
O Jogo Cruel de Nove Vezes
Capítulo 3
Isabela recebeu outra ligação de Leonardo.
Ele a chamava para comemorar o "novo projeto".
Ela nem olhou para o envelope que ele lhe dera, o suposto "presente".
Ela o jogou na bolsa.
"Preciso ir, Mateus. Leonardo está me esperando!"
Ela saiu apressada, os olhos brilhando pela expectativa de estar com ele.
O abandono nem mais me surpreendia.
A indiferença dela era clara.
Eu não senti nada quando ela saiu.
Nenhuma dor aguda, nenhuma surpresa.
Apenas um vazio.
Um cansaço profundo.
Fui para o quarto.
Deitei na cama e dormi.
Ou tentei.
O esgotamento emocional era pesado.
Na manhã seguinte, Isabela tentou uma aproximação.
Ela me abraçou por trás na cozinha.
"Desculpe por ontem, amor. Estava tão animada com o projeto."
Sua voz era suave, quase carinhosa.
Uma falsa esperança tentou surgir, mas eu a esmaguei.
"Você leu o 'projeto'?" perguntei, a voz neutra.
Ela pareceu confusa.
"Ainda não tive tempo. Leonardo disse que era incrível."
Suas palavras confirmaram.
Nenhum remorso genuíno.
Nenhuma mudança.
A amargura voltou.
Eu sabia, internamente, que era o fim definitivo.
Minha resolução se solidificou.
Não havia mais volta.
O relacionamento estava morto.
Eu só precisava formalizar.
Isabela tentou retomar nossas rotinas.
Sugeriu um filme à noite, como costumávamos fazer.
"Não, obrigado," eu disse. "Tenho coisas para resolver."
Ela me olhou, surpresa com minha firmeza.
Uma leve confusão passou por seus olhos.
Eu estava quebrando a dinâmica antiga.
Ela não entendia.
Ou não queria entender.
Comecei a notar pequenas mudanças em casa.
O amuleto de carro que minha avó me deu, que sempre pendurei no retrovisor do nosso carro, sumiu.
No lugar, um penduricalho moderno, do gosto de Leonardo.
Perguntei a Isabela.
"Ah, aquilo? Estava tão velho, Mateus. Leonardo me deu este, é mais a nossa cara, não acha?"
Ela disse com naturalidade, descartando algo sentimental para mim.
Minha "cara" não importava mais.
Era a "cara" deles.
Senti a última gota de apego emocional escorrer de mim.
A finalidade era palpável.
Uma dor silenciosa, mas definitiva.
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