma escolha. Ele diz que o Negociador Ferraz tem que escolher quem vai embora."

A câmera focou no rosto de Heitor. Ele pareceu dividido por um momento, uma imagem perfeita de agonia para a audiência. Mas eu o conhecia. Eu vi o cálculo em seus olhos.

Ele levou o megafone aos lábios. Sua voz ecoou pelos alto-falantes, clara e decisiva.

"Solte Bárbara Salles! Ela é um patrimônio nacional!"

Meu mundo parou. Na tela, o sequestrador empurrou Bárbara em direção à linha policial. Heitor correu para frente, envolvendo-a em um abraço protetor, seu corpo protegendo o dela. Ele nunca olhou para trás.

O sequestrador, enfurecido e encurralado, virou a arma para mim. Eu vi o clarão. Uma dor lancinante explodiu na minha lateral. O mundo ficou preto.

Acordei com o teto branco e estéril de um quarto de hospital. A primeira coisa que fiz foi ligar para um advogado.

"Quero entrar com o pedido de divórcio", disse a um homem chamado Dr. Dantas.

Ele me olhou com pena. "Claro, Sra. Ferraz. Uma provação terrível. Só precisaremos de uma cópia da sua certidão de casamento para começar."

Pedi que ele a pegasse no cofre do banco. Ele voltou ao meu quarto de hospital uma hora depois, com uma expressão estranha.

"Temos um problema, Sra. Ferraz."

"Qual é?"

Ele deslizou um documento pela mesa de cabeceira. Era nossa certidão de casamento. Ou o que deveria ser nossa certidão de casamento.

"Este documento", disse ele gentilmente, "nunca foi registrado no cartório de registro civil. É uma cópia fraudulenta."

Eu encarei o papel. A assinatura floreada do juiz de paz, a data, nossos nomes - tudo parecia real. "Do que você está falando? Tivemos um casamento. Seis anos atrás."

"Sinto muito", disse o Dr. Dantas, sua voz firme. "Eu mesmo verifiquei os registros oficiais. Não há registro de casamento entre Alice Pereira e Heitor Ferraz. Legalmente, vocês nunca se casaram."

As palavras não faziam sentido. Uma mentira de seis anos. Nossa casa, nossos amigos, nossa vida - tudo construído sobre um pedaço de papel que ele nunca registrou. Uma farsa. Era tudo uma farsa.

Era por ela. Sempre foi por ela. Ele construiu uma vida perfeita e falsa comigo para poder esperar Bárbara voltar.

Meu telefone tocou. Era meu irmão, Daniel, um agente sênior da PF. Sua voz era sombria.

"Alice, você está sentada? Eu andei investigando o Heitor. E a Bárbara Salles."

"O que foi, Daniel?", perguntei, minha voz um monótono sem vida.

"Aquele atentado terrorista que matou a mamãe. A falha de inteligência que levou a equipe de resposta ao local errado... a analista que cometeu aquele erro fatal foi apagada do relatório oficial."

Um pavor gelado se infiltrou em meus ossos.

"O nome da analista, Alice", disse Daniel, sua voz carregada de fúria. "Era Bárbara Salles."

O telefone escorregou da minha mão. Heitor não tinha apenas acobertado sua obsessão. Ele se casou comigo, a filha de uma de suas vítimas, como a cobertura definitiva. Minha vida não era apenas uma mentira. Era uma profanação.

Voltei para a casa que nunca foi meu lar. Heitor estava lá, o rosto uma máscara de falsa preocupação.

"Alice, graças a Deus você está bem. Eu estava tão preocupado."

Passei por ele, recusando seu toque. Aquele homem era um estranho para mim. Um monstro.

"Eu tentei explicar na cena", ele começou, sua voz escorrendo falsa sinceridade. "Bárbara é um patrimônio nacional. A escolha foi estratégica, um cálculo frio para o bem maior."

"Você é um estranho", eu disse, olhando para ele como se fosse pela primeira vez. A fachada encantadora se foi. Eu só via a podridão por baixo.

"Você realmente acha que ela é uma heroína, não é?", perguntei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. Ergui a certidão de casamento fraudulenta, o papel tremendo na minha mão. "Assim como você acha que isso é real."

Essa era a minha vida. Uma esposa substituta para um monstro narcisista obcecado por uma fraude incompetente que matou minha mãe. O pensamento era tão absurdo, tão horrível, que não senti nada. Apenas uma vasta e fria dormência.

Passei por ele e fui para o meu quarto, trancando a porta. Eu precisava escapar. Precisava desaparecer. Caí em um sono inquieto e exausto.

Uma faxineira enviada por Heitor bateu na minha porta com uma bandeja de comida. Eu a ignorei. Mais tarde, um dos colegas de Heitor da PF, um homem que sempre me olhava com pena, veio à porta.

"Alice, o Heitor é um bom homem", disse ele através da madeira. "Ele é só... complicado. E a Bárbara, ela passou por muita coisa. Aquele erro anos atrás... não foi culpa dela. Era uma situação de alta pressão."

Suas palavras confirmaram tudo. Heitor havia construído um muro de mentiras ao redor de Bárbara, usando sua reputação e poder para protegê-la. E ele me usou como a fundação daquele muro.

Percebi então que meu amor, minha dor, meu filho perdido - não significavam nada para ele. Eram apenas inconvenientes na grande e obsessiva história que ele havia escrito para si mesmo e para Bárbara.

A dormência recuou, substituída por um foco frio e claro. Eu não seria uma vítima. Abri meu notebook, meus dedos voando pelo teclado. Era hora de parar de ser Alice Pereira, a esposa gentil. Era hora de ser quem eu realmente era.

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